Início > Guerras, História > Castelnuovo – A luta pela sobrevivência de um pelotão brasileiro – Parte II

Castelnuovo – A luta pela sobrevivência de um pelotão brasileiro – Parte II


Para quem não viu o Relato do General de Exército Manoel Rodrigues de Carvalho Lisboa que era à época, comandante do I Batalhão de Fuzileiros do 11º Regimento de Infantaria para a Revista do Clube Militar, segue o LINK da Primeira Parte: A Luta pela sobrevivência de um Pelotão Brasileiro – Parte I

 Um Pelotão da 1ª Companhia do 1/11º Regimento de Infantaria fatidicamente cai em uma campo minado na noite do dia 06 para o 07 de março de 1945, e fica encurralado. A cada vez que se movem, mais baixas acontecem. Eles têm apenas uma saída: aguardar o resgate médico do Batalhão. Voluntários da Unidade se deslocam noite à dentro em um terreno desconhecido para salvar o Pelotão; outros tentam refazer o caminho a pé para consertarem a linha telefônica destruída e restabelecer a comunicação com o Comandante da Companhia.

 Essa é uma História de Heróis; Heróis brasileiros que perderam suas vidas se lançando contra pior dos inimigos, o desconhecido; materializada em forma de Mina Terrestre, que, se a vítima tiver sorte, morrerá, caso contrário será mutilada de uma forma terrível.

 Segunda Parte:

 – “Faça-me vir o Tenente-Médico com urgência!” – é a ordem do Major Comandante.

– “Pronto, Major, aqui estou!” – É um jovem médico, cheio de vida, valente, e que já tomara conhecimento do fato.

 –  “Sr. Major, tenho os padioleiros do Batalhão e mais o reforço do Batalhão de Saúde. Posso levá-los todo comigo!”

– “Mas, como irão sem correr o grave risco de perdê-los também?”

Só um recurso que lhe vem à mente. A Estrada 64 passa à direita, não se sabe o que há nela daqui para frente, mas a ambulância, numa operação de vaivém poderia, talvez, atingir a altura em que se acha o Pelotão e desse ponto, pelo campo, os padioleiros entrariam para a retirada do pessoal. Não vê outra solução, mas exige coragem a abnegação. Diz ao Tenente o seu pensamento e os riscos da missão. Necessitava essa de uma coordenação no local em que se achavam os homens da Companhia, coordenação que deveriam ter como zona crítica o trecho da Estrada 64 ainda em poder do inimigo.

O Capitão S/3, encarregado das operações, não titubeou, para isso, e se apresentou voluntário, juntando-se ao destemor, à bravura e ao espírito de solidariedade do médico. E lá se foram os dois, pressurosos na ajuda aos companheiros mutilados e em agonia. Durante toda a noite se fez a evacuação cuidadosa, as viaturas com as luzes apagadas, num silêncio que não provocasse a intervenção alemã. A cada rumo diferente, um estampido revelava no campo e novos mutilados caíam. A angústia pelo sofrimento era intensa. Os padioleiros heróis anônimos, não descansavam na faina da busca e do transporte de feridos. Nenhum ruído maior. Só os gemidos abafados dos moribundos e dos mutilados movimentavam aqueles homens no salvamento dos camaradas. Todas as cenas são heroicas. Todos os protagonistas cresceram em sacrifícios e bravura. Mas, muito mais do que todo os sentimentos, aquele que fazia sentir a dor de seu semelhante e que procurava dar-lhe o conforto da presença amiga com o afeto da palavra e do gesto fraternal, o espírito natural do brasileiro de solidariedade humana, fazia ascender, na escuridão da noite, uma auréola cuja luz refletia toda a grandeza da alma brasileira, boa e humana! Os seus nomes Historiador da FEB deve anotá-los. Cite-os. Transcrevendo os trechos da citação em combate. São eles:

Capitão Francisco Carlos Bueno Deschamps – S/3 do Batalhão: Na madrugada de 06 para 07 de março, muito cooperou com o Comando do Batalhão no auxílio à 1ª Companhia, lançando-se no eixo da Estrada 64 para se ligar pessoalmente ao Comandante da 1ª Companhia, sentir a sua situação, ver o que necessitava, acudir os feridos, agindo consciente  com desvelo em meio ao perigo, coordenando a operação de salvamento dos feridos.

Capitão Darcy Lázaro – Comandante da 1ª Companhia: Vibrante condutor de homens, soube empolga-los pela missão, entusiasmos que não arrefeceu nem naqueles que ficaram gravemente feridos. Comandou com inteligência, serenidade e ardor.

Tenentes-Médicos Yvon de Miranda Azevedo Maia e Murilo de Oliveira Paiva: Dedicados no socorro feito aos feridos na noite de 06 para 07 de março, enfrentando o perigo e o desconhecido para remove-los para a retaguarda num serviço cuidadoso, eficiente e bravo.

– 1º Tenente Alfredo Bertoldo Klas – Subcomandante da 1ª Cia: Dedicado e esforçado nas medidas para o socorro dos feridos.

2º Tenente Wilson Rocha da Silva – Comandante do 1º Pelotão: Conduzindo os seus homens com iniciativa e inteligência, mesmo dentro de um campo de minas, não perdendo a serenidade.

