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Archive for 09/12/2011

FIM DA GUERRA! Por Joel Silveira.

Em uma deliciosa reportagem de Joel Silveira fala sobre seu encontro de uma tropa alemã no final da guerra, então percebemos algo que, inicialmente, é difícil de encontrar ou entender durante um estado de guerra. Primeiro a disciplina alemã é incrivelmente inquestionável, mesmo totalmente destroçada as tropas marchavam em formação, com respeito e obediência hierárquica, e na narrativa do Joel parece algo surreal para exército desfarelado. Outra observação é o ponto em que o próprio correspondente de guerra percebe que um novo universo estava se formando para vencido e vencedores, e como um profeta ele pergunta: O que será de nós? Como se previsse o descaso que aconteceria como a desmobilização e abandono do contingente vitorioso da FEB.  Então curtam esse maravilhoso relato:

Publicado anteriormente: O Primeiro Dia – Relato de Joel Silveira – Correspondente de Guerra

Então para fechar vamos publicar o último dia da guerra para Joel Silveira.

_____________________

Fim da Guerra

 

Foi no dia 03 de maio de 1945.

Haviam-nos dito, no QG avançado da FEB, que a guerra iria acabar dentro de três dias, quatro no mais tardar. Mas na verdade já havia acabado, embora muitos combatentes – aliados e alemães – ainda não soubessem disso. Eu sabia. Mas não sabia o sargento alemão que fomos encontrar, num trecho de autoestrada que vai de Milão para Bolonha, tentando comandar decentemente um grupo de soldados amarfanhados e barbudo. Atrás do aturdido Batalhão, um pequeno carro italiano camuflado levava um coronel de rosto duro, que sentava ereto ao lado do motorista como se estivesse em posição de sentido. E o motorista era quase um menino, as faces cavadas pelo cansaço, olheiras profundas e maltratados cabelos sobrando do casquete cinza-esverdeado.

Alcançamos com o nosso jipe o carro do coronel, que andava sem pressa, fiz um gesto pedindo que parasse. Mas, antes de frear, o menino olhou apreensivo para o impassível oficial. Este levantou o braço direito, cuja mão segurava uma luva de couro, e imediatamente o jovem chofer pisou no freio.

Lá na frente, o sargento e os soldados, vendo que o carro do coronel estacara, também interrompeu a marcha. E logo uma vintena rodeava nosso jipe. Numa voz que pretendia ser autoritária, o sargento grunhiu uma ordem que ninguém pareceu ouvir. Ou, se ouviram, não obedeceram.

Entre Milão e Bolonha, a larga estrada ainda não era inteiramente de ninguém, nem nossa, nem deles – e por ignorar isto é que o Correspondente de Guerra Rubem Braga levou um inesperado tiro na mão. Logo a magnífica rodovia estaria desimpedida, mas naquela manhã havia trechos dos quais o inimigo ainda não havia sido expulso. O difícil era saber o que já era nosso e o que ainda era deles. E sabe isso era o que precisamente estava acontecendo naquele instante no quilometro 312 do caminho que nos trouxera de Milão, libertada poucos dias antes, e que deveria nos levar a Bolonha, já tomada a muito tempo.

O Corporal Hans sabia um pouco de italiano e, a uma pergunta minha, respondeu que estava recuando.

– Para onde?

– Para qualquer lugar, não sabemos ainda.

Perguntei depois quem era o coronel. Hans me disse que o coronel se chamava Gunther Habecker, comandante do 114º Regimento de Artilharia – ou do que restava dele. E o que restava do 114 era o que se encontrava ali, diante de nós: uns 50 homens de todas as idades, de uniformes os mais variados, a maioria já sem qualquer arma, quase todos de olhos enterrados nos rostos magros, fechados na barba de dias. O 114º era a sobra da Divisão, a 543, que por sua vez, havia sobrado de uma Corpo de Exército – o do Marechal Kelsering – que não existia mais e que começara a dispersar-se desde que foram expulsos do seu QG, em Genôva.

Foi ao Corporal Hans que indaguei para onde eles pretendiam ir, mas ao fazer a pergunta fixei por um instante os olhos no coronel Gunther, que permaneceu como estava: vertical e distante. Hans queria saber se de fato a guerra havia acabado.

