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Archive for 13/11/2011

Senta Pua – A Origem

Segue abaixo material enviado pelo pesquisador Rigoberto Souza Júnior:

Quantas vezes esta expressão, que muitos não sabem exatamente o que significa,  foi dita sem sabermos ao certo de como ela surgiu, e o por que do símbolo do 1º Esquadrão de Caça da FAB ter uma avestruz como ave símbolo, se esta ave nem voa.

            De acordo com o relato do Capitão Paiva, único representante deste grupo, que fez parte do corpo de Associados da ANVFEB PE, e que para nossa tristeza faleceu no dia 31.12.2010, mas que deixou um grande legado com seus relatos e histórias, podemos compartilhar estas informações com outros interessados nos assuntos relacionados com a Força Expedicionária Brasileira.

            O grito “Senta a Pua” foi dado pelos integrantes do 1º Grupo de Caça da FAB, nos céus da Europa em um dia nublado e chuvoso, por ocasião da 1ª missão dos bravos pilotos brasileiros, e que ecoou com um gigantesco trovão, principalmente sobre o Exército Alemão na Itália, e citando o imortal da Academia Brasileira de Letras, Austragésilo de Athayde, significa lançar-se contra o inimigo com decisão, coragem, sangue frio, golpe de vista e vontade de aniquilá-lo, pois quem “Senta a Pua”, arremete de ferro em brasa e verruma o bruto. Ainda segundo o major Rui Moreira Lima, esta expressão era um dito popular na década de 40, muito usada no região Nordeste( Senta a Pua, Zé Maria), quando do período de treinamento, antes de nos encaminhar para o Panamá. Quando voltamos esta expressão era usada corriqueiramente, e um dos que mais  a ouviam era o nosso motorista, Cabo Moura, pois todas as vezes que tínhamos que ir para o Campo de Aviação, gritávamos para ele: “Senta a Pua, Zé Maria”.

            A insígnia “Senta a Pua” surgiu ainda durante o treinamento nos Estados Unidos, quando se estava prestes a partir para o Teatro de Operações, pois é comum a toda unidade possuir o seu distintivo próprio, e invariavelmente de cunho humorístico, e o grupo brasileiro não poderia deixar de ter a sua própria marca. As controvérsias foram grandes durante o processo de escolha do símbolo, onde alguns falavam em adotar o “Zé Carioca” de Walt Disney; outros opinaram por se utilizar o “Jeca Tatu” de Monteiro Lobato e outros sugeriram um “macaquinho diabólico”.

            Para dar fim a este imbróglio, o Capitão Fortunato, veio resolver o problema com o seu jeito jovial e brincalhão, aliado ao fato de ser ótimo desenhista, surgindo com a ideia de “Avestruz Voadora”. Logo todos questionaram por que uma avestruz e não uma ave típica do Brasil.

            Ele explicou que esta ave, como todo sabem tem um estômago enorme, daí a expressão “estômago de avestruz” – que é usada para identificar aqueles que comem demais, qualquer alimento. Os nossos Homens que eram acostumados à deliciosa cozinha brasileira, com o feijão e arroz, ao se depararem com a comida americana, que  apesar de ter um alto valor nutritivo, o seu sabor era completamente distinto dos servidos em nossos quartéis, tinha sempre um gosto mais adocicado que a nossa comidinha brasileira. Como não se podia esperar muito, a adaptação teve que ser rápida: carne em  conserva, presunto, ovo, tudo tinha um gosto terrível para nossos soldados, portanto tinha-se que ser uma avestruz para engolir aquilo tudo, então surgia a ave.

            Para se compor o desenho deste Grupo de Aviação de Caça, resolveu-se colocar em suas  mãos um velho bacamarte, que simbolizaria nossas metralhadoras. Um grande escudo azul com a insígnia do Cruzeiro do Sul na asa esquerda dava o ar espartano da nossa defesa, em cima de uma nuvem branca que simbolizava a paz pura e permanente, e sobre ela um céu vermelho, caracterizando a guerra cruel e sangrenta. Para finalizar esta caracterização militar,um quépi da FAB, mas ainda não havia um rosto para esta avestruz, então o Capitão Fortunato munindo-se de papel e lápis, fez uma caricatura do nosso amigo Lima Mendes(Limatão), rapaz sempre alegre e brincalhão.

