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A Reintegração Social dos Ex-Combatentes da FEB – 46/88 – Parte I


Estamos publicando, a partir de hoje, a pesquisa do Professor Mestre Alessandro do Santos Rosa. Sua Dissertação de Mestrado contempla o retorno dos pracinhas e as políticas de abandono que foram implementadas pelo país até a década de 80, portanto é um subsídio incomensurável para todos aqueles que desejam entender sobre a condição dos membros  da Força Expedicionária Brasileira, depois da desmobilização promovida ainda pelo governo de Getúlio Vargas até o seu reconhecimento na Constituição Federal de 1988.

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INTRODUÇÃO

O objetivo principal do estudo focalizado por essa dissertação é desenvolver uma análise sobre o processo de reintegração social dos ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (1943/1945), por intermédio de uma tardia legislação, que visava trazer um amparo legal. Será realizada uma abordagem geral sobre a FEB, sendo que se dará uma ênfase sobre o surgimento da legislação, na década de 40, especificamente no ano de 1946, um ano após o retorno dos expedicionários da Itália por término da Segunda Guerra Mundial (1939/1945).

Mesmo com o surgimento dessas legislações, um grande número de expedicionários obteve seu benefício somente na década de 1980. Em alguns casos, foram mais de quarenta anos de demora para que, aqueles que permaneceram vivos, fossem assistidos pelo Estado. A historiografia militar, aqui especificamente sobre a Força Expedicionária, ficou por um longo período no esquecimento da sociedade e dos próprios pesquisadores. Alguns contatos com ex-combatentes, que fizeram parte do efetivo da FEB e estiveram diretamente envolvidos no combate ou, ainda, que ficaram como reservas no depósito de pessoal, aguçaram meu interesse em procurar uma compreensão a respeito desse processo.

A academia apresenta, na atualidade, pesquisas de vulto importantíssimos para uma compreensão de como foi realizado o processo de desmobilização e sobre como foi trabalhada a reintegração social dos ex-combatentes. Porém, o objetivo é adicionar uma reflexão junto com essas pesquisas e tentar compreender as formas e razões que conduziram a criação dessas legislações, de modo específico, para aqueles que estiveram de forma direta envolvidos nos campos de batalha na década de 1940 e, em alguns casos, foram contemplar quem tinha direito somente na década de 80.

Essa pesquisa não tratara de casos nem de lugares específicos. Por intermédio de depoimentos, colhidos aleatoriamente, buscaremos uma compreensão do que ocorreu, de uma forma geral, com os homens e mulheres que compuseram o efetivo febiano. O processo pelo qual se desenvolveu a participação do Brasil, no episódio da Segunda Guerra Mundial, foi conturbado e desorganizado, deixando a sociedade distante. Os sacrifícios realizados nos campos de combate também ficaram, de certa forma, alheios ao conhecimento social, causando um esquecimento por parte da sociedade e por parte dos estudiosos.

Não seria diferente o procedimento no retorno, pois o povo brasileiro não estava interligado com seus militares combatentes. Em decorrência da forma como foi realizada a mobilização não havia uma relação de proximidade com o processo da participação na guerra, ficando os combatentes, dessa forma, ignorados, esquecidos. Como foram recebidos pela população seus ex-combatentes? Como a maioria dos ex-febianos passaram a viver seu cotidiano? Houve algum tipo de discriminação da sociedade em relação aos ex-componentes da FEB? Que tipo de amparo foi prestado pelo Estado? Esses amparos conseguiram reparar as injustiças ocorridas? Todos ex-combatentes foram beneficiados pelas leis criadas? Essa pesquisa tentara responder questões como essas e outras que possam surgir.

Outras abordagens, ainda, serão realizadas, as quais passam pelo processo de convocação e seleção, em que a questão dos apadrinhamentos será aprofundada. Incluem-se, assim, em nossas análises, investigações sobre os seguintes aspectos: a participação no confronto, bem como a participação na guerra, buscando-se dar ênfase, de uma forma inédita, sobre as facilidades oferecidas em situação de guerra; o que aconteceu aos ex-combatentes, após seu retorno ao país; qual foi a reação frente ao processo de desmobilização; como ficou marcado o momento da chegada e suas festividades por ocasião do retorno; quais as preocupações das autoridades político-militares, de uma forma geral, em relação aos expedicionários.

