Uma das cadeiras básicas de muitos cursos acadêmicos é a Filosofia. Não por acaso, é considerada a mãe de todas as ciências. Apologias a parte, a filosofia é por definição a constante racionalização do homem para entender o mundo em sua volta e contextualizá-lo nesse mundo. Essa racionalização entrementes é algo que nos diferencia de outros seres, o ser humano, o bicho racional, essa é a verdadeira força de nossa predominância na terra, o resto, os 99% do nosso DNA nada diferencia-nos de qualquer outro ser vivente. Essa espantosa comparação nos levar há uma profunda introspecção . Por isso, voltamos ao ponto de partida: só os homens racionais podem se deliciar sobre sua própria existência, cogitando os produtos da physis e confabulando o incompreensível. Eram assim que os grandes cientistas e filósofos da Grécia Antiga como Sócrates e Platão, passando pelas teorias de Galiléu e a engenhosidade de Da Vince, até chegar às teorias da relatividade de Einstein e a física quântica de Niels Bohr. Esse é o homem, descobrindo a si próprio e o mundo onde habita por meio da racionalidade.
Nessa vanguarda ferrenha somos nós, acadêmicos, voltados para racionalizar tudo, somos levados a teorizar sobre o desconhecido antes de qualquer imposição empírica. Queremos a contestação teórica sobre a ciência já que a vantagem (?) de todo o conhecimento científico é potencialmente dinâmico e mutável. Nenhuma descoberta é de fato uma verdade, nenhum experimento ou teoria poderá potencializar algo absoluto imutável ao ponto de não ser incontestável. Um dilema fortemente enraizado no mais noviço dos cientistas que inicia sua carreira. Sabemos que a ciência professada não pactuará com qualquer negligente pensamento relacionado a aspectos inexplicáveis, tendo em vista que tudo poderá ser teorizado e resolvido, talvez não agora, já, nesse momento, mas no futuro, se não houver uma explicação lógica que resolva de imediato o inexplicável, é simplesmente pelo fato dos sapiens ainda não terem teorizado e formulado as evidências necessárias para uma experiência empírica sobre o fato. Imaginem as questões de fé? O grande paradigma que margeia a história humana. Como poderemos apresentar argumentos plausíveis para a fé humana?
Nada mais controverso para uma explicação científica do que, por exemplo, a ressurreição. Isso mesmo, nenhuma ciência poderia explicar o retorno à vida de um corpo declarado morto. O cristianismo é a única religião que professa abertamente que Seu Deus não morreu. Para entender essa confissão de fé e dar respostas plausíveis à luz da racionalidade humana é necessário enveredar para o lado da descrença, antes de tomar partido. Exatamente isso, para que possamos ter juízo de causa para construir uma opinião sobre o assunto é necessário conhecer a “estória” em sua plenitude sem nos deixarmos levar pelo simples ceticismo, já que podemos racionalizar sobre a vida daquele que se declarou ser O Cristo, uma pessoa que acreditar ter um mínimo de intelecto estaria disposto a tentar conhecer um pouco mais desse Judeu chamado de Deus por seus seguidores; se esse homem realmente falou as coisas que estão registradas nesse conjunto de livros que chamamos de bíblia; se esses mesmos livros são uma grande farsa ou se o próprio Jesus é apenas uma estória criada por outros homens que se tornou verdade com o passar dos anos. Podemos fabular todas as teorias que caracterizam o pensamento racional, sempre buscando a verdade ou chegar o mais próximo dela. Por isso, devemos como pesquisadores e juízes da racionalidade estarmos prontos a identificar e analisar fatos, quando não for possível a análise dos fatos, devemos reunir evidências sistemáticas que nos levem a um veredicto. Enfim, devemos nos despir de quaisquer preconceitos de cunho religioso ou doutrinário que possa atrapalhar nosso ponto de vista teórico sobre as confirmações científicas.
O primeiro passo para tentar esclarecer e jogar um pouco de discussão é tentar buscar identificar o Homem Jesus, o cidadão que nasceu entre os anos 4 à 6 a.C. Vamos atender. Jesus não nasceu no ano 0, a data do nascimento de Jesus foi erroneamente calculada pelo monge Dionísio, o Pequeno, no século VI durante a elaboração do calendário gregoriano, tal erro só foi admitida pela igreja romana 1400 anos depois em 1987 pelo Para João Paulo II. Contudo a informação não é substancial para o entendimento da vida histórica do homem Jesus. Antes desse período há evidências de estudos que comprovavam que os governantes e homens públicos citados por fontes bíblicas estavam realmente no poder no período do nascimento de Jesus, portanto, não há historicamente controvérsias sérias de que tais pessoas indicadas como figuras históricas, também nos evangelhos, eram personagens históricos reais. Baseado nisso, desmascarar qualquer tentativa de ludibriar uma pesquisa que remota a um passado de mais de dois mil anos, bastava o seguinte questionamento: Há evidências contemporâneas sobre a existência de governantes, senadores, procuradores, juízes, reis ou imperadores do período que é citado a existência de qualquer personagem supostamente histórico? Para Jesus, a resposta é SIM para todos os homens públicos citados em fontes bíblicas e não bíblicas.
