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Recife e suas Mutilações


A nós pernambucanos, nascidos na segunda metade do século XX, nos foi  dado o direito de descobrir as sutilezas  resplandecentes do mundo moderno, homens e mulheres forjados pelas tecnologias que nos fez respirar uma realidade inimaginável pelos nossos antepassados, fazendo vislumbrar sempre o futuro. Somos integrantes de um mundo globalizado, ansiosos por suas transformações e sua trilha para o futuro. Mas a conscientização na preservação do nosso passado é algo distante no mundo contemporâneo em especial no Brasil. Infelizmente, não temos a consciência da preservação da nossa identidade histórica para as gerações futuras, preferimos desfrutar da expectativa do futuro a preservar nossa história. Nossas crianças manipulam as redes sociais com a facilidade e a trivialidade do cotidiano, mas não sabem onde está localizado o Teatro Santa Isabel, por exemplo.

O povo pernambucano é um bravo por natureza. Nossa formação nos últimos 500 anos é marcada por pioneirismos, suor e sangue, basta observar a lista dos mártires pernambucanos que compõe o quadro de heróis da pátria. Mas a preservação histórico dessa passado heroico é mutas vezes relegada ao esquecimento, já que, infelizmente, nós pernambucanos, temos pouca vocação para valorizar, contemplar, aprender e preservar a nossa própria história, e isso não é privilégio apenas de nossa geração. A incoerência e os desmandos dos homens que deveriam, em tese, proteger nosso patrimônio histórico, não o fizeram muitas vezes por interesse político ou por motivos torpes, uma destruição metódica do nossa passo, sem qualquer justificativa. Vamos a alguns exemplos.

A ponte mais antiga das Américas foi inaugurada em 28 de fevereiro de 1643, pelo Conde Maurício de Nassau, e ligava o povoado da ilha dos arrecifes ao continente; o bairro do Recife, mais conhecido como Recife Velho, é uma ilha. Moradores da cidade não sabem, não conhecem a geografia da sua cidade. No local onde o Recife nasceu, justamente na cabeceira da Ponte construída pelo Conde Flamengo, e que recebera seu nome, existia o Arco da Conceição, o Portão de Entrada da cidade. Essa maravilhosa obra, testemunha do passado, foi demolida 1913, por exigências do trânsito. Isso mesmo. Em 1913, o trânsito em Recife já era terrível (felizmente, os franceses não acharam isso no Arco do Triunfo em Paris).

As pessoas que deveriam cuidar do patrimônio público demoliram, também por exigências do trânsito o Arco de Santo Antônio (1917), e por motivos não declarados, o Arco do Bom Jesus(1850), o maior de todos, privando as gerações futuras de contemplar tais construções, os (in)responsáveis à época da demolição, não pensaram que um dia as futuras gerações pernambucanas mereceriam contemplar tais obras.

Um outro caso notório: em 1971 o então, Excelentíssimo Senhor Prefeito do Recife Augusto Lucena, após embates com intelectuais e especialistas da época, destruiu completamente nada mais do que 400 casas, 11 ruas (Rua Augusta, Rua Santa Teresa, Rua do Alecrim, Rua de Hortas, Rua Dias Cardoso, entre outras), o Pátio do Carmo e a Igreja do Senhor Bom Jesus dos Martírios, para a construção da Avenida Dantas Barreto, um corredor viário inútil que logo foi apropriado pelo comércio ambulante, pelos terminais de ônibus e estacionamentos. Só por curiosidade, a igreja do Senhor Bom Jesus dos Martírios, tem sua construção datada entre 1791 a 1796, com uma fachada em estilo rococó, pela Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Martírios (a Irmandade dos Homens Pardos), em terreno doado pelo Sargento-Mor José Marques do Vale e sua esposa, a Sra. Ana Ferreira, era a única do Brasil totalmente edificada por negros escravos. Um outro Detalhe, o Prefeito recebeu o apoio da Arquidiocese de Olinda e Recife, sob denúncias de suborno, pressão política e sabe lá Deus mais o que.

No final das contas, Recife jaz na mutilação incessante que a cada século administradores teimam em continuar a privar as novas gerações de contemplar nossa própria história. Por fim, fico encerro com as palavras do Professor Luís Manuel Domingues do Nascimento, professor de História da Universidade Católica de Pernambuco quando se refere ao assunto: Quase sempre tudo foi operado em nome do futuro, uma entidade inflexível e onipotente que outorgava um projeto de um mundo novo que se constitui no presente e se instala no futuro, mas em momento algum se situa ou se reporta ao passado e à tradição”.

 


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  1. Arthur Rafael
    12/01/2015 às 6:46 PM

    Aqui em minha cidade existe uma Igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário, construída por uma irmandade de homens pretos livres e escravos. Em Bezerros.. Para culto próprio. Sua última modificação foi em 1851.

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