Na historiografia brasileira as pesquisas realizadas sobre esse grupo social, com teor mais profundo, datam de um momento recente. Alguns trabalhos realizados tiveram seu início no eixo Rio/São Paulo, na década de 1970, com a pesquisa de Maira de Lourdes Lins[1] (1972), a qual fazia parte do programa de pós-graduação. Nos anos que compõem a década de 1980 dois trabalhos, um do ex-combatente da FEB, Francisco Cabral[2] (1982) e outro do tenente-coronel, João Felipe Sampaio Barbosa[3] (1985), são apresentados, sendo que o último realiza uma abordagem específica sobre a questão social dos ex-componentes da FEB.

Outros trabalhos, não relacionados com a questão social da FEB, mas com a historiografia vem surgir na década 1990. A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial começa, então, a ganhar espaço e destaque entre os estudos acadêmicos, com pesquisadores como Luís Felipe da Silva Neves[4] (1992), Alfredo Oscar Salum[5] (1996) e Patrícia da Silva Ribeiro[6] (1999).

É perceptível que são poucas pesquisas realizadas em torno do assunto que envolve a participação efetiva do Brasil, no episódio da guerra. Em países do continente europeu, América do Norte, alguns países da Ásia e Oceania, nunca se deixou de pesquisar o ramo da História Social, que estuda as guerras e os homens que as fazem. Do mesmo modo, nunca se deixou de pesquisar sobre os ex-combatentes, seu impacto social. Um trabalho, que tem por objetivo uma abordagem em torno da questão social e tem uma representatividade historiográfica de grande importância, é a pesquisa do historiador Francisco César Alves Ferraz[7], o qual surgiu quase 60 anos após o encerramento da participação do Brasil no contexto da Segunda Guerra Mundial. Pode ainda ser citado como destaque, o empenho do pesquisador Dennison de Oliveira,[8] o qual se dedica, no desenvolvimento dos trabalhos desenvolvidos, à ênfase a uma Nova História Militar Brasileira. Este autor coordena grupos de pesquisa, desenvolvendo projetos e artigos que visam valorizar a história militar

Um longo período se passou até que houvesse interesse, por parte dos estudiosos, em desenvolver pesquisas em torno da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, referente à criação da Força Expedicionária Brasileira. Conforme explica Francisco César Alves Ferraz[9], nas quase seis décadas que separam o fim da guerra aos dias atuais, o tema da participação na Campanha da Itália teve pequena relevância na disciplina de História e nos livros didáticos.

Esse desinteresse acabou deixando um permanente abismo entre os ex-combatentes, componentes da FEB e o meio social. Para a pesquisadora Sirlei de Fátima Nass[10], a participação da FEB na Segunda Guerra não implicou nem em perdas substanciais de vidas humanas, nem a ocupação estrangeira do território brasileiro, sendo vista à distância pela sociedade. Fato esse que foi fundamental para o rápido esquecimento por parte da sociedade. Porém, para o pesquisador Dennison de Oliveira[11], essa falta de proximidade com os efeitos violentos da guerra não justifica o silêncio e a omissão, na medida em que o mundo acadêmico brasileiro mantém-se, curiosamente, distante do enfrentamento dos problemas suscitados pela necessidade de se interpretar a história militar e as memórias a ela associadas. O que poderia ter propiciado o pouco interesse em pesquisas relacionadas a assuntos militares, segundo os pesquisadores Dennison de Oliveira[12] e Francisco César Alves Ferraz[13], foi o difícil relacionamento existente entre a universidade e o Regime Militar (1964/85), sendo que, mesmo depois de terminada a ditadura, a FEB continuou sendo desprezada na historiografia acadêmica.

Outros interesses se interligavam com essas problemáticas, pois as autoridades político-militares, temendo que pudesse haver uma mobilização política mediada pelo contingente que havia retornado dos campos de batalha da Europa, procuravam manter a sociedade distante da FEB. Ficava, dessa forma, mais enfraquecida a imagem da Força Expedicionária e de seus componentes, apagando-se, rapidamente, da memória da sociedade. Embora no período da ditadura tenha ocorrido um grande desenvolvimento nas áreas de pesquisas, graduação e pós-graduação dentro do meio acadêmico, as tensões políticas distanciavam as produções científicas. Nem mesmos os livros didáticos traziam grandes informações. Nesse material constavam algumas poucas informações sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, desprezando posteriormente a FEB também.

