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Recife, suas Histórias e suas Estórias


Bem, alguns podem até estranhar o texto que reproduzo abaixo. Mas para que não fique fora do meu contexto de fé, obviamente clamo pela cultura da minha cidade, já que os séculos anteriores foram recheados do imaginário popular, que delineou a crença entre o mundo como conhecemos e o sobrenatural. Por isso, trago o texto de um clássico escrito por ninguém menos que Gilberto Freyre.

Por fim, é importante para qualquer povo manter vivo o seu passado, mesmo que seja o imaginário popular.

Fantasma do Menino Feliz

Contou-me Dona Carmem de Souza Leão que na rua de família recifense muito das suas relações – e creio até que do sei parentesco – moradora em velha rua da Boa Vista, costumava há anos aparece e desaparecer por encanto a figura de uma lindo meninozinho, não me lembro se louro e cor-de-rosa, como os meninos-jesus flamengos, se moreno como um bom e belo brasileiro do norte. Brincava o fantasmazinho e sorria como se fosse vivo, rico e feliz. Neto em casa de avó.

Era a mais bela das assombrações. Bela e difícil de se explicada pela gente de casa onde aparecia: casa antiga da Boa Vista. Casa de gente sinhá e não à-toa.

Pois o fantasmazinho não intimidava pessoa alguma de casa nem aterrorizava menino vivo nem pedia missa ou doce às senhoras de idade nem dava a impressão de ir quebrar porcelanas ou vidros caros de família nem gemia nem suspirava como se estivesse sofrendo penas no outro mundo. Era o contrário dos fantasmas convencionais. Apenas sorria e brincava como se fosse criança ainda deste mundo.

Pouco misterioso, deixava que a família chamasse conhecidos e vizinhos para vê-lo brincar. Não se incomodava com os olhos dos curiosos. Continuava a sorrir e a brincar. Até que, por encanto, desaparecia.

Era quando as pessoas que acabavam de ver sorrir e brincar fantasmazinho tão sem jeito de fantasma de sessão de espiritismo ou de casa mal-assombrada, sentiam o frio do outro mundo arrepiá-lo: quando o meninozinho desaparecia de repente, sumindo-se da vista dos vivos como qualquer fantasma de gente grande. Misterioso como qualquer assombração de história de alma-do-outro-mundo.

Dize-se que mais uma vez o meninozinho-fantasma pareceu querer beijar pessoas vivas. Beijo de filho em mãe, de neto em avó, de sobrinho em tio. E neste caso, parecido esse fantasmazinho do Recife com aquele fantasma também de menino, embora já quase rapaz, de que falam tradições inglesas; e que aparece na coleção de Lord Halifax de histórias de casas assombradas, aparições, ocorrências sobrenaturais: Lord Halifax’s Ghost Book (Londres, 1930). Desse fantasma fala também o escritor Osbert Sitweel no livro encantador que é sua autobiografia: The Scarlet Tree (Londres, 1946). Diz Sitweel que o fantasma apareceu, em casa de gente sua, tendo identificado o menino morto: certo Henry Sachverell, filho de uma sitweel. O menino se afogara aos quinze anos, no remoto ano de 1724. Dize-se que, durante anos, não só acordou mais de uma pessoa fidalga – uma delas a condessa Carlisle – com um beijo, como certa vez, havendo festa  – baile a fantasia – em casa dos Sitweel , compareceu vestido de mocinho do tempo de Jorge II; e dançou alegremente valsas com as moças. De estranho só se notaram nele o excesso de palidez do  rosto e o frio, também exagerado, das mãos: mão tão frias que mesmo de luvas pareciam geladas. Mas a alegria desse menino morto já longos anos era a de um vivo bem vivo. Fantasma, também, de menino feliz.

(Texto extraído do Livro Assombrações do Recife Velho – Gilberto Freyre – TopBooks, 5º Ed. Ano 2000)

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Categorias:História, Recife
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