 – Acabou mesmo, não?

 – Acabou.

– Nós já sabíamos. Horas atrás encontramos um Batalhão de ingleses, perto de Pádua, e eles nem nos quiseram prender. Só o nosso Coronel não quer entender ou aceitar isso.

Marchavam agora, ou melhor, caminhavam quase se arrastando, como no final de um prolongado passeio. Direção: a retaguarda. Ponto de chegada: qualquer um. Talvez Bréscia, talvez Alessandria, porque as rações estavam chegando ao fim e os italianos, antes não amigos e prestativos, já não queriam mais nada com eles. Estavam sem comida. E sem cigarros.

 – O último o Coronel acaba de fumar.

Quando Hans soube que era jornalista passou a me fazer uma série de atropeladas perguntas. Atropeladas e ansiosas. E logo não era apenas ele, mas todos a querer saber se era verdade que a Alemanha havia se rendido, se o Marechal Kesselring havia sido preso. Minhas respostas os deixavam ainda mais inquietos. Com exceção do coronel, que fingia não ouvir a conversa (da qual Hans servia de intérprete para os companheiros, no seu italiano confuso), mas era evidente que estava escutando e entendendo tudo.

Hans me disse mais, que as últimas notícias que haviam tido “lá do norte” não eram nada boas, coincidindo com as que eu lhe dava: Mussoline e seus gerarcas haviam sido executados pelos partigiani, Berlim praticamente fora varrida do mapa, Hitler se matara, e os vitoriosos, particularmente os russos, estavam sendo implacáveis para os vencidos.

Que ia ser deles? Uma era de Bremen, outro de Hamburgo, outro de Dresden (Dresden também acabou), outro de Kiel. E havia também alguns tchecos, um russo ucraniano e quatro polacos. Que ia ser de todos? Muitas das cidades onde havia nascido, e para onde pretendiam retornar um dia, eram naquele instante apenas nomes, referências sem sentido num geografia que a guerra havia passado a limpo, nalguns pontos apagando-a por completo do mapa.

 Houve um momento em que o sargento segurou meu braço, me olhou dentro dos olhos e perguntou se tinha cigarros: “zigarette?” Não fumo – mas tinha.

 – Cambiare?

Trocar por quê? Que teria ele a me dar? O alemão meteu a mão no bolso do culote folgado e dele tirou uma Cruz de Ferro e mais outro crachá no centro do qual uma iracunda águia nazista desfraldada as suas outrora temíveis asas.

 –Cambiare?

Entreguei-lhe os dois maços de cigarros. Ele me deu as medalhas. Depois acendeu um cigarro, sorveu demorada e gulosamente a fumaça, os olhos semicerrados, num total enlevo. Em seguida ajeitou o bornal que trazia dependurado ao ombro, gritou um ordem imperativa e o grupo voltou a se reunir.

Foi então que começou a cair uma chuvinha rala e fria – e também absolutamente neutra, pois molhava a todos nós, vencedores e vencidos. Imperturbável, o Coronel Gunther Habecker continuou como estava. Mas o sargento, ao vê-lo exposto à chuva que engrossava, gritou qualquer coisa em alemão. E como ninguém, no grupo palrador, parecesse tê-lo ouvido, gritou mais alto. Logo um velho soldado destacou-se do resto do Batalhão, trazendo um guarda-chuva. O sargento arrancou-o das mãos do soldado, pulou para o assento de trás do pequeno carro do coronel e abriu sobre sua cabeça o guarda-chuva providencial. O coronel Gunther, comandante do 114º de Artilharia, repetiu o mesmo jeito de momentos antes, erguendo a mão que segura a luva de couro, e o seu carros pôs-se novamente em movimento. Ao roçar nosso jipe, fez uma espécie de continência, à qual o meu motorista, um enfezado e exausto terceiro-sargento, respondeu com um sonoro palavrão em português.

                Não havia dúvida: a guerra tinha acabado, definitivamente. Tudo indica isso: o prosaico guarda-chuva aberto sobre a cabeça do coronel alemão, a sua continência vaga (mas um cumprimento que continência) e o indisciplinado palavrão do meu sargento – não restava mais dúvida: tais demonstrações tão à margem da ordem castrense eram a prova definitiva, a que me faltava, de que de fato a guerra chegara ao fim.