Fonte: Livro “Lembranças e relatos de um Veterano do 1º Grupo de Caça”

                        Gilberto Affonso Ferreira Paiva

            Livro “Nas barbas do Tedesco”

                        Elza Cansanção de Medeiros

 

Fonte das Fotos:

http://fabriciofsousa.blogspot.com

http://sentapua.com.br

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Castelnuovo – A luta pela sobrevivência de um pelotão brasileiro – Parte I

 Depoimento sobre as operações em CastelNuovo que culminou com mais uma vitória brasileira na Itália. Esse depoimento foi publicado em janeiro de 1970 pelo General de Exército Manoel Rodrigues de Carvalho Lisboa que era à época, comandante do I Batalhão de Fuzileiros do 11º Regimento de Infantaria para a Revista do Clube Militar:

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Castelnuovo estava em nosso poder. Já era noite e o tiroteio se fazia ouvir dentro da cidade. A confusão não permitia uma mútua destruição entre os ocupantes da cidade, graças ao vozerio caracteristicamente brasileiro, com as piadas jocosas e pornográficas, substituindo mais vantajosamente os código e senhas. Para o I Batalhão, a ordem de se preparar para prosseguir na jornada seguinte rumo à Serra do Gato tirava o sono do seu comandante.

As cartas topográficas distribuídas não indicavam com  fidelidade a localização dos campos minados. Daí a sua insônia. Lançar-se ao desconhecido numa missão de combate não é difícil, pelos cuidados que se toma nos dispositivos. Mas lançar-se ao desconhecido, em terreno que se sabe altamente minado, mas não localizados os seus campos, é missão que só os combatentes de infantaria podem avaliar.

 

No dia 06 de março partem os homens da 1ª Companhia. Vão reforçados com equipes de mineiros do 9º Batalhão de Engenharia e do próprio Regimento. Vão também os reforços dos padioleiros do Batalhão de Saúde. O Capitão faz meticulosa recomendações contra o maior perigo, as minas. Lá se vão eles, devagar, olhos presos ao chão, temerosos, ouvidos atentos ao inimigo e à máquina infernal! É uma marcha vagarosa, mas cuidadosa. Os mineiros, à frente, abrem as brechas, que assinalam com fitas brancas e dizeres informativos. A tensão nervosa aumenta. A noite se aproxima vem tornar a progressão mais difícil. Há, no entanto, um moral elevado nas fileiras. O Capitão dá exemplo. Os Tenentes e os Sargentos seguem-no. Felizmente a marcha se faz até agora sem acidentes. Nenhum campo foi pisado. Os mineiros levantaram alguns, evitando, com isso, o que lamentar. A companhia, com dois pelotões em primeiro escalão, já tem mais de duas horas de curso desde que o sol se foi. Marcha mais confiante e pretende nessa jornada atingir o seu objetivo.

Um estampido, de repente, quebra o silêncio daquela caminhada! Mais outros e muitos outros se seguem e com eles os gemidos dos feridos. Um pelotão cai dentro de um campo minado não percebidos pelos mineiros! É contingência da própria guerra. No pelotão, só os gemidos rompem o silêncio da noite. O seu comandante ordena: “Ninguém se mexa! Fiquem onde estão, sentem!” Redige, na escuridão, uma mensagem para o seu Capitão, pois a linha telefônica fora arrebentada, pela explosão das minas. Fala aos mensageiros que estão junto a ele. Recomenda-lhes atingir o PC da Companhia segurando o fio do telefone. Essa trilha é livre, mas os cuidados exigem cautela. A duração do pequeno trajeto dura três horas. O Capitão chora, ao receber a mensagem da pequena fração. Como socorrê-los? São muitos, 13 até agora! Apela para o comandante do Batalhão. Dá os dados do problema para decisão que deve ser demorada. Há homens morrendo em atroz sofrimento! A notícia se espalha pelo Batalhão. Todos querem os seus companheiros. Mas, como chegar lá, se há, apenas, uma estreita e duvidosa trilha? Como enviar a equipe de padioleiros com as padiolas, com a rapidez exigida?

