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Archive for junho \25\America/Recife 2010

Perseguição a Clubes de Futebol durante a II Guerra Mundial

Por USP

Medidas influenciadas pela política nacionalista do Estado Novo obrigaram clubes a expulsar associados de origem estrangeira. Reuniões de diretoria só podiam ser realizadas com autorização da DEOPS

Pesquisa do historiador Alfredo Oscar Salun aponta que na época da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1942, Corinthians e Palmeiras foram forçados a expulsar cerca de 150 sócios de origem estrangeira, inclusive alguns de seus dirigentes. Os dois clubes estavam entre as entidades atingidas pela legislação repressora do Estado Novo, especialmente de 1941 até 1945, quando aumentou o rigor na vigilância da polícia política aos grupos estrangeiros e seus descendentes.

Equipes mais populares da época, Palestra Itália (antigo nome do Palmeiras) e Corinthians atraíam grande número de torcedores de origem imigrante, muitos dos quais operários, caracterizando-os como times populares. “Quando o Brasil declarou guerra à Itália, Alemanha e Japão, a vigilância aos estrangeiros pela Delegacia de Ordem Política e Social (DEOPS) aumentou, devido a suspeitas de espionagem”, conta Salun.

“No Palestra Itália, predominavam os italianos, e no Corinthians havia também italianos, além de espanhóis, alemães e até árabes”, explica o historiador, que pesquisou os efeitos das medidas de nacionalização para sua tese de doutorado no Núcleo de Estudos de História Oral (NEHO) na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Após a entrada do Brasil na guerra, o Conselho Nacional de Desportos (CND) baixou uma série de regulamentações para o esporte, em acordo com o projeto nacionalista do regime do Estado Novo (1937-1945). “Os clubes de futebol foram atingidos, tendo que expulsar dirigentes e associados estrangeiros, principalmente os ligados aos países do Eixo, rotulados como ‘Súditos do Eixo’.”


Vigilância

A desobediência às normas de nacionalização poderia levar ao fechamento dos clubes. “No caso do Palestra Itália, isso gerou rumores não confirmados de que dirigentes do São Paulo manobravam nos bastidores para tomar seu patrimônio”, relata Alfredo Salun. “Os boatos e a mudança de nome para Palmeiras, em 1942, tornaram o episódio marcante na história do clube e dos seus torcedores, ao contrário dos fatos ocorridos no Corinthians.”

A aplicação das leis levou a destituição do presidente do Corinthians Manuel Correncher, espanhol de nascimento. “O clube conquistou vários títulos na gestão de Correncher, considerado uma figura folclórica, comparada a de Vicente Matheus”, conta Salun. “A presidência foi assumida por Mario de Almeida, interventor indicado pelo CND, que ocupou o cargo por alguns meses, até o clube escolher um novo presidente.”

“Em um clube é uma história conhecida e celebrada e no outro, silenciada e apagada”, destaca o historiador. Nesse aspecto, o pesquisador desenvolve um trabalho em História Oral, com torcedores, jogadores e dirigentes. “Esses clubes não foram os únicos na capital paulista que foram alvos da repressão, mas tinham maior torcida e prestígio.”

Reuniões de diretoria dos dois clubes só eram feitas com autorização da DEOPS e a presença de um agente do órgão. “Os clubes também precisavam de permissão oficial para jogos fora de São Paulo, especialmente no litoral, devido a importância estratégica das regiões costeiras na Segunda Guerra Mundial.”

Após as expulsões, Corinthians e Palmeiras realizaram uma “campanha de nacionalização” para atrair novos sócios, nascidos no Brasil. “A imprensa da época viu essa iniciativa como uma prova de patriotismo”, diz Salun. “Os estrangeiros expulsos começaram a retornar aos clubes após 1945, como reflexo do final da Guerra, de medidas liberalizantes adotadas pelo governo de Getúlio Vargas e o fim da perseguição à ‘quinta-coluna’, espiões e os ‘Súditos do Eixo’.”

Publicado:

http://www.2guerra.com.br/sgm/index.php?option=com_frontpage&Itemid=1

Santa Cruz Futebol Clube nasce alvinegro

Em 1914, o futebol no Recife não era mais privilégio do Sport, Náutico e ingleses. Ele havia se alastrado começando a se popularizar e raro era o dia em que nos jornais não saíam notinhas comunicando a fundação de mais clube. Era o paulistano,  Internacional, Centro Sportivo de Peres, Coligação Sportiva Recifense, Agros, Canxagá, Flamengo, Olinda, Botafogo, João de Barros (depois mudou para América), Velox, Americano e tantos outros. Chegou-se até a se fundar uma Liga, a recifense que teve poucos dias de vida. Jogava-se na campina do Derby (atualmente o campo da Polícia Militar no Quartel General), no jardim 13 de maio (atual Parque 13 de maio), no British Club, no Colégio São Vicente de Paula, em Olinda, e Areias. Jogava-se onde tivesse terreno baldio e até nas ruas se jogava.