                A guerra havia acabado – e, do lado de lá e do lado de cá, que seria de todos nós? Do lado de lá, um era de Bremen, outro de Hamburgo, outro de Praga – que ia ser deles? Do lado de cá, eu era de Aracajú e o sargento de São João del Rei – que ia ser de nós dois? Nossa situação, naquele momento, era ironicamente a mesma, ou quase. Vencidos e vencedores, a fábrica de matar, onde vínhamos trabalhando havia meses, anos, fora fechada, e agora estávamos todos sem emprego. Dentro de mais algumas horas, quando o armistício fosse assinado, não seríamos mais do que intrusos sem função num terra que não era a nossa e que por justas razões só tinha motivo para nos detestar e estava ansiosa para nos ver pelas costas.

                Quando o último soldado alemão desapareceu na estava, o Sargento Alcebíades me perguntou para onde iríamos agora? Pensei alguns segundos, decidi:

                – Vamos voltar.

                – Para Milão?

                – Exato

                – Mas acabamos de sair de lá.

                – E daí? A guerra acabou. O coronel deles pensa que não, mas o fato é que acabou. Você viu aquele guarda-chuva do sargento? A guerra acabou mesmo. Vamos para Milão. Lá tem luz, tem aquecimento, tem bebida, tem mulher. E já é hora de arrumar a nossa trouxa.

                Na verdade, metido naquela farda velha de quase 10 meses, eu já começava a me sentir um tanto ridículo. Como alguém fantasiado de palhaço num quarta-feira de cinzas.

                – Quer dizer que é Milão mesmo?

                – É

                – Pois que seja, o Capitão é que manda.

                Minha reação ríspida:

                – E pare de me chamar de “capitão”. “Capitão” é a mão!

                – E como vou chamar o senhor a partir de agora?

                – “Senhor” também é a mãe! Me chame simplesmente de Joel. É o meu nome. E é o que sou.

                – Depois de tanto tempo, vai ser difícil. Mas vou tentar.

                – Pois comece logo. E basta de conversa. Milão!

Fonte: A Luta dos Pracinhas  –  Joel Silveira/Thassilo Mitke. Ed. Record, 1993

A Reintegração Social dos Ex-Combatentes da FEB – Parte III

BRASIL: CONDUZIDO AO CONFLITO ARMADO

 

 A abordagem sobre o direcionamento político, que aconteceu no cenário brasileiro, se torna importante para que possamos ter um entendimento de como foi demorada a tomada de decisão de apoiar, militarmente, os países aliados. Também, auxilia na compreensão de como teve que se organizar às pressas e de forma desordenada esse efetivo, que comporia a Força Expedicionária. Esse contingente foi mobilizado sem organização, fruto, principalmente, da inexperiência em guerras, situação que permaneceu presente na mobilização, participação e desmobilização da FEB, direcionando para a problemática social que se apresentou ao findar da participação brasileira no episódio da Segunda Guerra Mundial.

Com a Revolução de 1930, Getúlio Vargas é levado à presidência da República, conforme análise de Ricardo Seitenfus:[1]: “Em outubro de 1930, um movimento armado conduz o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas à presidência da república. A Primeira República conhece seu ocaso e tem início a Era de Vargas”. Após passar pelo governo provisório (1930-1934) e pelo governo constitucional (1934-1937), apoiado por militares e pela população, Getúlio Vargas derrubou a constituição e declarou o Estado Novo (1937-1945). Com o advento do Estado Novo, em novembro de 1937, “Vargas passou a governar com poderes ditatoriais, iniciando oito anos de domínio incontrastável.”[2]

Iniciava-se um período de ditadura na História do Brasil. Alegando a existência de um plano comunista para a tomada do poder (Plano Cohen) Getúlio fechou o Congresso Nacional e impôs ao país uma nova Constituição, que ficaria conhecida mais tarde como “Polaca”, por ter se inspirado na Constituição da Polônia, de tendência fascista. O governo de Getúlio Vargas contava com grande apreço popular e tinha como meta principal enquadrar o Brasil em uma era de desenvolvimento. Procurando uma autonomia em bens industriais, não desejava que o país continuasse tão dependente das economias internacionais.

