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I Batalhão do 11º RI em Monte Castelo – Relatos de uma Infeliz Operação.


Segue abaixo a descrição do Capitão Adhemar Rivermar de Almeida, então S/3 do 1º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria sobre a atuação de sua unidade nas operações do dia 13 de dezembro de 1944, com o objetivo de tomar Monte Castelo no Teatro de Operações da Itália. A descrição abaixo se encontra registrado no livro Montese – Marco glorioso de uma trajetória – Coronel Adhmar Rivermar de Almeida.

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Com a ocupação de nossas posições pelo III/6º. Regimento de Infantaria (Batalhão Silvino), segui, acompanhando o Major Jacy, para a cidade de Porreta-Terme, Quartel-General da 1ª DIE, onde o Tenente Eurico Capitulino, sempre eficiente e acolhedor, fez-nos lembra de que há muito não comíamos coisa alguma. Estômago cheio, atirei-me a um canto, dormindo de imediato.

O dia 04 foi todo ele ocupado no reagrupamento do I/11º. Regimento de Infantaria, cada elemento procurando reencontrar sua fração de tropa, reaver armamento ou peças de equipamento.

O General Mascarenhas, depois de séria conversa com os oficiais do Batalhão, apresentou-se aos Capitães João Tarcísio e Carlos Meira Mattos, designados para comandar, respectivamente, as 1ª e 2ª Companhias de Fuzileiros.

Nesse mesmo dia, à tarde, era o Batalhão, praticamente recomposto, transportado para a localidade de Granaglione, onde, como reserva de Divisão, acantonou.

Na condição de Unidade de Reserva, o Batalhão tinha de conservar enorme flexibilidade, necessitando pormenorizado reconhecimento de toda a frente, a fim de acompanhar o desempenho de todas as Unidades empenhadas, na eventualidade de substituí-la, reforçá-las, ultrapassá-las ou acolhê-las.

Tendo em vista a determinação do IV Corpo de que um novo ataque fosse efetuado, coube aos brasileiros, novamente, a conquista de Monte Castelo e o isolamento de M. Della Torrácia, componente do Maciço M. Gorgolesco – M. Belvedere. Para tal, foi organizado um Grupamento de Ataque, postos nas seguintes Unidades:

1º Escalão – 1º RI (menos o I Batalhão e a Cia de Obuses)

Reserva: – III/11º RI

Cobertura de flanco: I/11º RI (Menos a Cia do Capitão Hésio)

A Companhia do Capitão Hésio (3º Cia) recebeu a missão de “em íntima ligação com o 1º regimento de Infantaria, cobrir o flanco E do ataque na região de Fálfara e limpa as regiões de Abetaia e Valle”.

Para o cumprimento da missão recebida, iniciamos, no dia 06 de dezembro, já refeitos do choque que sofremos, mais certos do que nos cabia executar e com mais tempo para reconhecimento do terreno e do inimigo, os estudos para a substituição do III/11º Regimento de Infantaria, o que veio a se concretizar na noite do dia 08 para 09.

Depois daqueles dias de “em reserva” voltava o Batalhão à primeira linha. Era inevitável a emoção de todos, afinal, sabiam lá o que os esperava? Novo desastre (O 11º RI sofreu baixas e acabou recuando na primeira fez que entrou na linha de combate) ou início de uma reabilitação por todos tão desejada? A única coisa de que realmente tinham certeza era que “a cobra continuava fumando.”

Os responsáveis pelo transporte de tropa, impacientes, não se cansavam de reclamar:

 – Vamos, rapazes, andem com isso. Temos outros transportes a fazer.

As camas-rolos e as bagagens ligeiras ia se amontoando debaixo dos bancos laterais dos caminhões que os iriam transportar até bem mais pertos das posições avançadas. Ia ser preciso, outra vez, subir o morro a pé.

Finalmente o comboio deslocou-se, e até que a estrada não estava ruim. A Engenharia estava cuidando bem dela.

A chuva fina e a subida por aquelas trilhas íngremes e enlameadas, onde os galochões desapareciam completamente, exigiam dos pracinhas um dispêndio que um ajudasse o outro naquela terrível escalada. De repente, uma praga ou um palavrão, preferido por um daqueles homens sujos de barro e encharcados de suor e chuva, na maioria das vezes dirigidos àquelas mães que haviam gerado dois monstros: Hitler e Mussolini.

A tropa a ser substituída nos esperava, pronta e ansiosa por descer:

 – Custaram a chegar.