A sociedade, por não conhecer o processo pelo qual passaram os ex-combatentes, por não saber das dificuldades enfrentadas, desde a mobilização, a passagem pelo processo da participação efetiva nos campos de batalha, encerrando por uma desmobilização desorganizada e rápida, não teria condições, também, de oferecer apoio, de reconhecer seus heróis. Como nos explica Dennison de Oliveira[14], dependendo das avaliações do desempenho da tropa brasileira na Itália, feitas por essa história, a memória da FEB assumiu dimensões simpáticas e generosas, hostis e negativas, ou mesmo heróicas ou depreciativas.

Dessa forma, se tornava fácil distorcer os feitos dos expedicionários, seguindo as divulgações e pesquisas, o critério que interessasse àquelas pessoas que detinham o poder e visavam preservar seus interesses. Essas possibilidades poderiam transformar pontos positivos em negativos sem questionamentos, pois não havia na memória social informações concretas. Como analisado por Sirlei de Fátima Nass[15], tal entendimento exerceu grande influência, para melhor ou para pior, no conjunto de questões, na diversidade de memórias, nas representações sobre a atuação dos expedicionários na guerra, bem como na busca por reconhecimento e inserção social da sua memória e história.

BIBLIOGRAFIA

 

BONALUME NETO, Ricardo. A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942-1945. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1995.

CABRAL, F. Um batalhão no Monte Castelo. São Paulo, 1982. Tese (Doutorado em História), Universidade de São Paulo

FERRAZ, Francisco César Alves. A guerra que não acabou: a reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (1945-2000). Tese de doutorado. São Paulo, 2003.

FERRAZ, F. C. A. O Brasil na guerra: um estudo de memória escolar. Comunicação apresentada no IV Encontro Perspectiva do Ensino de História. Ouro Preto. Universidade Federal de Ouro Preto, 24 de abril de 2001. Anais da ANPOC.

LINS, M de L. F. A Força Expedicionária Brasileira: uma tentativa de interpretação. São Paulo, 1972. Dissertação (Mestrado em História) Universidade de São Paulo (publicada em 1975 pela Editora Unidas de São Paulo).

MASCARENHAS DE MORAES, João Batista. A FEB pelo seu Comandante. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1947.

NASS, Sirlei de Fátima. Legião Paranaense do Expedicionário: indagações sobre a reintegração social dos febianos paranaenses (1943-1951). Dissertação – UFPR, 2005.

OLIVEIRA, D. História e memória entre ex-combatentes: o caso da Força Expedicionária Brasileira (1943-2000).

RIBEIRO, P. da S. As batalhas da memória: uma história da memória dos ex-combatentes brasileiros. Niterói, 1999. Dissertação (Mestrado em História): Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense.

SALUM, A. O. Zé Carioca vai à Guerra. São Paulo, 1996. Dissertação (Mestrado em História) Pontifícia Universidade Católica.


[1] LINS, M de L. F. A Força Expedicionária Brasileira: uma tentativa de interpretação. São Paulo, 1972. Dissertação (Mestrado em História) Universidade de São Paulo (publicada em 1975 pela Editora Unidas de São Paulo).

[2] CABRAL, F. Um batalhão no Monte Castelo. São Paulo, 1982. Tese (Doutorado em História), Universidade de São Paulo.

[3] Este é a única pesquisa encontrada abordando alguns tópicos sobre a questão social da FEB. BARBOSA, João Felipe Sampaio. Regresso e desmobilização da FEB: problemas e consequências. (A Defesa Nacional, Rio de Janeiro. Ano 71, n. 719, mai./jun. 1985).

[4] NEVES, L. F. da S. A Força Expedicionária Brasileira: uma perspectiva histórica. Rio de Janeiro, 1992. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Federal do Rio de Janeiro.

[5] SALUM, A. O. Zé Carioca vai à Guerra. São Paulo, 1996. Dissertação (Mestrado em História) Pontifícia Universidade Católica.