O país contava com uma economia muito dependente. O que vem dar mostras dessa fragilidade econômica foi à crise de 1929, na qual foi grandemente reduzida à compra do café brasileiro, produto que servia como base da economia nacional, fazendo com que as preocupações de uma industrialização tomassem lugar de destaque, como explica Ricardo Seitenfus:[3]:

A crise econômica mundial de 1929 mostrou bem que o Brasil não mais poderia continuar a depender inteiramente do estrangeiro para o suprimento de bens industriais. A importância da siderúrgica para o Brasil e para sua política externa é imensa: Getúlio Vargas a considerou o “problema básico” da economia brasileira. Enquanto não resolvido, o Brasil não reconheceria “a opulência econômica”. A partir de outubro de 1930, a implantação de um complexo siderúrgico tornou-se um dos elementos chave do programa getulista, condicionando a atitude brasileira em relação à Alemanha e aos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (p. 04)

A política comercial brasileira partiu para a tentativa de diminuir as barreiras que o protecionismo internacional impunha, procurando uma aproximação com as nações que dominavam os mercados pelo mundo. O Estado Novo foi marcado pela expansão industrial e pelo crescimento das exportações nacionais: “O país apresentava uma estrutura agrária, com o café respondendo por 70% das exportações e 60% dos seus quase 40 milhões de habitantes vivendo em áreas rurais.”[4]

Desde o final de 1935 o governo havia reforçado sua propaganda anticomunista, amedrontando a classe média e de certa forma preparando a mesma para prestar seu apoio. O Golpe de Getúlio Vargas teve sua articulação com apoio dos militares, contando também com o apoio maciço da sociedade. Dessa forma, conseguiu uma centralização política que, desde então, se desencadeava. Vargas impôs a censura aos meios de comunicação, reprimiu a atividade política, perseguiu e prendeu inimigos ligados a ela, adotando medidas econômicas nacionalizantes e deu continuidade a sua política trabalhista com a criação da CLT[5], em 1943.

Desde a sua ascensão ao poder, a política getulista sempre seguiu a esteira das políticas totalitárias e ditatoriais. Fato esse que, com a proximidade do evento da Segunda Guerra Mundial, a sociedade e até mesmo o meio militar ficava duvidoso de qual seria sua decisão, a quem prestar apoio, como analisado por Roney Cytrynowicz[6]:

Como terceiro e “outro” fator aparece a guerra que já em 1939 “produzia seus efeitos no Brasil, pois, como se não bastasse a ditadura do Estado Novo, havia o temor de que Getúlio Vargas optasse por alinhar o país ao lado da Alemanha nazista.

Embora identificado com os regimes totalitários europeus, o Estado Novo getulista conservava-se neutro em relação ao conflito que eclodira em 1939, neutro quanto aos Estados liberais e ao nazi-fascismo europeu. As riquezas minerais, como, por exemplo, o minério de ferro em grande quantidade, era estrategicamente ambicionado pelos dois lados, pois essas matérias-primas seriam utilizadas para a fabricação de arsenais de guerra, tecnologia que, nesse período, estava em pleno desenvolvimento.

Apesar das pressões norte-americanas, o governo continuava indeciso. E essa indecisão era reflexo das tendências contraditórias dos homens do governo: enquanto Filinto Müller, chefe da polícia do Rio de Janeiro, e Francisco Campos, Ministro da Educação, eram favoráveis às potências fascistas do eixo Berlim – Roma – Tóquio, Osvaldo Aranha, ministro das Relações Exteriores, colocava-se contra. Entre as duas tendências oscilavam os generais Góis Monteiro e Dutra.

Todavia, muito preocupavam aos Estados Unidos as ligações comerciais que o Brasil mantinha com a Alemanha e, principalmente, a postura tomada por Vargas diante da ideologia dos países do Eixo. Em 1940, Vargas citou em um discurso as qualidades do Eixo. Isso fez com que todos acreditassem na possibilidade do Brasil, em breve, se unir a eles, até porque o Estado Novo era um governo que se identificava com os regimes totalitários europeus. Mas apesar do fato do presidente ser um simpatizante do regime alemão, “economicamente, nas circunstâncias, o Brasil não podia viver sem os Estados Unidos. A Alemanha não era bastante grande para substituí-lo em nossos negócios.”[7]

Segundo Roberto Gambini[8]:

Deve ficar bem claro que essa possibilidade de um duplo sistema comercial foi usada, mas não criada pelo Brasil. À medida que se concretizava as medidas que definiam a aliança entre Brasil e Alemanha, os Estados Unidos concentravam seus esforços para subverter o comércio entre os dois países, visando impedir que a Alemanha prosseguisse em sua marcha armamentista.