2º Tenente José Leite Rezende: Prestando auxílio aos feridos, fazendo a ligação com os Pelotões e assinalando os campos de minas.

Sgt. Luiz Pereira: Com elevadas baixas em seu Pelotão, não se intimidou no cumprimento da missão recebida que era a de atingir determinado ponto, por azar, outro campo minado e onde aumentou as baixas do seu Pelotão, conservando-se com heroísmo e dando exemplo aos seus comandados.

Sgt Max Wolff Filho, Sgt Hélio Moreira Alvarenga, Cb Thiago Luiz de Mello e Soldados José Berberino dos Santos e José Mendes dos Santos: Voluntários que se apresentavam para o reparo da linha telefônica arrebentada, cooperando com os telefonistas, redobrando-lhes a confiança e a energia.

Soldados Olympio Ferreira Cintra e Antônio Cosme da Silva: Agentes de ligação entre o S/3 e Comandante da 1ª Companhia.

Sgt. Francisco de Sales Teles: Digno exemplo de chefe e líder, imbuído de alto espírito de sacrifício soube, com o pé amputado por uma mina, animar os seus comadantes, lamentado não poder continuar à frente de seu Grupo de Combate.

Sgt. Aquino de Araújo: Apresentou-se voluntariamente para acompanhar o Comandante do Pelotão num reconhecimento em um bosque, a fim de desbordar um campo minado. Vê caído um de seus subordinados, Soldado Indalécio, procura socorrê-lo, no que foi atingido por uma mina, mantendo a mesma serenidade e dedicação ao seu companheiro.

                Na ânsia de salva os companheiros caídos, um valente grupo com os Sargentos Pedro Gerônimo dos Santos e Hidelbrando de Andrade Farias e o Cabo Anísio Batista da Silva avançam nessa noite escura esquecendo-se da presença das minas. Alguns caiem vitimados, como o Soldado Indalécio Rolsa e Silva; outros, como Eduardo Schmit, embora feridos em uma das mãos, continua prestando socorros aos companheiros, recusando ser evacuado.

                São todos heroicos representantes de uma Infantaria valente e que não diminuíram os lances históricos dos seus antepassados em Lacuna. É difícil dizer-se qual o mais valente, se o Sargento Leopoldo Leão de Souza, não perdendo o sangue-frio, nem a calma à frente do seu Pelotão, dentro de uma campo de minas, ou os Soldados Antônio Vicente de Paulo e Florival Alves Pereira conduzindo, com o risco da própria vida, por entre as estreitas brechas feitas nos campos minados, o seu companheiro Indalécio, mortalmente ferido, até Bonzoni.

                Na espera dos socorros pedidos, vê-se, com uma dedicação fraternal, consolando os feridos, o Sargento Amilcar Pedro dos Santos, mitigando-lhes a sede, ajeitando uma perna fraturada ou recompondo o curativo. Aqueles outros se oferecem para as ligações diversas e lá se vão, em terreno desconhecido e suspeito de minas, o Sargento Jovelino Francisco Carvalho, os Soldados Antônio Sá Rodrigues, Wilson de Freitas Sella, Francisco Coelho de Amorim e Antônio Manoel Raimundo, dedicados na afeição e firmes na solidariedade humana.

Fonte: Coronel Adhmar Rivermar – Montese – Marco Glorioso de uma Trajetória

Anúncios
  1. LICIO DE ALMEIDA FONTES
    01/01/2012 às 3:40 PM

    O ex-Major Manoel Rodrigues de Carvalho Lisboa foi em 1961, comandante do CPOR/6 em Salvador, onde serví, sob o seu comando. O pouco tempo que tive o prazer de ser seu comandado, ouvia dele relatos sobre a guerra mas não tinha a verdadeira dimensão do seu valor como ex-combatente. Gostaria de saber agora se ele ainda está vivo e poder mesmo tardiamente prestar-lhe uma homenagem como heroi de guerra que comandou uma companhia na tomada do Monte Castelo. Licio de Almeida Fontes

  2. Hélio Guerrero
    07/09/2012 às 9:28 PM

    Obrigado !!!! Achei a continuidade da parte I em “buscar no blog” Muito interessante a história , lamenta-se apenas a morte do Sargento Aquino de Araujo que apesar de ser socorrido ao perder as duas pernas, veio a falacer no dia 8 em um hospital !

  3. Gustavo Aguiar Rocha da Silva
    14/10/2012 às 8:22 AM

    Esta narrativa faz parte do livro “Montese: marco glorioso de uma trajetória”, de autoria do Cel. Ademar Rivermar de Almeida e é sempre com emoção que vejo aí o nome do meu pai, Segundo-Tenente Wilson Rocha da Silva, Comandante do Primeiro Peotão da Primeira Compania do 11º RI.

    • 14/10/2012 às 3:00 PM

      Obrigado Gustavo. Os crédito são registrados ao final de cada artigo, após a exposição das fotos, que também pertence a mesma fonte.

  4. Gustavo Aguiar Rocha da Silva
    14/10/2012 às 8:34 AM

    No comentário acima, onde estão “Peotão” e “Compania” leiam-se, evidente e respectivamente, “Pelotão” e “Companhia”.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: