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Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte IV


Autor: Professor Mestre Alessandro dos Santos Rosa

Laços Rompidos

Como analisado anteriormente, no início da colonização alemã houve um forte incentivo para que ela ocorresse, efetivando a ocupação de terras estrategicamente distribuídas. As colônias alemãs que se estabeleceram nos três estados do sul do país, permaneceram isoladas. Não se integraram a sociedade brasileira. Viviam como alemães, mantendo costumes, tradições e utilizando a língua da terra materna, tendo como principal culpado o próprio Estado, que despreocupado com essa gente, deixou-os a própria sorte.

Inicialmente todo esse conjunto de acontecimentos era visto com naturalidade. Porém, quando ideologias sobre uma hegemonia racial começaram a ser difundidas, partindo da própria Alemanha, começaram a pairar sobre as elites brasileiras preocupações sobre essas comunidades que se mantinham íntegras e isoladas do restante da sociedade.

Surgem preocupações com a própria unidade nacional, pois associações, escolas, jornais e até mesmo igrejas, agiam ideologicamente para que permanecessem isolados todas as gerações de imigrantes alemães. Em 1871, com a criação do Império Alemão, e em 1890 a Liga Pangermânica, apoiada pelo surgimento do III Reich, buscavam apoio daqueles que estavam residindo fora da Alemanha

No inicio do século XX, o mundo caminhou para a Primeira Guerra Mundial, onde as preocupações aumentaram e ao findar da mesma respirou-se com grande alivio, como analisa René Gertz[1]:

     Graça Aranha declarou depois da guerra e da derrota alemã: “Deste perigo fomos libertados pela vitória dos aliados em 1918. Devemos-lhes a segurança da nossa integridade territorial. Se ainda algum incrédulo duvidar das vantagens obtidas pelo Brasil em combater a Alemanha, se perguntar o que lucramos materialmente, a melhor resposta a essa indagação utilitária seria aquela muito simples de obscuro, mas arguto jornal de província: ganhamos Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. (p. 16)

Após a guerra, durante as décadas de 20 e 30, as preocupações com essas comunidades isoladas foram constantes, principalmente na década de 30, já que o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido como partido nazista, reconhece como alemães todos descendentes que moravam no exterior. Formaram-se então pequenos grupos nazistas dentro do país. Tão logo se estabelece o Estado Novo iniciam-se algumas formas de represália, na tentativa de combater as infiltrações nazistas, mas procurando sempre manter os bons relacionamentos políticos e econômicos com a Alemanha.

As tentativas de golpe, como a dos Integralistas, que eram aliados a idéias nazi-fascistas, faziam com que o governo tomasse medidas que visavam obrigar os imigrantes alemães a se nacionalizar, determinando que nas escolas particulares as aulas fossem ministradas somente em língua portuguesa, como explica Dennison[2]: “Todas as aulas deveriam ser ministradas em português, todos os professores e diretores deveriam ser brasileiros natos e nenhum subsídio poderia ser fornecido às escolas por entidades estrangeiras”. (p. 23)

Da mesma forma houve exigências de que as missas deveriam ser executadas em língua portuguesa, tanto nos cultos católicos quanto nos cultos protestantes. No mês de julho de 1936, surgem indícios das dificuldades que seriam enfrentadas nas relações entre alemães e brasileiros, pois os descendentes de alemães pelas leis brasileiras eram considerados de nacionalidade brasileira, situação que era contestada pelas legislações alemãs.

Dentro das normas alemãs, o descendente de alemão, mesmo morando no exterior, era considerado como cidadão germânico e com obrigações para com seu país, como abordado por Ricardo Seitenfus[3]: “A Posição da Alemanha, relativamente aos seus cidadãos que residem no exterior, é límpida: a lei de 21 de maio de 1935 obriga todo cidadão alemão, qualquer que seja o lugar de sua residência, a cumprir seu serviço militar na Alemanha”. (p. 29)

No ano de 1941 foi baixado um decreto que acabava impondo barreiras para a entrada de novos imigrantes, com a intenção de que a nacionalização se solidificasse com maior rapidez.