Os jornais mais lidos da época, como o Pequeno, Diário de Pernambuco, a Província, e Recife, que antes davam mais ênfase às regatas e turfe, mudaram totalmente sua linha em relação ao futebol, cujo as notícias eram consumidas ferozmente pelo povo.

Eles não saiam mais espremidas numa coluna, como antes, mas em duas, três e até quatro! À falta de fotografias, encimavam o noticiário com gravuras, mostrando os jogadores disputando a posse de bola à frente de uma barra.

E foi no meio dessa empolgação pelo novo esporte que  nasceu a 3 de fevereiro de 1914 o Santa Cruz Futebol Clube, idealizado por um grupo de garotos que, à noite, costumava a reunir-se na calçada da igreja Santa Cruz, do que resultou o nome da agremiação. A reunião foi na rua da mangueira (hoje Leão Coroado), casa número 2, bairro da Boa Vista.

No ano seguinte, quando o Santa Cruz filiou-se à Liga Sportiva Pernambucana, teve que alterar suas cores preta e branca de origem, isto porque o Flamengo (de Pernambuco), que também era alvinegro, não quis abrir mão daquilo que considerava um direito alienável. O  Santa Cruz firmou-se também na mesma posição. Luiz Barbalho, fundador do clube disse que o impasse foi resolvido por meio de um sorteio. O que perdesse, mudava de cores. O Santa Cruz perdeu e transformou-se em tricolor até hoje.

Foi ainda de Luiz Uchôa Barbalho, segundo ele, a idéia de acrescentar o vermelho, pois queria que a bandeira do clube ficasse com as cores semelhantes às da Alemanha por quem torcia na Primeira Guerra Mundial, e que por isso mesmo ficou sendo chamado de germanófilo.

Ilo Just, primeiro goleiro do Santa Cruz, tem outra versão sobre a alteração das cores. Está dito por ele no Fascículo 2, Conheça o Santa Cruz, 55 anos de glórias:

Quando houve a criação da Liga, surgiu o problema do Flamengo, que tinha as mesmas cores nossa: preto e branco. Os dois não podiam ficar e o Flamengo permaneceu alvinegro. Ainda estávamos em dúvida com respeito às cores, quando passou por aqui o Flamengo, do Rio de Janeiro, que ia excursionar a Belém do Pará. Sua camisa era vermelho, preto e branco. Resolvemos nosso problema, acrescentamos o vermelho às nossas cores.

De fato, a passagem do clube carioca pelo Recife, naquela época, aconteceu. Viaja no paquete Rio de Janeiro, com destino ao Pará, aonde vai a convite da Liga paranaense jogar diversos matchs de foot-ball, por ocasião das festas do Tricentenário de Belém, o poderoso team do Flamengo do Ri, registrava o Diário de Pernambuco do dia 19.02.1915.

Tem razão ainda Ilo Just, quando afirma que as cores do time da Gávea, ao transitar por Recife, naquele ano, eram vermelho, preto e branco. Há inúmeras publicações sobre o futebol carioca que atestam esse fato, a mais recente delas, Campeonato Carioca – 96 anos de história, de Roberto Assaf e Clóvis Martins, está dito no histórico sobre o campeonato de 1916:

Na briga pelo tri, o Flamengo foi de fato uma das vedetes da temporada. Mas, temendo que a imagem do clube fosse definitivamente por água abaixo, sua diretoria, mudou, em fim, o uniforme. A camisa “cobra-coral”, semelhante à bandeira da Alemanha, principal protagonista da Primeira Guerra Mundial, foi substituída pela de listras vermelhas e preta.

Sobre a inclusão do vermelho às suas cores preto e branco, o Santa Cruz deu conhecimento à Liga no dia 16 de março de 1916, conforme consta no livro de atas da entidade. E dessa data em diante, o tricolor ficou sendo chamado também – a exemplo do que aconteceu com o Flamengo carioca em 1914/1915 – de cobra-coral.