[6] RIBEIRO, P. da S. As batalhas da memória: uma história da memória dos ex-combatentes brasileiros. Niterói, 1999. Dissertação (Mestrado em História): Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense.

[7] FERRAZ, Francisco César Alves. A guerra que não acabou: a reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (1945-2000). Tese de doutorado. São Paulo, 2003. p. 5

[8] O doutor Dennison de Oliveira, além de coordenar grupos de pesquisa em torno da historiografia militar brasileira é autor de várias obras podendo ser citadas aqui “Os soldados alemães de Vargas” e “Os soldados brasileiros de Hitler”, dentre outra obras.

[9] FERRAZ, F. C. A. O Brasil na guerra: um estudo de memória escolar. Comunicação apresentada no IV Encontro Perspectiva do Ensino de História. Ouro Preto. Universidade Federal de Ouro Preto, 24 de abril de 2001. Anais da ANPOC.

[10] NASS, Sirlei de Fátima. Legião Paranaense do Expedicionário: indagações sobre a reintegração social dos febianos paranaenses (1943-1951). Dissertação – UFPR, 2005. p.17.

[11] OLIVEIRA, D. História e memória entre ex-combatentes: o caso da Força Expedicionária Brasileira (1943-2000).

[12] Idem.

[13] FERRAZ, F. C. A. A Guerra que não acabou…. op. cit. . p. 10

[14] Idem.

[15] NASS, Sirlei de Fátima. Legião Paranaense do Expedicionário…. op. cit. p.18

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  1. 24/12/2012 às 12:11 AM

    fico observando os veteranos de outros paises e cujo tratamento e completamente diferente do que aconteceu com os nossos pracinhas. aqui foram largados a propria sorte, alias e importante frizar que a unica coisa que estes governos valorizam sao os jogadores. s herois naconai, como rondom, cezar lattes nao sao importantes, os importantes sao romarios, peles , ronandinhos. depois que a ABL deu medalha para gaucho vemos para aonde esta a educação brasileira, afinal educar para que basta ter a cabeça no pe.

  2. 07/04/2013 às 10:32 PM

    FICO INDIGNADA COM O TRATAMENTO RECEBIDO PELOS EX COMBATENTES DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL,PARECEM FARISEUS,VERDADEIROS DINOSSAUROS EM EXTINÇÃO AINDA VIVOS RECEBENDO MENÇÕES PÓS MORTEM NA VIDA MEROS INDIGENTES COM SUAS MEDALHAS E SUAS HISTÓRIAS MUITAS VEZES TRISTES DE VERDADEIROS SOFRIMENTOS QUE MUITOS DELES NEM SABEM PORQUE FORAM E NEM POR QUEM,APENAS LHES DAVAM UM FUZIL ENFERRUJADO,UM CAPACETE FININHO QUE NEM SEGURAVA UMA PEDRA QUE DIRÁ UM TIRO E LÁ IAM ELES TODOS ORGULHOSOS EM SERVIREM O SEU PAÍS DEIXANDO NA MAIORIA DAS VEZES ESPOSA E FILHOS,PAI MÃE,IRMÃOS E FAMÍLIA.MUITA VEZ SEM TER O QUE COMER NEM O QUE VESTIR ENQUANTO OUTRAS TROPAS DE OUTROS PAÍSES MUITO BEM PREPARADAS E ACOSTUMADAS COM A GUERRA USURFRUINDO E RINDO DOS NOSSOS BRAVOS DESCAMISADOS,E DESCALÇOS MAS NÃO MENOS BRAVOS PRACINHAS DA FEB E HOJE SEUS DEPENDENTES CHEGAM AOS ÓRGÃOS PÚBLICOS PARA TENTAR USURFRUIR DO DIREITO QUE MUITAS VEZES SEUS AMADOS NÃO PUDERAM E SÃO TRATADOS COMO NINGUEM,COM CHACOTA MUITAS VEZES DE SEUS PRÓPIOS AMIGOS DE FARDA QUE NUNCA VIRAM O HORROR DE UMA GUERRA COMO OS SEUS AMADOS E SÃO ESCARNECIDOS E JOGADOS DE UM LADO PARA O OUTRO NAS REPARTIÇÕES PÚBLICAS COMO FANTOCHES MUITO TRISTE,TRISTE.

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