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Preparação da Força Expedicionária Brasileira


Estamos com o desejo de cobrir todos os aspectos da Força Expedicionária Brasileira, tendo a pretensão de ser um pequeno livro virtual da FEB. Portanto estamos publicando o 4º Capítulo. E para quem não acompanhou também estou colocando os três iniciais. Espero que gostem:

I – Introdução
II –  O Brasil em cima do Muro!
III – Osvaldo Aranha – O cara que decidiu

IV – FEB – A Preparação:

É necessário que possamos entender de forma completa todo o cenário político que caracterizou o processo de entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, entendendo, inclusive, a estratégia brasileira para barganhar apoio técnico-financeiro em contrapartida a cessão de bases para o engajamento no conflito.

A política externa brasileira se volta para o alinhamento diplomático com os Estados Unidos a partir do rompimento das relações com as potências do Eixo em 1942. E o resultado concreto dessa aproximação é a formação da uma Comissão Mista de Defesa Brasil-Estados Unidos (Joint Brazil/United State Defense Commission), com a intenção de realizar o planejamento estratégico da defesa do país, e cujo acordo de cooperação, divulgado em 23 de março de 1942, cita a utilização de tropas brasileiras no continente americano “mediante decisão do governo brasileiro”, é a primeira vez que é cogitada a utilização de força brasileira em operações de guerra fora do seu território. Em 29 de março de 1943, o Presidente Getúlio Vargas autoriza o General Leitão de Carvalho, membro da Comissão, a realizar um estudo sobre a utilização de tropas brasileiras nas operações de guerra. Outro ponto a ser analisado é a situação extremamente sensível do nordeste brasileiro, onde o Brasil fez muito pouco, ou quase nada para mobilizar recursos militares para a região durante os momentos mais vulneráveis do front africano. Cidades importantes como Natal, Recife, Salvador e Rio de Janeiro estavam completamente desprotegidas e sem qualquer plano de defesa para inibir ataques de força estrangeira. Durante os anos de 1940 a 1943, o Ministério da Guerra promoveu apenas o deslocamento de pequenas unidades para o litoral, como é o caso de unidades de infantaria que tiveram efetivos do tamanho de uma fração de combate enviadas para proteção do litoral da Paraíba e cidades litorâneas do Rio Grande do Norte.  A falta de condições de defesa de seu litoral foi um dos motivos que levou o país a buscar o apoio militar dos Estados Unidos na própria Comissão Mista de Defesa. Mas o governo brasileiro também desejava ter uma tropa que pudesse ser capacitada e equipada com o melhor que os americanos tinham, portanto começa a tomar corpo a estruturação da FEB.

Com a preparação para a formação de uma Força Expedicionária Brasileira o Exército passa por uma reformulação que, do ponto de vista militar, é bastante custosa; a mudança da doutrina militar. O emprego de militares formados segundo as técnicas de doutrinamento utilizadas pelo país durante décadas seria um dos principais problemas enfrentados pelos militares, principalmente aqueles de carreira.

A Missão Militar Francesa (MMF) estabeleceu no país, através de convênio entre o Brasil e a França, esforços no sentido de modernizar a Força Terrestre, sendo aplicada nas décadas de 20 e 30, e tendo encerrado suas atividades no país com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, o Brasil deveria formar uma Força Expedicionária que pudesse absorver a doutrina americana, que é completamente diferente da doutrina francesa, para combater como uma divisão americana, esse foi o primeiro grande obstáculo a ser ultrapassado pelo Exército brasileiro para formação de uma Divisão Expedicionária, e essa dificuldade passava pela especialização das unidades e elementos a serem empregados na guerra moderna, como é o caso das unidades especializadas no emprego logístico, policiamento, engenharia, medicina e especialidades armamentistas que simplesmente não existiam no Exército, e nem mesmo no país; outro ponto é que os oficiais que comandariam as unidades deveriam conhecer profundamente as táticas militares e os armamentos individuais e coletivos utilizados pelos seus soldados, tudo de origem americana. Todos os oficiais estavam familiarizados com a doutrina francesa utilizada em centros de formação de oficiais, como a Escola Militar de Realengo. Portanto um impacto que o Exército ainda não sabia a dimensão disso na atitude e no comando das tropas.

O início da formação da Força Expedicionária Brasileira começou com o recrutamento de seus membros, para tanto, um grupo de oficiais superiores foram enviados como observadores nos Estados Unidos e na África, desse grupo sairia o Comandante da FEB. Coube ao Presidente Vargas a escolha do comando, sendo indicado o General Mascarenhas de Morais, que estava servindo em São Paulo e respondeu positivamente a mensagem reservada enviada pelo Ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra, sendo nomeado comandante da Força Expedicionária Brasileira.  Também foram escolhidos os três Regimentos Militares que iriam compor a espinha dorsal da FEB: 1º Regimento de Infantaria, sediado no Rio de Janeiro, 11º Regimento de Infantaria, sediado em Minas Gerais e 6º Regimento de Infantaria, sediado no Estado de São Paulo. Além desses grandes Regimentos, citaremos o 9º Batalhão de Engenharia, que viria a ser a primeira tropa a entrar na linha de frente na Itália. Outras unidades mais especializadas foram reestruturadas para compor a FEB ou criadas completamente, como é o caso do Pelotão de Polícia Militar (Military Police). Alguns oficiais Generais e Oficiais Superiores foram enviados para os Estados Unidos para realizarem Curso de Aperfeiçoamento em Academias Militares americanas. O objetivo dessa formação era diminuir o impacto com doutrina que iria ser utilizada nos campos de batalha com a FEB.