Sendo assim, o governo determinou através do DIP[9], que qualquer meio de comunicação permanecesse neutro ao relatar notícias da guerra que acontecia na Europa, uma vez que a censura era rigorosamente exercida em todas as ocasiões. A inclinação a favor das potências aliadas deu-se a partir do sucesso das negociações de empréstimos entre o Brasil e o Eximbank, em 1941. Já na II Conferência de Consulta dos Chanceleres no Rio de Janeiro, em meados de janeiro de 1942, a aliança política entre Brasil e Estados Unidos foi efetivada. Tornou-se inevitável naquela ocasião o rompimento das relações diplomáticas com o Eixo. Em março do mesmo ano, o comprometimento do Brasil se aprofundou, com a assinatura de um acordo que permitia aos Estados Unidos a utilização das costas nordestinas como bases aeronavais.

A participação direta do Brasil no conflito mundial aconteceu após repetidos ataques aos navios brasileiros por parte da força submarina alemã. Cerca de dezoito navios foram perdidos nesses ataques, realizados até em águas brasileiras. Além das perdas materiais, foi grande o número de brasileiros mortos, conforme analisado pelo Marechal Floriano de Lima Brayner[10]:

Foram grandes as nossas perdas, em embarcações e vidas preciosas. E deste modo registrou-se a inevitável exaltação do amor próprio nacional, e mais de se acentuou a nossa aproximação aos Aliados Ocidentais. Em 22 de agosto de 1942, o Brasil rompia relações com os países do Eixo Berlim-Roma em seguida ao cruel afundamento do Afonso Pena, por um submarino, nas costas da Bahia, e do Aníbal Benévolo, Baependi, Araraquara, Itagiba e Arara, entre 15 e 16 de agosto de 1942, a 8 milhas da costa de Sergipe, fazendo 653 vítimas.

Até o momento que ocorreu o fato acima citado, a política getulista tinha um alinhamento com as ideologias ditadas pelos países do eixo, em especial com a Alemanha, como abordado anteriormente. Quando ocorre esse episódio, o sentimento de simpatia transforma-se em sentimento de justiça como explicado por Italo Conti[11]:

Realmente era admirável a forma da política alemã e Getúlio Vargas fez um discurso muito ambíguo, dizendo que forças novas estavam surgindo no mundo, realmente dava a entender que estava com pensamento a apoiar as ideologias alemãs, as quais estavam sendo vitoriosas. Mas no instante que virou a opinião pública do Brasil, inclusive a simpatia do exército brasileiro que tinha pelo exército alemão, virou em 24 horas.

Evidentemente, isso provocou reações espontâneas que resultaram em manifestações populares, exigindo a entrada do Brasil na guerra. Em 21 de agosto de 1942, finalmente, Osvaldo Aranha, ministro das Relações Exteriores, declarou oficialmente guerra contra a Itália e a Alemanha. O país acaba participando do episódio da Segunda Guerra Mundial, não porque estava na eminência de ser atacado ou ocupado, mas sim, porque as articulações políticas e econômicas acabaram conduzindo ao desfecho desse processo.

A participação inicial do Brasil ficou limitada ao fornecimento de matérias-primas estratégicas e ao auxílio no policiamento do Atlântico Sul. Somente em 1944 foi enviado à Itália um contingente de soldados, que compuseram a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que foi criada um ano antes, sob o comando do General Mascarenhas de Morais, a qual passará a ser analisada em item específico.

A sociedade brasileira tinha em todos os seus segmentos, sejam eles políticos, instituições de segurança, comércio, indústria, produção rural, uma ligação muito forte com os imigrantes alemães e italianos, dificultando de forma expressiva a tomada de decisão contrária aos países do eixo, em especial a Alemanha. Essa atitude, depois de tomada, acabaria afetando até mesmo a forma como seria tratado o povo germânico aqui residente, o que acabou acontecendo de fato.