 – A subida está difícil e os alemães andaram nos amolando. Como vão as coisas aqui?

 – Até que o tedesco tem estado camarada nestes últimos dias.

 – Antes assim.

 – Mas se ele manjou a chegada de vocês, vão ter morteiros e Lurdinhas sem parar

 – Que negócio é esse de Lurdinha?

 – Bem se vê que vocês são do Laurindo (nome pejorativo). Todos o restante da FEB já sabe que lurdinha é uma metralhadora alemã que dá mais de mil tiros por minuto.

 – Mas, por que lurdinha?

– É o nome da namorada de um campo que quando começa a fala não pára mais; uma verdadeira matraca. Ele contou a história e, por isso, a metralhadora alemã foi chamada de lurdinha. E pegou…Já tem até música.

E o pracinha, mesmo sem que lhe fosse pedido, passou a cantarolar em voz baixa:

“Você já, Iaiá?

Você já viu, Ioiô?

A lurdinha no fronte cantar?

A tropa fica alerta para avançar

Ouvindo a voz da metralha:

 – Vamos atacar!

                A voz de comando

                É firme e segura,

                Ninguém tem paura

                Corre e toca!

                Perde até a roupa.

                               – Pra brasileiro, alemão é sopa!”

Os que não foram para os postos avançados instalaram-se para dormir: cada um acomodou-se num canto, pelo chão.

De duas em duas horas, os homens que iam substituir os dos postos avançados eram acordados. Os demais continuavam dormindo um sono tão pesado que nem percebiam os ratos que passeavam por cima dos seus corpos.

Todos os preparativos haviam sido feitos com minúcias. A madrugada, que naquele dia 12 de dezembro viera coberta por densa cerração, já encontrara as duas Companhias de Fuzileiros articuladas na base de partida.

O ataque foi desencadeado de surpresa. Os relógios haviam sido acertados para que a partida se desse precisamente às seis horas da manhã. Não houve, portanto, preparação de artilharia e nem sinal destinado a marcar o início da operação.

Todas as ordens foram cumpridas à risca pelos dois Capitães. A Segunda conseguiu ocupar Fálfare, seu objetivo inicial, com feridos e desaparecidos. Entre os últimos encontravam-se o Tenente Emílio Varoli que, vítima de pé-de-trincheira, não pode mais mover-se do lugar; sendo aprisionado pelo inimigo. Esse valente e culto oficial da reserva tinha sido professor de italiano para um grupo de oficiais, do qual fizemos parte quando nossa estada na Tenuta de San Rossare.

A progressão da Primeira iniciou-se bem, com dois pelotões em primeiro escalão e o terceiro, mais recuado, como reserva. O capitão Bueno marchava no centro do dispositivo. Ainda não tinha avançado muito e já era impressionante a ação desencadeada pelo inimigo. Como pressentiram o ataque, ninguém sabe! O terreno limpo e baixo, enlameado e escorregadio, facilitava a ação dos inimigos que, atentos, em suas posições dominantes, nada deixavam escapar.

Os atacantes encontravam-se agora no centro de uma concentração de morteiros, complementadas por fogos rasantes de metralhadoras, as terríveis lurdinhas, como seus incontáveis tiros por minuto, em flanqueamento.

A barragem de fogo frente a Abetaia estava se constituindo em uma verdadeiro inferno.

Apesar de tudo, o ataque progredia. Lentamente, mas progredia. Rádio de mão inutilizado por deslocamento de ar causado por uma forte explosão, cabos telefônicos arrebentados pelo contínuo bombardeio do inimigo e mensageiro ferido por tiro de metralhadora, o Capitão Bueno desconhecia o que estava acontecendo com o ataque principal.

Os densos e ajustados fogos com que os alemães batiam totalmente o Corredor da Morte, como começava a ser conhecido o vale que levava à Abetaia, fizeram com que os dois pelotões de primeiro escalão ficassem detidos, aferrados ao terreno. Ademais, minas explodiam por toda parte.

O Capitão Bueno, ciente da situação, impulsionou o pelotão do segundo escalão e desbordou os elementos detidos. Era impressionante ver-se a sua figura ágil a apontar, constantemente, para as primeiras casas de Abetaia.

Incrível o que estava acontecendo. Com a passagem do Capitão Bueno para frente do escalão de ataque um melhor aproveitamento de seu pelotão de metralhadoras, mesmo sem terem aniquiladas as resistências inimigas, o Capitão e vários de seus homens já se encontravam no interior da posição alemã.

