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Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte III


Segue a terceira parte da análise da imigração alemão para o Brasil do Mestre Alessandro Santos Rosa:

E as preocupações aumentam!

 Preocupações mais acentuadas começaram a surgir no cenário político nacional com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), uma vez que se perceberam as idéias que pairavam dentro da Alemanha de estender seus territórios até mesmo no além-mar.

Os imigrantes residentes no Brasil passaram a representar uma ameaça, pois, além de não se integrarem a sociedade brasileira, mantinham um apoio incondicional a Alemanha, como explicado por René Gertz[1]: “Houve reservistas alemães que abandonaram o Brasil para lutar pela Alemanha; no início do conflito foi fundado o jornal Bismarck em Porto Alegre para contrapor-se às notícias negativas sobre a Alemanha difundidas pela maioria da imprensa, e mais tarde foi adquirido O Diário para o mesmo fim”. (p.16)

Se havia esse tipo de disponibilidade de um indivíduo sair de um país para onde tinha imigrado para defender a pátria mãe de arma em punho, arriscando sua própria vida, então se tratava no mínimo de uma situação de preocupação relevante. O que fora tão incentivado que ocorresse, a imigração de alemães para realizar a ocupação das grandes áreas de terras brasileiras, acaba tomando um sentido contrário, pois ficam suspensos no ar os primeiros alarmes dos perigos que passam a representar para o Brasil.

Quando finda a Primeira Guerra Mundial, as elites brasileiras respiraram aliviadas, pois a idéia do pangermanismo colocava em risco a hegemonia brasileira, a integridade e a soberania. Com a ocupação alemã, que se deu nos três estados sulinos, em maior peso no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, havia a preocupação de que a Alemanha investisse na idéia de tornar este uma extensão de seu país como ocorrido com outros países da Europa sobre regiões subdesenvolvidas.

A partir da Primeira Guerra Mundial, a preocupação com a não-integração alemã com a sociedade brasileira, torna-se constante, pois, assim como consideravam o povo judeu uma sociedade que só explorava e não trabalhava, que se aproveitavam da produção alemã, poderiam passar a ter a mesma visão dos brasileiros. Os judeus eram vistos como os grandes culpados da Alemanha estar subordinada aos efeitos do capitalismo internacional e por viver em atraso econômico. Havia uma espécie de sentimento de ódio, onde não havia lugar para essa sociedade inferior.

A intervenção de autoridades alemãs acabava influenciando as normas da política brasileira em relação a imigrantes judeus, como analisa Ricardo[2]: “A cooperação policial e governamental germano-brasileira conduz o Brasil a adotar medidas anti-semitas preconizadas por Berlim. Por meio da circular secreta n. 1.127, de 7 de junho de 1937, o governo Vargas oficializa as restrições à entrada de imigrantes de origem judaica no Brasil”. (p. 28)

Do mesmo modo, cria-se um temor intenso no Brasil, já que essas idéias criadas e alimentadas pela liga Pangermânica, após o ano de 1928, continuavam fervorosas. As comunidades de alemães passam a ser alvo de constante observação, pois a idéia de tornar o povo alemão uma raça superior era latente e foi ainda mais incentivada com o surgimento do III Reich de Adolf Hitler, como aborda Dennison[3]:

      O imperialismo, o militarismo e o pangermanismo foram entusiasticamente adotados pelos nazistas, constituindo a base de seus argumentos em favor de uma drástica mudança na ordem mundial vigente. Deve-se destacar, contudo, que o nazismo também enfatizava ainda mais os elementos de ordem racial, ao explicitar seu projeto de poder.  (p.19)

 A partir de 1920 a Alemanha inicia uma trajetória para recuperar sua economia e tentar se projetar no cenário mundial, pois com a derrota da Primeira Guerra Mundial teve toda sua estrutura abalada. Já após 1933 encontrava-se com sua economia em ascendência, um crescimento contínuo e com uma política totalitária.

Nessa mesma década, no Brasil, ocorre o golpe do Estado Novo, ascendendo ao poder a figura de Getúlio Vargas (1937), o qual tinha formas de governo e pensamento alinhados com as ideologias de Hitler e Mussolini, sendo que o primeiro ascendeu ao poder já em 1933 e o segundo em 1925, este através de um golpe de estado. Esses aspectos que caracterizam ambos os governos vão propiciar um estreitamento nas relações políticas e econômicas.

Essas novas relações preocupam de imediato o governo norte-americano, pois a política econômica, de troca de produto, fez com que houvesse um grande impulso nas atividades comerciais desenvolvidas pela aliança Brasil-Alemanha, perdendo fôlego o comércio entre brasileiros com os Estados Unidos, como analisado por Dennison[4]:

 Dessa forma, compreende-se que, ao aumento do volume do comércio da Alemanha com o Brasil, correspondesse uma queda das trocas brasileiras com os EUA. Quando Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha em 1933, os EUA respondiam por 21,2% das importações brasileiras e a Alemanha, por 12%. As exportações brasileiras para os EUA alcançavam 46,7% do valor total, e aquelas para a Alemanha, 8,1%. Cinco anos depois, o quadro era muito diferente. As importações de produtos alemães correspondiam a 25% do total, e as norte-americanas a 24,2%. Já as exportações brasileiras para os EUA haviam caído para 34,3%, enquanto as destinadas para a Alemanha subiram para 19,1%. (p.20)

Perante as alterações nos níveis de negociação comercial com a Alemanha, iniciou nesse momento uma preocupação constante por parte do governo norte-americano. Pois a comercialização com o país germânico ocorria em moeda alemã, atrelando a economia de quem estivesse comercializando, pois os valores convertidos em francos alemães ficavam depositados em bancos alemães e só poderiam ser usados para pagar por mercadorias produzidas na própria Alemanha.

Referencia Bibliográfica

 

*GERTZ, René. O perigo alemão. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1991

* OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008

* SEYFERTH, Giralda. A colonização alemã no vale do Itajaí – Mirim. Porto Alegre: Movimento, 1985


[1] Idem. p.16

[2] SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai a Guerra: o processo do envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3ª  ed. Barueri, SP: Mamole, 2003. p.28

[3] OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008. p.19

[4] Idem. p.20

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  1. Zulma
    03/06/2012 às 6:50 PM

    Muito boa a resenha acima. Gostei e farei um estudo com meus alunos em cima das prerrogativas analisadas pelo autor.

  2. Carlos Müller
    04/06/2016 às 11:23 AM

    nascido em 1924 em São Francisco do Sul/SC, Meu Pai Karl Otto Müller, in memoriam faleceu em 1976 em São Paulo, onde eu e minhas irmas moramos. Gostaria de saber algo sobre meus ancestrais Germanicos. Sou Muito Grato …Carlos Müller

    • Wolfgang
      11/04/2017 às 9:24 AM

      Ola Carlos Müller
      Tenho um pergunta, (Dr.) Karl Otto Müller era um professor da escola Olinda, escola alemao? Sou um professor de Zurique e pesquisando a historia do cinema alemao no Brasil. Muito obrigado, Wolfgang Fuhrmann

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