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A Reintegração Social dos Ex-Combatentes da FEB – 46/88 – Parte II


Dando continuidade a publicação da excelente pesquisa sobre a reintegração social dos Ex-Combatentes, realizada magistralmente pelo Mestre Alessandro Santos, segue a segunda etapa. Para quem não acompanhou a primeira parte, clique no link abaixo:

A Reintegração Social dos Ex-Combatentes da FEB – 46/88 – Parte I

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CONTINUACAO

No momento em que se oficializou o retorno do efetivo da Força Expedicionária, a mesma já nem existia mais. Havia sido diluída através de decreto baixado quando ainda na Europa. Com atitudes como essa, tomadas de forma muito prematura naquele momento, uma das consequências foi a abertura de caminhos que poderiam conduzir a uma problemática social, situação essa que ainda era invisível e acabaria afetando uma grande parcela da população brasileira. Devido à forma como iniciou o processo de desmobilizar a FEB, ficariam as dúvidas acerca da representatividade que teriam, perante a sociedade, os ex-combatentes e, da mesma forma, como esses passariam a ser vistos pelo meio social. Tais atitudes dificultavam ainda mais uma ligação sólida entre ambas as partes, aumentando a possibilidade de ocorrerem fatos como a discriminação e isolamento.

Todo esse novo cenário, que teve início com a desmobilização, ainda em solo italiano. Configurou-se como algo que se posicionava contra o que idealizavam os vitoriosos combatentes. Estes tinham o anseio de não somente reencontrar suas famílias, mas restabelecer contato com seu povo. Esperavam uma recepção calorosa, o que de fato aconteceu, mas não esperavam que fosse tudo tão rápido. Queriam uma continuidade do reconhecimento e viver com dignidade, pois precisaram partir para o cenário da guerra, na Europa, arriscar suas próprias vidas em combate, e agora contavam com o reconhecimento público.

Contrariando as orientações realizadas pelos norte-americanos, foi efetivada uma desmobilização rápida, sem preocupações básicas, como por exemplo, ter uma legislação específica que oportunizasse uma preparação para um restabelecimento em meio à sociedade, capacitando estes novos cidadãos a, novamente, sintonizarem-se com o seu meio social. As orientações dos norte-americanos eram a de se manter a FEB como tropa de ocupação ou, pelo menos, como alavanca pra a modernização do exército brasileiro.

Como consequência dessas decisões, tomadas de forma precipitada e sem cautela, os ex-combatentes ficaram sem uma estrutura para se readaptar. A brutalidade de uma guerra possivelmente pode acabar interferindo no sistema nervoso do ser humano, principalmente em sua dimensão psicológica. O desamparo que vai acabar ocorrendo, principalmente por parte das autoridades político-militares, traz problemas de efeito “cascata”. Inicia afetando os ex-combatentes; posteriormente, familiares e amigos, que convivem de forma direta com os mesmos; e, por final, traz prejuízos incalculáveis para a sociedade e, finalmente, até mesmo para a memória historiográfica.

Após a desmobilização, algumas medidas começam a ser adotadas na tentativa de minimizar as dificuldades sociais, pelas quais estavam passando os ex-componentes da FEB. No ano de 1946 é editada a primeira lei de amparo, a qual procura atender, primeiramente, aqueles que ficaram mutilados nos campos de batalha. Ainda, na década de 1940, outras leis foram criadas, seguindo pelas décadas subsequentes. Porém, a legislação será um assunto abordado à parte, especificamente em um capítulo dessa pesquisa.

Com essa legislação a situação dos ex-combatentes começa a ser minimizada, embora tardiamente, inicia-se um processo demorado para reparar os prejuízos causados aos ex-militares e seus familiares. Existiram alguns entraves, o que fez a aplicação dessa leis sofrerem de lentidão. O principal motivo que levava as leis demorarem em ser votadas e aprovadas era a constante solicitação daqueles militares que, em nada tinham a ver com o episódio da Segunda Guerra Mundial, em querer receber os mesmos benefícios.