Os demais, colados ao solo, dentro das crateras e Saliência do terreno que lhes serviam de abrigos, sentiam dificuldade em até mesmo ouvir a voz de seus comandantes de grupos de combate ou pelotões.

Do local em que momentaneamente se abrigou, o Capitão Bueno viu, al alcance de uma granada de mão, a boca de uma Camata donde o inimigo manipulava uma metralhadora. Não trepidou. Retirou do bornal uma granada, arrancou rapidamente o grampo de segurança e, num ímpeto audacioso, arremessou o explosivo, que acertou em cheio a guarnição da metralhadora. Chegou a ver o alemão que manejava a metralhadora disparar em sua direção e, súbito, sentiu como se houvesse sido sacudido violentamente pela ponta de uma picareta. É que, da rajada, uma bala atingira o seu pulmão e arrebentara-lhe várias costelas. Tombou em estado quase de choque, porém com lucidez para, pouco depois, estranhar ter sido atingido. E o que pareceu mais incompreensível era ter passado tantos minutos ouvindo o constante sibilar das balas, como se estivessem a roçar-lhe os ouvidos. Tentou reagir. Quis levantar, mas sentiu dores muito fortes. Consultou o relógio, no pulso também ensanguentado. Eram nove horas. O Capitão Bueno sentiu que ia perder a vida, com o sangue saindo sem cessar.

O ataque foi suspenso por volta das 14h 30min. A decisão causou alguma surpresa, porém, na realidade, nada mais restava a fazer: O I/11º Regimento de Infantaria recebeu ordens de retornar às suas posições originais.

Do nosso observatório, tínhamos os olhos fixos no corpo inanimado do Capitão Bueno, ainda na mesma região de casas um pouco à esquerda de Abetaia. Então avançamos, o Major Darcy e eu, até a estrada por onde estavam sendo recolhidos os homens do Batalhão. Um soldado cruzou por nós, estafado pelo esforço da dura jornada que estava vivendo. Vinha, contudo calmo.

 – Soldado, disse o Major: tens coragem de retornar à terra-de-ninguém?

 – Por que não, Major? – Respondeu, entre surpreso e curioso.

 – Pois não vês lá no fundo, à esquerda das casas de Abetaia, caído por terra o corpo de um homem?

 – Sim, o que se encontra de bruços – disse o soldado, após ter utilizado o binóculo que fora cedido pelo Major.

 – Exatamente. É o teu Capitão! Tens coragem de ir busca-lo? – prosseguiu o Major em tom quase de exortação.

Iluminou-se o olhar do jovem soldado, que se tornou mais vivo e aguçado. Fez meia volta e, incontinenti, partiu em passos rápidos.

Voltamos ao Observatório, a fim de acompanhar a sua progressão. Era um bravo que, desassombradamente, em plena luz do dia, progredia, ora rastejando, ora em lances, de um abrigo para o outro, com o intuito de buscar outro bravo.

Mas, infelizmente, quando o soldado já estava na terra-de-ninguém, quase duas centenas de metros do corpo de seu Capitão, foi caçado por um tiro certeiro que o fez tombar. Era mais um herói, ficávamos ignorando – pois nem mesmo seu nome havíamos perguntado na hora que lhe fora cometida a difícil missão.

Várias tentavas foram realizadas para o remover o Comandante da 1ª Companhia para as nossas linhas. A primeira patrulha, para isso por mim organizada, foi constituída dos voluntários Sargento Max Wolf, Cabo José Leite Rios e soldados Manoel Prates Filho e Antônio Barbosa Lima. Não tendo conseguido êxito, regressou. Foi logo substituída por outra, sob o comando de Max Wolff, também sem resultado. Também tentou-se o envio de padioleiros, mas a remoção não ainda possível e a solução foi esperar pela noite.

Por vezes, sobrevinham instantes de lucidez ao Capitão Bueno. Num desses momentos, percebeu a aproximação de vozes e, logo depois, viu um alemão se deslocava de uma casamata para outra. Trazia a metralhadora de mão apontada e com a preocupação de não ser surpreendido. Avançou em sua direção e, quando alcançou, fitou-o interrogativamente, conservando a metralhadora apontada para o Capitão Bueno e o tacão da bota quase a lhe tocar o rosto. O Capitão fez um esforço imenso para manter-se móvel, prendendo ao máximo a respiração, á que os teutos tinham a mania de dar o tiro de misericórdia. Sentiu um enorme alívio quando viu o alemão afastar-se, depois de lhe ter retirado a pistola.