Continua…

O Médico de Infantaria do 11º RI

Segue abaixo o relato do Coronel Adhemar Rivermar de Almeida, publicado no livro Montese – Marco glorioso de uma trajetória, BIBLIEX. Nesse relato ele fala sobre as posições do então Tenente Médico  Yvon – oficial de saúde do 11º Regimento de Infantaria – Regimento Tiradentes.

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O I/11º Regimento de Infantaria, ainda como reserva do IV Corpo de Exército, foi deslocado para Vidiciático, desfalcada de sua 1ª Companhia de Fuzileiros, que foi posta à disposição do destacamento Olivier (Tenente-Coronel Júlio Maximiniano Olivier Filho).

O Destacamento Olivier foi constituído pela Esquadrão de Reconhecimento, pela 1ª Companhia do 11º Regimento de Infantaria e companhia anticarros dos 1º e do 11º RI, todos operando como fuzileiros. Reforçavam-no cerca de 450 “partigiani” e tinha a missão ocupar as alturas no Monte Serrasiccia, Cappel Buso e Pizzo di Capiano, bem como a região de Rocca Corneta.

Em Vidiciático, o batalhão substituiu elemento da 10ª Divisão de Montanha. Laços afetivos muito fortes estavam sendo estabelecidos entre as duas grandes Divisões e de um tempo para cá vinha sendo um tal de “rasgar seda” que parecia não ter fim.

Dias atrás, por exemplo, o “Blizzard” – um periódico idêntico ao “Cruzeiro do Sul” – trouxera um artigo sobre o valor do soldado brasileiro, cujo o título era: “Quando a cobra fuma, o soldado brasileiro se zanga”.

Os brasileiros e norte-americanos vinham se dando muito bem e já tinham estado juntos em muitos momentos difíceis, pois através de um apoio mútuo haviam levado a cabo a mais cruenta tarefa daquele setor – expulsar os alemães de suas montanhas repletas de casamata e liberar o Vale do Rio Panara, em Vidiciático. Apesar disso e por duas vezes, o Dr. Yvon teve fortes e justificados atritos com elementos do Exército americano.

Face a isto, o novo Comandante do I/11º Regimento de Infantaria que ainda não conhecia bem os seus atuais comandados, resolveu pedir a remoção daquele médico de nossa unidade, mas ao ter ciência de que tal transferência seria mal recebida por seus comandados, pelos Oficiais e Praças tinham por aquele médico uma grande admiração, oriundo de sua atenção e dedicação para com todos, de sua competência profissional e das inúmeras provas de coragem e sangue-frio demonstradas em ação, qualidades que haviam transformado em o “médico-infante”, resolveu reconsiderar a resolução tomada, chamando-o para um “puxão-orelhas”.

“- Dr. Yvon, chegou ao meu conhecimento que o senhor brigou com elementos da “Décima”?.

– É  verdade, Major. Porém não foi uma só vez, foram duas.

– E o senhor ainda tem coragem de afirma isso?

– Major, fui desacatado e desafiado nas duas oportunidades. Numa delas queriam que retirasse a minha ambulância do local em que estava sendo carregada, face à mudança do Posto de Saúde. O Major Ivens assistiu a esta última e me deu inteiro apoio.

– Doutor, vou lhe esclarecer uma coisa, pois julgo que ignora: estamos aqui para lutar contra nazi-fascismo e não contra os americanos.

– Sei disso, Major, mas ser aliado mais pobre não é razão para ser menosprezado.

– Vou fazer-lhe uma outra recomendação: quando em ação o seu lugar é no Posto de Saúde.

– Perdoe-me, Major, não sei mandar meus padioleiros à frente e ficar esperando, calmamente, o seu regresso; acho que o meu lugar é onde estamos sendo mortos ou feridos.

Nesse momento o Major faz uma pausa grande, encarando o oficial médico.

– Acresce que o Serviço conta com mais um médico e ele tem ordem de permanecer sempre no Posto de Saúde.

– Pode ir, Tenente. Vou ficar lhe observando.

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