Em contrapartida, as relações do campo econômico evoluíam em tamanha velocidade que causava grande preocupação aos norte-americanos, pois aos poucos viam-se perdendo sua hegemonia comercial com o Brasil. Até meados de 1934 a Alemanha mantinha interesse na compra somente de um produto, o café.

Já no inicio do ano de 1935, são realizados acordos, onde é proposto que a Alemanha concederia uma assistência no desenvolvimento de projetos ambicionados pelo governo brasileiro, que seja um deles, a construção de uma siderúrgica. Em troca seriam fornecidas matérias-primas necessárias para as indústrias germânicas.

A partir desse momento desencadeia-se uma grande quantidade de acordos econômicos, inclusive com a Itália. Esses procedimentos não tinham uma boa repercussão perante os olhares norte-americanos. Para agitar ainda mais os ânimos, no ano de 1937, Getúlio Vargas decide modificar as leis e, com apoio militar, fecha o congresso, cancela a campanha eleitoral e promulga uma nova Constituição de caráter fascista, utilizando dessa forma, um sistema existente na Europa, um regime totalitário.

Para agravar essa situação, por volta do ano de 1936, as negociações com a Alemanha e o Brasil ultrapassaram as realizadas entre brasileiros e norte-americanos. Os EUA não aceitando tal situação procuraram criar mecanismos para que essas relações comerciais entre brasileiros e Alemães fossem de certa forma prejudicadas, como explicado por Ricardo[4]:

     O departamento de estado tenta obstaculizar a aproximação comercial germano-brasileira pois, segundo Washington, a política comercial da Alemanha, com os marcos aski e as subvenções concedidas à exportação, contrariam a política comercial liberal do Programa Hull. Berlin, por sua vez, está consciente das pressões exercidas pelos Estados Unidos com a finalidade de dificultar seu comércio com a América Latina. Para os alemães, a estratégia de Washington tornou-se “claramente perceptível quando das negociações comerciais com vários Estados sul-americanos e, em particular, com o Brasil”. (p. 20-21 )

Quando acontece a ascensão de Hitler ao poder, as negociações tem uma grande evolução, cresce a importância da economia brasileira perante a nação germânica. Além do café, o principal produto comprado pelos alemães, o algodão ganha destaque, fazendo com que a própria produção dentro do Brasil fosse alavancada.

O governo brasileiro consegue manter um bom relacionamento comercial com a Alemanha e EUA até meados de 1942, momento em que é obrigado a “sair de cima do muro” e apoiar um dos lados que estavam em guerra, pois ambos continuavam a manter as relações comerciais com a elite brasileira. Os norte-americanos fizeram propostas para investir e desenvolver a economia, da mesma forma a Alemanha havia feito promessas dessa natureza, porém, os norte-americanos apresentam melhores condições econômicas para cumprir com as propostas efetuadas.

Acontecem ainda os episódios dos torpedeamentos de navios brasileiros na costa brasileira e em mar aberto, dessa forma não tinha mais como o Brasil permanecer neutro, pois as próprias elites políticas acabaram insuflando as massas dos grandes centros, onde solicitavam ao governo que apoiasse a guerra. A culpa, relacionada aos torpedeamentos, foi imputada aos alemães.

Sendo assim, o governo toma a decisão de apoiar os EUA, em troca de algumas exigências, quais sejam, o reaparelhamento das forças armadas, que se encontravam grandemente sucateadas, e a construção de uma Siderúrgica.

Referencia Bibliográfica

 

*GERTZ, René. O perigo alemão. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1991

* OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008

* SEYFERTH, Giralda. A colonização alemã no vale do Itajaí – Mirim. Porto Alegre: Movimento, 1985


[1] GERTZ, René. O perigo alemão. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1991. p. 16

[2] OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008. p.23

[3] SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai a Guerra: o processo do envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3ª Ed. Barueri, SP: Mamole, 2003. p.29

[4] SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai a Guerra: o processo do envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3ª Ed. Barueri, SP: Mamole, 2003. p.20-21

 

Links para os artigos anteriores:

Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte I

Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte II

Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte III

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