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Memórias de um Soldado de Hitler – Parte I


Aos 79 anos, Henry Metelmann é jardineiro da escola pública Chaterhouse, em Surrey. Sudoeste da Inglaterra. Com um sorriso no rosto e grandes olhos brilhantes, ele corta a grama, cuida das flores e poda as árvores, com calma e delicadeza. Difícil imaginar que esse velhinho simpático uma dia foi um nazista dedicado, lutando contra tudo e contra todos “pelo Füher, pelo Povo e pela Pátria”. Mais difícil ainda acreditar que ele assassinou civis inocentes e atirou em dezenas de soldados soviéticos, justamente no momento em que eles tentavam se entregar.

Quando comecei a entrevista Metelmann, perdi o fôlego com sua honestidade. Eu já havia conversado com outros veteranos nazistas e nunca tinha visto algo assim. Não que eles quisessem mentir, mas sempre me parecia que não queriam lembrar os fatos com muita precisão. Esse senhor, ao contrário, estava decidido a conta sua história sem meias palavras. Hoje, ele vive sob o peso da culpa e é um empenhado pacifista, “disposto a tudo para que outros não sigam seus passos”.

Segundo o historiador Michael Burleight, no livro Third Reich: a new History [não publicado no Brasil], os nazistas nunca conseguiram ter tomado o poder sem o consentimento do povo. Ele é incisivo em afirmar que a Alemanha, com um todo, foi responsável pelos crimes cometidos em seu nome: “a população estava desesperada por uma identidade e por um milagre econômico . por isso, não houve qualquer revolta quando o país, durante o Terceiro Reich, desviou-se do bem para o mal. O que houve foi apenas uma realinhamento moral”. Nesse sentido, Metelmann é uma figura arquetípica.

Crianças de Hitler

 

Henry Metelmann foi criado nos arredores de Hamburgo, norte da Alemanha. Seus avós tinham uma vida abastarda, mas perderam todo o dinheiro na depressão que assolou o país após a Primeira Guerra Mundial. Assim, Henry já nasceu na pobreza – e tinha apenas doze anos quando Hitler subiu ao poder. Ainda criança, ele já era simpatizante nazista ativo: “para mim, Hitler era um segundo Deus”.

Logo, o grupo de jovens cristãos a que pertencia foi absorvido pela Juventude Hitlerista. “ Pertencíamos a alguma coisa pela primeira vez na vida. E eu adorava o uniforme. As pessoas nos saudavam pelas ruas. Era fantástico. Só havia um menino em minha classe que não pertencia à Juventude”, lembra Metelmann.

Empenhado em se torna útil, ele se ofereceu como voluntário para, aos sábados, ajudar a bloquear as lojas que pertencessem a judeus. Ele conta que, na mesma época, também assistiam a vizinhos serem presos e pessoas serem espancadas pelos militantes nazistas. Mas Metalmann não tinha dúvida quanto ao que estava acontecendo: “eu parava para pensar e chegava à conclusão de que, para se ter uma sociedade decente, era preciso força aquelas pessoas a entra na linha de uma vez”.

Seu pai, um veterano da Primeira Guerra, acreditava nos ideais esquerdistas; sua mãe era um cristã devota. Nenhum dos dois apoiava o Nacional-Socialismo, mas este deu poderes ao pequeno Henry, concedeu-lhe autoridade para se rebelar contra eles. “Tivemos ferozes discussões com meu pai, até chegar o momento em que ele não ousava mais argumentar comigo. Sei de jovens que chegaram a entregar seus pais como traidores – o que era suficiente para mandá-los a um campo de concentração”.

Em 1941, aos 18 anos, Henry Metelmann foi recrutado para pilotar um Panzer, o famoso tanque de guerra nazista. “Éramos cãezinhos querendo nos livrar das amarras”. De trem, foi enviado ao front russo. Para ele, a guerra era 100% justificável àquela altura. “Éramos a maior nação do mundo, Éramos mais inteligentes e mais eficientes do que os outros, e Deus nos havia dado a missão de abrir caminho sobre as Untermenschen – Classes inferiores”. Na fivela de seu cinto estavam escritas as palavras: “Gott mitt uns” (Deus está conosco) e seu comandante vivia lembrando que eles tinham um “dever sagrado”.

Ele chegou à Criméia (atual Ucrânia), em dezembro de 1941. Lá, ninguém do círculo de Metelmann questionava o propósito da guerra, nem criticava a ordem de expulsar os habitantes locais de suas casas – mulheres e crianças, em sua maioria – em pleno inverso russo, provavelmente condenando-os à morte. “Tinham-se medo de questionar uma ação como essa. Seus colegas poderiam pensar que você gostava dos inimigos”, admite.

A Experiência Cruel

“A lembrança mais dolorosa que tenho é do ponto de vista humano. Estávamos em nosso tanque quando um colega disse : “Olhe, maçãs !”. Tínhamos chegado a uma espécie de sítio. Eu estava guiando o tanque. Desci, então, para colher maçãs para nós. Neste momento, vi uma mulher debruçada sobre uma menina que deveria ter uns doze anos. Tinha sido atingida por um disparo. O sangue saía da ferida aberta no corpo da menina. Pensei: “Não posso fazer nada”. A mulher – a mãe da menina – levantou-se, olhou para mim e disse: “Veja o que vocês fizeram ! Minha filha estava vindo para dar as boas-vindas a vocês, soldados ! O que ela estava trazendo para vocês era pão e sal – que é um sinal de boas-vindas. E vocês a mataram!”. Eu me lembro de que a menina ainda estava respirando. Voltei para o tanque. Um dos meus colegas perguntou: “Cadê as maçãs ?”. Eu disse : “Acabei de ter uma experiência terrível. Nós matamos uma menina! Ela está ali, no chão. Não podemos fazer nada!”.  Meu colega disse : “Ah,  não importa! É somente uma russa…”

AGUARDEM SEGUNDA PARTE!

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