Após a fase de tramitação burocrática para constituição da FEB, seguiu a fase de incorporação dos seus efetivos. Inicialmente os militares dos Regimentos já citados foram convocados e, preferencialmente, aqueles militares que desejaram ser incorporados, sendo que a maioria dos praças, eram oriundos das cidades onde os regimentos estavam localizados. Mas, evidentemente, o efetivo de uma Divisão exigiu que outros oficiais e praças fossem transferidos de outras regiões do país, sendo o procedimento de voluntariado, conforme descrito abaixo, pelo então 3º Sargento Virgílio, da Paraíba, e servindo no 15º Regimento de Infantaria em depoimento:

“…Estava minha Companhia em instrução, quando recebemos ordens para suspender os exercícios e regressar ao quartel, lá mandaram os graduados e praças antigas para o alojamento, onde ficaram aguardando ordem para falar com o comandante da Companhia, quando chegou minha vez, entrei, o comandante olhou para mim e disse: Sargento Virgílio, recebi ordens de relacionar voluntários para a Força Expedicionária Brasileira, vou lhe fazer uma pergunta, você responda sim ou não: você deseja se voluntariar como voluntário para a FEB? Respondi sim! Após minha reposta, ele me mandou que saísse e não mais voltasse ao alojamento.”

A FEB não era constituída de homens que foram convocados aleatoriamente como ainda hoje se pensa; a FEB foi formada em sua grande maioria por voluntários que manifestaram seu desejo de lutar, mais evidentemente havia cargos que foram necessários convocações, como é o caso de funções especializadas que, infelizmente, foram preenchido por especialistas convocados. Outro ponto a se observar, eram as Inspeções de Saúde, realizadas por médicos americanos, que classificaram muitos dos soldados brasileiros como inaptos para serviços, tendo em vista os padrões americanos.

Todos esses percalços fortaleceram a imagem de uma Divisão de Guerra que nunca iria sair do país, inclusive com seus problemas sendo expostos constantemente pela impressa brasileira, sendo parte dessa propaganda negativa, ainda relacionada com pessoas que nutriam simpatia pelos alemães e italianos. Mesmo quando a Divisão Brasileira estava formada e em período de treinamento eram constantes cortes por inaptidões físicas e outros problemas de saúde, como bem cita o Coronel Adhemar Rivermar em sua obra Montese – Marco Glorioso de uma Trajetória:

“Lembro-me bem de certa manhã que, em vez de sairmos para a realização de uma marcha, seguida de tomada de contato com o inimigo, como estava programado, tivemos de permanecer em forma por várias horas, pois dezenas de dentistas civis, de ambos os sexos, lá estavam a fim de colaborar na verificação dentária da tropa, alvo de grandes preocupações por parte dos organizadores da FEB. Ainda em forma, depois de uma exame superficial, foram relacionados todos aqueles que tinham de ser prontamente atendidos. Durante vários dias de extrações e tratamentos diversos tornaram-se prioritários e baldes sem conta encheram-se de dentes careados, sendo que muitos deles, em outras condições, teriam sido restaurados”.

No final das contas essa tropa com soldados relativamente desnutridos, desacreditado e mal equipado, chegou a Itália sobre o bastião da desconfiança de seus comandantes americanos, mas nas adversidades os brasileiros se mostraram um tropa corajosa e foram, ao poucos, conquistando a confiança dos mesmos comandantes que viram a força e a coragem dos soldados brasileiros tomarem Camaiore, S. Maria Villiana, Monte Prano, Fornacci, Galicano, Barga, San Quirino, Monte Cavalloro, Monte Castelo, Castelnuovo, Montese, Paravento, Collecchio, Riverla, Zocca, Formigine, Castelvetro e Monte Maiolo. Capturaram 2 Oficiais Generais, 892 Oficiais, 19.689 praças, 80 canhões, 5000 viaturas e 4000 cavalos. O que mais podemos dizer dessa tropa?

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  1. washington jadum de campos
    27/12/2011 às 4:45 PM

    Miranda veja só como a arrogância dos Americanos, quebraram a cara quando a aviação e os pracinhas demonstraram capacidade em combate, medo, muitos tem em todas as tropas envolvidas, só faltou um pequeno detalhe que meu pai e tio me falaram era que os nossos herois deveriam ter avançado e chegado nos principais cenários, Paris e na campanha até chegado na Alemanha e fincado pé por lá, muita precipitações de falta de logistica de nossos Comandantes, os louros ficaram para os criminosos americanos, pois, os sulamericanos (brasileiros) não deveriam ver o que fizeram com os derrotados, então seríamos muito mais respeitados, parabens, excelente documentário.

  2. Bastelha
    29/12/2011 às 7:39 AM

    Infelizmente, depreciar o Brasil e os Brasileiros, não parte sempre de estrangeiros, mas sim dos próprios Brasileiros e isso acorre com muita frequência ainda hoje, apesar de todos os avanços, tudo que é pior acontece aqui.

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