Ainda, conforme abordagem dos autores Roberto Ganbini, Leôncio Basbaum, Renato Eickhoff, Roney Cytrynowicz, Ricardo Seitenfus e Paulo Brandi, nos possibilita uma visão de como foi articulado dentro do Estado Novo uma situação que pudesse beneficiar a economia brasileira até os últimos momentos, em que uma decisão havia de ser tomada: tomar partido e apoiar os países do Eixo, seguindo as políticas totalitárias, ou apoiar os países aliados e lutar contra essas ideologias. Dentro do exposto acima, fica possível uma análise de como acaba se desencadeando o processo que leva o país aos campos de batalha da Europa, desde suas dificuldades, devida à relação construída com os imigrantes germânicos, ideologia política alinhada com os regimes ditatoriais e, ainda, interesses econômicos.

BIBLIOGRAFIA

 

BASBAUM, Leôncio. História sincera da República: de 1930 a 1960. São Paulo: Alfa-Omega, 1976.

BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB: memórias de um chefe do estado-maior na campanha da Itália. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edusp, 2000.

EICKHOFF, Renato. A Força Expedicionária Brasileira e os seus veteranos. 2005. 42 f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura Plena) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2005.

GAMBINI, Roberto. O duplo jogo de Getúlio Vargas. São Paulo: Ed. Símbolo, 1977.

RIBEIRO, P. da S. As batalhas da memória: uma história da memória dos ex-combatentes brasileiros. Niterói, 1999. Dissertação (Mestrado em História): Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense.

SALUM, A. O. Zé Carioca vai à Guerra. São Paulo, 1996. Dissertação (Mestrado em História) Pontifícia Universidade Católica.

SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai à guerra: o processo de envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3.ed. Barueri, SP: Mamole, 2003.

BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.


[1] SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai à guerra: o processo de envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3.ed. Barueri, SP: Mamole, 2003. p.01

[2] BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. p. 03.

[3] Idem. p.4

[4] EICKHOFF, Renato. A Força Expedicionária Brasileira e os seus veteranos. 2005. 42 f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura Plena) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2005. p.5

[5] Consolidação das Leis do Trabalho. Criada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. A consolidação das leis trabalhistas era uma necessidade do governo Vargas, populista e dependente da aclamação popular. Nesse período foi criado o Ministério do Trabalho, e a maioria das leis trabalhistas nasceram após 1930, quando triunfou a revolução que levou Vargas ao poder. O sindicalismo crescia sob as asas do governo e foram feitas muitas leis para regulamentar o trabalho.

[6] CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edusp, 2000. p.292

[7] BASBAUM, Leôncio. História sincera da República: de 1930 a 1960. São Paulo: Alfa-Omega, 1976. p. 122.

[8] GAMBINI, Roberto. O duplo jogo de Getúlio Vargas. São Paulo: Ed. Símbolo, 1977. p. 165

[9] O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado em dezembro de 1939, foi o principal responsável pela legitimação de Vargas e do Estado Novo perante a opinião pública. Com maior amplitude de ação que o Departamento Nacional de Propaganda, o DIP, dirigido por Lourival Fontes, tornou-se porta-voz autorizado do regime e o órgão coercitivo máximo da liberdade de pensamento e expressão até 1945.

[10] BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB: memórias de um chefe do estado-maior na campanha da Itália. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p. 19

[11] Ítalo Conti. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009, na cidade de Curitiba – PR. Natural da cidade de Mallet – PR, de origem italiana, participou como voluntário. Após a declaração de guerra do Brasil contra as nações do eixo, todos os oficiais receberam do ministro um telegrama, solicitando que compusessem o efetivo da FEB, o qual ele fez prontamente. Fez parte do efetivo do 1o Grupo de Artilharia em apoio ao 11o RI. Tinha a função de oficial de ligação, era capitão naquela oportunidade, tendo como seu superior o coronel Valdemar Levi Cardoso, comandante do 1o Grupo de Artilharia. Após passar para a Reserva, desempenhou funções como chefe de segurança do Estado do Paraná e foi também, por algumas vezes, eleito Deputado Estadual. Configura uma das grandes personagens do Estado do Paraná. Conta atualmente com 94 anos.

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