Não perdeu, entretanto, a esperança de retornar. Quando surgiram as primeiras estrelas, essa esperança aumentou. Tentou levantar-se, mas foi aí que compreendeu a gravidade do seu estado. Não tinha forças. Aumentara incrivelmente a sede. Um gosto forte de sangue infundo-lhe a boca. Mas mesmo assim, saiu cambaleando, procurou orientar-se em direção às linhas brasileiras. Após deslocar-se alguns metros, recrudesceram as dores e a sede tornou-se um castigo monstruoso. Inúmeras vezes tentou levar as mãos ao solo tentando encontrar na lama um pouco de água, pelo menos uma sensação de umidade para molhar os lábios. Apoderou-se dele um estado de inanição e o Capitão Bueno tombou inconscientemente junto a um pequeno riacho.

Ingentes esforços foram feitos durante toda a noite para recuperar os homens que haviam ficado presos ao chão do Corredor da Morte: patrulhas sem conta saíram naquela direção, recuperaram mortos e feridos, mas conseguirem localizar o Capitão Bueno.

Alguém aguardava impacientemente o regresso dessas patrulhas: o soldado Sérgio Pereira, o seu ajudante de ordens. Pela madrugada, sem dizer a ninguém, pegou uma metralhadora, encheu o bornal de granadas e saiu à procura de seu Comandante. Partiu com a decisão de não voltar sem ele. Chegou até o local onde o havia visto cair. Não encontrou. Não se conformou e passou a esquadrinhar o terreno em várias direções, pois sabia que não havia a possibilidade de estar muito distante dali. Finalmente o encontrou e decidiu carrega-lo às costas. Andou algumas dezenas de metros, mas notou que aquela penosa marcha por terreno tão irregular fazia com que aumentasse as dores e os gemidos de seu Capitão.

Resolveu então deixa-lo num ponto mais protegido e ir buscar, junto ao Posto de Saúde do Batalhão, dois padioleiros para o auxiliar naquele divina tarefa de trazer de volta seu heroico Comandante. E esse bravo, destemido e leal ordenança somente sossegado no momento em que viu o Capitão Bueno ser passado da maca dos padioleiros para cima de uma cama de campanha, recebendo o primeiro tratamento médico.

O I/11º Regimento de Infantaria perdeu 33 homens nessa jornada; e o Major Darcy demonstrou toda a sua coragem e destemor; numa afirmativa de plenas condições de permanência no Comando do Batalhão, onde era estimado e respeitado.

Capitão Ademar

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  1. Chicão
    06/11/2011 às 8:55 PM

    Olha, dá para se dizer que o brasileiro na Segunda Guerra quando convocado a lutar contra os alemães em solo europeu foi com a cara e a coragem!
    Mesmo com o exército alemão nos seus estertores, enfrentaríamos uma máquina de guerra; um clima adverso, região montanhosa, e sem que tivéssemos o preparo adequado.
    A Feb, através dos nossos pracinhas, editou uma campanha brilhante, determinada, valente, a ponto de conseguirmos a rendição alemã.
    E tivemos a nossa importância no contexto da guerra na Itália, anexando as nossas tropas aos aliados e combatendo com eles lado a lado.
    Diferente de alguns países sul americanos e até mesmo europeus que permaneceram neutros, o, Brasil se fez representar muito bem pelos seus soldados, além de firmar-se no cenário internacional.
    Penso que o governo deveria proceder uma campanha à memória dos nossos combatentes e da Força Expedicionária Brasileira, editando livros a preços populares, de modo que esta lembrança e exemplo de valentia em combate não se desvanecesse da memória do povo e também para relembrá-lo deste célebre episódio que participamos com honra e dignidade.

  2. 07/11/2011 às 6:00 PM

    Sinto um orgulho imenso quando leio relatos que provam a bravura dos nossos soldados durante os difíceis combates na Itália. Nesse vídeo ouvimos os soldados cantando o Hino Nacional no interior da Catedral de Pisa enquanto um forte bombardeio pode ser ouvido ao fundo. Notem como eles continuam firmes, cantando nosso hino a despeito da situação de altíssimo risco!

  3. Helio Guerrero
    21/06/2012 às 11:38 PM

    Nada como ler relatos vindo daqueles que realmente viram a cara da guerra !

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