Graças à ascensão do Iluminismo da Europa, eram amplamente divulgadas declarações de que Jesus de Nazaré nunca existiu, essas declarações eram sempre bombásticas e causava alvoroço nas igrejas cristãs, contudo com pouca ou nenhuma base científica. Nenhum cientista ou pesquisador sério sustentou tal teoria, então vamos a mais algumas evidências:
Evidências 01:
“Tácito, romano do primeiro século, que é considerado um dos mais precisos historiadores do mundo antigo, mencionou “cristãos” supersticiosos (“nomeados a partir de Christus”, palavra latina para Cristo), que sofreram nas mãos de Pôncio Pilatos durante o reinado de Tibério. Seutônio, secretário chefe do Imperador Adriano, escreveu que houve um homem chamado Chrestus (ou Cristo) que viveu durante o primeiro século (“Anais” XV,44).”
Evidências 02:
“O Talmude da Babilônia (Sanhedrin 43 a) confirma a crucificação de Jesus na véspera da Páscoa, e as acusações contra Cristo de usar magia e encorajar a apostasia dos judeus.”
Evidências 03:
“Julio Africano cita o historiador Talo em uma discussão sobre as trevas que sucederam a crucificação de Cristo (Escritos Existentes, 18).”
Pesquisas contemporâneas mostram com uma boa exatidão que viveu na região da Galiléia um homem chamado Jesus e exerceu liderança religiosa efetiva durante um curto período de tempo, e por esse motivo foi crucificado por ordens do Procurador romano Pôncio Pilatos por volta do ano 32 a. C., tal castigo só poderia ser aplicado por ele tendo em vista a natureza brutal da condenação.
Existem textos não canônicos que se referem a essa crucificação em especial, portanto a formulação de uma idéia racional passa em ter bases argumentativas que impliquem no entendimento do Homem Jesus; Flávio Josefus historiador judeu do século I, fala o seguinte sobre os acontecimentos referente a prisão, condenação e morte de Jesus de Nazaré:
Evidência 04:
“Flávio Josefo é o mais famoso historiador judeu. Em seu Antiguidades Judaicas, se refere a Tiago: “o irmão de Jesus, que era chamado Cristo.” Há um verso polêmico (XVIII,3) que diz: “Agora havia acerca deste tempo Jesus, homem sábio, se é que é lícito chamá-lo homem. Pois ele foi quem operou maravilhas… Ele era o Cristo… Ele surgiu a eles vivo novamente no terceiro dia, como haviam dito os divinos profetas e dez mil outras coisas maravilhosas a seu respeito.” Uma versão diz: “Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, que praticou boas obras e cujas virtudes eram reconhecidas. Muitos judeus e pessoas de outras nações tornaram-se seus discípulos. Pilatos o condenou a ser crucificado e morto. Porém, aqueles que se tornaram seus discípulos pregaram sua doutrina. Eles afirmam que Jesus apareceu a eles três dias após a sua crucificação e que está vivo. Talvez ele fosse o Messias previsto pelos maravilhosos prognósticos dos profetas” (Josefo, “Antiguidades Judaicas” XVIII,3,2).”
Algumas informações que circularam nos anais históricos contrários a Jesus Histórico:
“Nos documentos existentes de gregos, hindus e romanos dos Séculos I e II, constata-se que eles jamais ouviram falar de algum Jesus”.
Na verdade essa argumentação e insustentável já que os gregos e romanos no século I e II já tinham igrejas constituídas a amplamente ativa, ao ponto do Imperador Nero em 82 d. C. incendiar Roma e declarar os cristãos como culpados, já que era uma seita proeminente e ativa no império e a igreja grega foi uma das primeiras a ser fundada pelo próprio apóstolo Paulo em suas viagens missionárias. Com relação aos Hindus estamos falando de uma religião amplamente divulgada na Índia, portanto região alcançada pelo cristianismo apenas no século XV com as viagens marítimas.