Com a dificuldade encontrada pelos ex-febianos para se restabelecer dentro da sociedade, de se reintegrar ao meio social, ao longo das décadas inicia-se um processo de aproximação com as Forças Armadas, de forma especial com o exército, fato que se explica por ser desse o maior efetivo de componentes. Essa proximidade, ocorrida entre ambos os lados, fazia com que houvesse uma fusão de idéias, “onde era referir-se aos pracinhas e ao Exército como se fossem uma coisa só.” [1]

Alguns esclarecimentos se fazem necessários. Essa dissertação, em seu título, privilegia o termo FEB, referindo-se a todos aqueles que participaram de forma efetiva do Teatro de Operações na Itália, de uma forma generalizada, como sendo parte da Força Expedicionária Brasileira, por assim termos essa compreensão. Porém, o efetivo em seu número maciço era da Força Expedicionária, tendo ainda o Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira e do Corpo de Enfermeiras. Esses dois últimos possuíam um número de componente bastante reduzido, fato que não diminui de importância sua participação, pois vivenciaram o mesmo momento e processo histórico, partilharam das mesmas dificuldades e tensões. Todos os grupos citados reúnem-se nas mesmas associações, sem usar de distinções de unidades e subunidades a que fizeram parte. Para referir-me aos grupos citados acima utilizarei os termos, ex – combatentes, ex – febianos, ex – expedicionários e veteranos. Para referir-me ao conjunto de componentes utilizarei Força Expedicionária, Força Expedicionária Brasileira e FEB.

No primeiro capítulo abordarei a criação da Força Expedicionária Brasileira, procurando relatar sobre a seleção e os apadrinhamentos, isto é, as atitudes tomadas para que determinado militar, mesmo sendo convocado, conseguisse criar mecanismos para não participar do efetivo que partiria para a Itália. Farei uma análise de como foi a partida da FEB e a chegada, após singrar o mar até a Europa. As tropas brasileiras conduziram materiais de baixa qualidade, ocorrendo, dessa forma, um reaparelhamento procedido pelos norte-americanos, ou seja, uma “americanização” da Força Expedicionária. Faremos uma abordagem sobre as grandes dificuldades enfrentadas para que houvesse uma adaptação ao novo cenário que se apresentava as superações ocorridas devido à determinação dos soldados brasileiros. Abordaremos, ainda, sobre alguns tipos de facilidades proporcionadas no Teatro de Operações, fato que, em algumas obras são negadas, principalmente naquelas de cunho militar e que foram pesquisas realizadas por oficiais do alto-escalão. Em outras análises referentes à historicidade da FEB, existem pesquisas que não aprofundam muito o assunto.

Esse aspecto não será tratado de forma depreciativa, com o intuito de denegrir ou desvalorizar a participação do efetivo expedicionário, ao contrário, tem por objetivo destacar alguns pontos sensíveis do campo de batalha que, por falta de esclarecimento oportuno na época, fez com que a sociedade, em alguns momentos, tivesse uma visão distorcida levando a comentários infundados. Ainda, analisarei como foi o retorno, momento tão esperado por todos que participaram, de forma efetiva, nos campos de batalha e como se desencadeou a receptividade organizada no país.

No segundo capítulo será abordado, de forma específica, a reintegração social dos ex-combatentes. Procuraremos analisar a problemática social gerada com a desmobilização que foi executada de maneira rápida e sem um planejamento mínimo. Os ex-integrantes da Força Expedicionária sofreram uma forte decepção ao se deparar com a realidade que, de uma hora pra outra, lhes foi imposta, nascendo um sentimento de abandono por parte do Estado e por parte da sociedade. Essa última agiu dessa forma principalmente por não ter sido preparada pelas autoridades para acolher seus heróis de guerra.

Uma luta pior do que aquela enfrentada nos dias e noites gélidos dos Apeninos, na Itália, estava por vir. Iniciaram-se as novas lutas, verdadeiras batalhas, agora em solo pátrio, para que se recebesse, no mínimo, o reconhecimento. Passaram a ser discriminados dentro da sociedade, que isolava e rotulava aqueles que estiveram em frente de combate, afirmando que haviam se tornado perturbados mentais. Mesmo aqueles que conseguiram voltar para seus lares, suas famílias e amigos, enfrentaram grandes dificuldades em se readaptar sem um tratamento psicológico adequado. Esses aspectos citados acima serão trabalhados de forma detalhada em subtítulos, tentando trazer a luz a realidade vivenciada pelos ex-combatentes.