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Um fato singular e inesquecível marcou o primeiro ano de vida do Santa Cruz. Todo mundo queria participar da primeira partida do clube, que tinha acertado um jogo com o Rio Negro, uma agremiação também nova e composta por sua maioria de garotos. Havia uma grande expectativa não somente por parte dos seus defensores, mas também por parte dos seus primeiros torcedores. O local do encontro foi o campo do Derby, o mesmo onde havia se realizado o primeiro jogo de futebol do Recife o Rio Negro e esforçou muito, porém não conseguiu se livrar de humilhante goleada de 7X0, imposta pelos meninos da Boa Vista (como eram conhecidos os jogadores do Santa Cruz), a grande figura do encontro foi o jogador Carlos Machado, que arrasou com a defesa adversária, fazendo 5 gols dos 7 assinalados. No final do jogo a euforia tomou conta de todos pelo grande triunfo.

A fragorosa derrota tornou-se, porém, um pesadelo para a turma do Rio Negro, que resolveu pedir revanche impondo as seguintes condições: o jogo seria no seu próprio campo, na Rua do Sebo, hoje Barão de São Borja, e o Santa Cruz não escalaria Carlos Machado, como era natural o pessoal do Santa Cruz estranhou a segunda condição, mas mesmo assim aceitou o desafio. Sem Carlos Machado, a reabilitação era quase certa, raciocinavam os jogadores do Rio Negro. O Santa Cruz respeitou fielmente o acordo feito e chegou a campo na hora certa. Discretamente, os diretores do Rio Negro conferiram se Carlos Machado, o homem que havia feito tantos gols na outra partida, estava entre os onze da Boa Vista. Não. Não estava.

Acabando o jogo, nova vitória do Santa Cruz e por uma placar muito mais elástico: 9X0. Carlindo Cruz, que havia substituído Carlos Machado, ganhou o Jose quase sozinho. Fez 6 dos 9 gols assinalados.

História do Futebol Pernambucano, Givanildo Alves – Ed. Bagaço – 1998 – 2ª edição

Recife, suas Histórias e suas Estórias

Bem, alguns podem até estranhar o texto que reproduzo abaixo. Mas para que não fique fora do meu contexto de fé, obviamente clamo pela cultura da minha cidade, já que os séculos anteriores foram recheados do imaginário popular, que delineou a crença entre o mundo como conhecemos e o sobrenatural. Por isso, trago o texto de um clássico escrito por ninguém menos que Gilberto Freyre.

Por fim, é importante para qualquer povo manter vivo o seu passado, mesmo que seja o imaginário popular.

Fantasma do Menino Feliz

Contou-me Dona Carmem de Souza Leão que na rua de família recifense muito das suas relações – e creio até que do sei parentesco – moradora em velha rua da Boa Vista, costumava há anos aparece e desaparecer por encanto a figura de uma lindo meninozinho, não me lembro se louro e cor-de-rosa, como os meninos-jesus flamengos, se moreno como um bom e belo brasileiro do norte. Brincava o fantasmazinho e sorria como se fosse vivo, rico e feliz. Neto em casa de avó.

Era a mais bela das assombrações. Bela e difícil de se explicada pela gente de casa onde aparecia: casa antiga da Boa Vista. Casa de gente sinhá e não à-toa.

Pois o fantasmazinho não intimidava pessoa alguma de casa nem aterrorizava menino vivo nem pedia missa ou doce às senhoras de idade nem dava a impressão de ir quebrar porcelanas ou vidros caros de família nem gemia nem suspirava como se estivesse sofrendo penas no outro mundo. Era o contrário dos fantasmas convencionais. Apenas sorria e brincava como se fosse criança ainda deste mundo.

Pouco misterioso, deixava que a família chamasse conhecidos e vizinhos para vê-lo brincar. Não se incomodava com os olhos dos curiosos. Continuava a sorrir e a brincar. Até que, por encanto, desaparecia.

Era quando as pessoas que acabavam de ver sorrir e brincar fantasmazinho tão sem jeito de fantasma de sessão de espiritismo ou de casa mal-assombrada, sentiam o frio do outro mundo arrepiá-lo: quando o meninozinho desaparecia de repente, sumindo-se da vista dos vivos como qualquer fantasma de gente grande. Misterioso como qualquer assombração de história de alma-do-outro-mundo.