“Ninguém, entre escritores e historiadores, que teriam vivido na mesma pretensa época que Jesus, falou algo sobre ele ou sobre qualquer aparição pública ou tumulto religioso encabeçado por Jesus.”
Já citados: Flávio Josefo, tácito, o romano, Plínio, Fílon de Alexandria e outros. Todos contemporâneos de Jesus de Nazaré ou no período imediatamente posterior.
“Os documentos que descrevem sobre a atuação de Pôncio Pilatos nada falam sobre alguém que chamado Jesus Cristo [...]”
Exatamente, não há registro sobre a crucificação de Jesus por Pôncio Pilatos, na verdade não registros dele sobre absolutamente nada, inclusive até o século XIX as evidências históricas eram textuais de outras fontes, contudo foi encontrado na década de 70 uma pedra que indica a construção de uma edificação durante a administração de Pôncio Pilatos, é uma prova física da existência do Procurador Romano, citando uma fonte, Eusébio de Cesaréia, em sua História Eclesiástica, afirma que Pilatos caiu em desgraça junto ao imperador Calígula e cometeu suicídio por volta do ano 37 d.C..
Portanto, dado as evidências textuais até o momento, e na inconsistência de uma argumentação contrária não é possível precisar fatos da vida de Jesus, mas sua existência, morte e crucificação são fatos históricos declaradamente factíveis.
Agora pensamos como investigadores imparciais que não possuem todas as circunstâncias claras de um acontecimento. Por dever, é necessário levantar as hipóteses e evidências que possam nos conduzir a uma certeza absoluta do que realmente aconteceu ou, caso não seja possível, chegar o mais próximo possível da verdade dos fatos, sendo coerente entre o que é possível e o que não é possível ter acontecido, ou o mais próximo disso. A ciência também trabalha sob essa perspectiva, levantar as cogitações, interpelações, consultar fontes e transparecer qualquer possibilidade para lucidar um ocorrido, claro que tudo isso será declaradamente examinado e a conclusão, como qualquer descoberta científica, poderá ser questionado em qualquer tempo. Podemos cita um simples exemplo, a morte de Getúlio Vargas, um acontecimento histórico, suicidou-se em 1954 com um tiro no peito, em seu quarto, no Palácio do Catete na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. Esse acontecimento é incontestável pelos olhos da história contemporânea, contudo ele não é conclusivo e poderá, em qualquer momento, baseado em argumentos de evidências factíveis, apresentarem uma nova versão para os acontecimentos ocorridos naquela noite de 24 de agosto de 1954. Agora vamos indagar o seguinte: Será que poderemos ter uma mentalidade definitiva sobre qualquer acontecimento do passado? Claro que não! Devemos questionar fatos e formar uma opinião pessoal somente, e tão somente, após a análise desses fatos. Uma visão fechada sobre um acontecimento, uma pessoa histórica ou produção literária poderá nos levar a um erro e a uma injustiça sobre um determinado acontecimento e/ou pessoa. Uma segunda visão: Hamilet, obra prima da dramaturgia atribuída a William Shakespeare, escrita entre 1599 e 1601. Boa parte da obra foi alterada com o passar dos séculos, segundo estudos cerca de 62% dos escritos de Shakespeare foi objeto de alterações por copistas, e mesmo assim não há um só questionamento sobre o valor da obra, inclusive até a própria autoria da obra é questionada, inclusive há teorias que sustentam que Shakespeare nunca existiu. Absurdo, claro. Fazendo um paralelo direto com textos bíblicos: Os Manuscritos do Mar Morto formam uma coleção de cerca de 930 documentos descobertos entre 1947 e 1956 em 11 cavernas próximo de Qumran, todos datados do I século da era cristã, ou seja, produzidos no período contemporâneo aos apóstolos ou imediatamente após. Foi encontrado uma quantidade significativa de passagens do Livro de João, estudos mostram que 96% a similaridade com a atual versão utilizada do Evangelho de João utilizado pelo mundo atual. Afinal, o que isso significa? Que temos em nossas mãos um relato real dos mesmos documentos que circulavam no período logo após a crucificação de Jesus de Nazaré.
Para chegarmos a discutir a ressurreição do ponto de vista lógico, de forma a estabelecer um parâmetro coerente, foi necessário entender que Jesus histórico é inegável e que os relatos bíblicos podem ser vistos à luz da historicidade teórica, contudo não estamos discutindo a validade histórica do livros bíblicos, apesar de ser necessário uma breve discussão para compor um cenário real das evidências da ressurreição de Jesus.