No terceiro capítulo, será abordado, de forma específica, a busca constante que durou décadas, pelos amparos, por leis que assegurassem o mínimo de dignidade aos ex-combatentes e seus familiares. Amparos esses que foram tardiamente aplicados, agravando a precária condição social que grande número de ex-febianos, que ainda estavam vivos, vivenciavam. As legislações criadas, muitas vezes demoravam décadas para chegar e atender aqueles que se encontravam deslocados, morando em regiões afastadas dos grandes centros. Esse aspecto será abordado de forma mais profunda.

Muitos desses ex-componentes da FEB já haviam ido a óbito ou viviam em situação de pedintes, numa condição lamentável à margem da sociedade, verdadeiros mendigos, vivendo de restos, de sobras, quando as leis foram sancionadas. Será, ainda, realizada uma análise sobre entidades e instituições que foram criadas pelo Estado para dar amparo e levantar fundos para os ex-combatentes e sua famílias, os quais passavam por uma dificuldade extrema e careciam de toda ajuda possível. Além das entidades, os próprios estados, municípios, aos quais pertenciam os ex-integrantes da Força Expedicionária, procuravam dentro de suas possibilidades, oferecer benefícios que pudessem minimizar suas precárias condições sociais. Os aspectos sobre as entidades serão abordados, de forma mais detalhada, em subtítulo exclusivo, que procurará esclarecer em que pontos contribuíram para minimizar o problema social gerado e se foi de forma positiva ou negativa.

As fontes orais utilizadas nessa pesquisa, com ex-integrantes da Força Expedicionária Brasileira, serão trabalhadas no sentido de trazer informações inéditas, que auxiliem na compreensão das dificuldades enfrentadas no momento da reintegração social. Essas entrevistas não ficaram limitadas somente a esse aspecto, mas ilustrarão outros momentos, como a organização do efetivo expedicionário, participação efetiva nos campos de batalha, as adversidades enfrentadas e superações, trazendo um aspecto inédito, como as facilidades proporcionadas pela guerra, mesmo não sendo esse o tema central da pesquisa. Essas informações trarão grande enriquecimento em detalhes, a fim de contribuir para uma melhor compreensão desse momento da história militar brasileira, qual seja a participação no episódio da Segunda Grande Guerra Mundial, agregando informações inéditas coletadas junto aos ex-combatentes.

Visando facilitar a compreensão e a leitura dessa pesquisa, por parte daqueles que possuem pouco contato com denominações militares, algumas delas usadas nesse trabalho, farei um breve resumo da composição da Força Expedicionária Brasileira. A apresentação dessa forma organizacional tem a finalidade de passar a idéia de como foi distribuído esse efetivo. A FEB, seguindo as novas doutrinas norte – americanas e se adequando a ela, teve participação efetiva com uma divisão de exército, foi composta de vários tipos de unidades, que cumpriam finalidades específicas, auxiliando umas as outras no cumprimento de missões no campo de batalha. As unidades mais citadas são os Regimentos de Infantaria, pelo fato de que essa estrutura foi a que melhor se adaptava ao terreno em que haveria a participação brasileira, como explicado por Francisco César Alves Ferraz[2]:

 A estrutura da FEB era “ternária”, ou seja, cada unidade dividia-se em três menores, que se dividiam em outras três menores e, assim, sucessivamente, até chegarmos aos Grupos de Combate. Esta é a unidade básica, formada por 13 homens, sendo 11 soldados, um cabo e um sargento, que o comanda. Um pelotão é composto por três Grupos de Combate, que soma 41 homens, comandados por um tenente e tendo como auxiliar direto um segundo sargento, a praça mais antiga, ocupando a função de adjunto. Três Pelotões de fuzileiros e mais um Pelotão de Petrechos Leves (morteiros e metralhadoras leves) compõem uma Companhia (193 homens), comandada por um capitão. Três Companhias de fuzileiros e mais uma Companhia de Petrechos Pesados (com 166 homens, possui dotação de metralhadoras e morteiros pesados, de maior calibre) formam um Batalhão (871 homens), comandado por um major. Três Batalhões constituem um Regimento de Infantaria (R. I.), que possui 3.256 homens e é comandado por um coronel. Dessa forma, os três Regimentos que compuseram a FEB formaram a Infantaria de sua Divisão. Mesmo que cada unidade abrigasse soldados de todos os Estados brasileiros, era maior a concentração de soldados de sua sede. Assim, o 1º R. I., com sede no Rio de Janeiro, concentrou mais expedicionários cariocas e fluminenses. O 6º R. I., com sede em Caçapava, São Paulo, reuniu mais paulistas. O 11º R. I., com sede em São João Del Rei, Minas Gerais, teve a maior concentração de mineiros. A composição da Artilharia era de quatro Grupos de Obuses, três dos quais com 12 canhões de 105mm e um, com 12 canhões de 155mm. Um Grupo de Obuses era dividido em três baterias, de quatro canhões. A Artilharia tinha como auxiliar, o Esquadrão de Ligação e Observação, que usava aviões pequenos e frágeis para monitorar, por via aérea, os alvos a serem atingidos pela Artilharia. O Batalhão de Engenharia, o Batalhão de Saúde, o Esquadrão de Reconhecimento (possuía 13 carros blindados (sobre rodas) e 5 carros de meia-lagarta, tendo como comandante um capitão, eram unidades e subunidades que completavam o quadro operacional. Outras companhias como de Transmissões, de Manutenção, de Intendência e de Polícia, além daquela destinada ao Quartel General da Divisão, faziam parte. Pequenas unidades e quadros completavam a FEB, como os capelães militares, os componentes do Pelotão de Sepultamento, os padioleiros, a Justiça Militar, a Banda de Música e a agência do Banco do Brasil.

BIBLIOGRAFIA

BONALUME NETO, Ricardo. A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942-1945. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1995.

CABRAL, F. Um batalhão no Monte Castelo. São Paulo, 1982. Tese (Doutorado em História), Universidade de São Paulo

FERRAZ, Francisco César Alves. A guerra que não acabou: a reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (1945-2000). Tese de doutorado. São Paulo, 2003.

FERRAZ, F. C. A. O Brasil na guerra: um estudo de memória escolar. Comunicação apresentada no IV Encontro Perspectiva do Ensino de História. Ouro Preto. Universidade Federal de Ouro Preto, 24 de abril de 2001. Anais da ANPOC.

LINS, M de L. F. A Força Expedicionária Brasileira: uma tentativa de interpretação. São Paulo, 1972. Dissertação (Mestrado em História) Universidade de São Paulo (publicada em 1975 pela Editora Unidas de São Paulo).

MASCARENHAS DE MORAES, João Batista. A FEB pelo seu Comandante. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1947.

NASS, Sirlei de Fátima. Legião Paranaense do Expedicionário: indagações sobre a reintegração social dos febianos paranaenses (1943-1951). Dissertação – UFPR, 2005.

OLIVEIRA, D. História e memória entre ex-combatentes: o caso da Força Expedicionária Brasileira (1943-2000).

RIBEIRO, P. da S. As batalhas da memória: uma história da memória dos ex-combatentes brasileiros. Niterói, 1999. Dissertação (Mestrado em História): Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense.

SALUM, A. O. Zé Carioca vai à Guerra. São Paulo, 1996. Dissertação (Mestrado em História) Pontifícia Universidade Católica.


[1] FERRAZ, F. C. A. A guerra que não acabou… op. cit. p. 09.

[2] FERRAZ, Francisco César Aves. A Guerra que não acabou… op. cit. 10-11; BONALUME NETO, Ricardo. A nossa Segunda Guerra: os brasileiros em combate, 1942-1945. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1995, p. 134-135; e MASCARENHAS DE MORAES, João Batista. A FEB pelo seu Comandante. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1947, p. 263-264.

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