Dize-se que mais uma vez o meninozinho-fantasma pareceu querer beijar pessoas vivas. Beijo de filho em mãe, de neto em avó, de sobrinho em tio. E neste caso, parecido esse fantasmazinho do Recife com aquele fantasma também de menino, embora já quase rapaz, de que falam tradições inglesas; e que aparece na coleção de Lord Halifax de histórias de casas assombradas, aparições, ocorrências sobrenaturais: Lord Halifax’s Ghost Book (Londres, 1930). Desse fantasma fala também o escritor Osbert Sitweel no livro encantador que é sua autobiografia: The Scarlet Tree (Londres, 1946). Diz Sitweel que o fantasma apareceu, em casa de gente sua, tendo identificado o menino morto: certo Henry Sachverell, filho de uma sitweel. O menino se afogara aos quinze anos, no remoto ano de 1724. Dize-se que, durante anos, não só acordou mais de uma pessoa fidalga – uma delas a condessa Carlisle – com um beijo, como certa vez, havendo festa  – baile a fantasia – em casa dos Sitweel , compareceu vestido de mocinho do tempo de Jorge II; e dançou alegremente valsas com as moças. De estranho só se notaram nele o excesso de palidez do  rosto e o frio, também exagerado, das mãos: mão tão frias que mesmo de luvas pareciam geladas. Mas a alegria desse menino morto já longos anos era a de um vivo bem vivo. Fantasma, também, de menino feliz.

(Texto extraído do Livro Assombrações do Recife Velho – Gilberto Freyre – TopBooks, 5º Ed. Ano 2000)

Categorias:História, Recife

Série – Você deveria saber mais sobre Pernambuco I

– PARA AQUELES QUE TEM CURIOSIDADE SOBRE COMO RECIFE, OLINDA E OUTRAS CIDADES DE NOSSO ESTADO SE TRANSFORAM, VAMOS REALIZAR UMA SÉRIE DE POSTS DESTANCADO AS MUDANÇAS DO NOSSO CENÁRIO AO LONGO DOS ANOS:

PARA COMEÇAR…

A PONTE GIRATÓRIA…QUE NÃO É MAIS GIRATÓRIA…

A Ponte Giratória ligava o bairro do Recife ao bairro de São José. Foi inaugurada no dia 5 de dezembro de 1923, servindo à cidade do Recife até a década de 1970.

A Ponte Giratória foi construída na bacia defronte da antiga “Barreta”. A “Barreta” era a passagem natural das barcaças e outras embarcações do mesmo porte, único meio de transporte que se destinava aos cais interiores ou fluviais do Recife, como o da Alfândega, José Mariano e o do Colégio.

A sua construção foi determinada quando da modernização do porto do Recife, em 1920. Na ocasião, ficou constatada a necessidade de uma ponte rodo-ferroviária, de vão central giratório, na embocadura do rio Capibaribe com o Beberibe, para favorecer a passagem das embarcações veleiras e para dar passagem ao transporte ferroviário para o porto do Recife. Tais embarcações transportavam açúcar e vinham de regiões não servidas por ferrovias.

A Ponte era formada de três lances: dois fixos e um que girava. Este último deixava, ao girar, duas passagens para o trânsito marítimo – quando se dizia que a ponte estava “aberta”.  Foi instalada uma sirena, que soava alto antes da ponte girar, e as suas cabeceiras eram barradas com correntes e avisos de alerta para evitar qualquer acidente. Quando, num giro, a ponte voltava a ser um todo inteiriço, permitia a passagem de trem pela faixa do meio, que era ferroviária e o tráfego de outros veículos e pedestres pelas laterais, quando então se dizia que a ponte estava “fechada”.

Com a implantação e a ampliação gradativa do sistema de transporte rodoviário no Estado o tráfego de embarcações foi diminuindo. A Ponte que fora construída em ferro, apresentou problemas na maquinaria e a função primeira da Ponte Giratória – dar passagem a grande número de barcaças que aportavam no porto do Recife – , aos poucos, caiu em desuso.

Assim, teve que ser desmontada e em seu lugar foi construída uma outra ponte, ampla e de cimento armado, que foi inaugurada, em 1971, com o nome de Ponte 12 de Setembro, data que lembra o dia solene da inauguração das reformas do porto, em 1918, quando atracou no cais do armazém 9, o paquete São Paulo da Companhia Lloyd Brasileiro.

A ponte liga a Av. Alfredo Lisboa/Cais da Alfândega à Av. Sul/Cais de Santa Rita.     Mesmo tendo sido inaugurada como Ponte 12 de Setembro, boa parte dos recifenses referia-se a ela como Ponte Giratória. Provavelmente este foi um dos motivos que levou a Prefeitura da Cidade do Recife a decretar, através da Lei Nº 16.916, de 19 de novembro de 2003, que sua denominação passaria a ser Antiga Ponte Giratória em vez de Ponte 12 de Setembro.

Fonte: BARBOSA, Virgínia. Ponte Giratória. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br>. Acesso em: 03/06/2010

Categorias:História, Pernambuco, Recife
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