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O Ponto Mais Avançado das Linhas Brasileiras no Carnaval de 45.


É sábado, véspera de carnaval, e a voz do Major Henrique Oest chega do outro lado do telefone de campanha.
– Venha. A coisa está divertida. Esperamos você para almoçar.

A chuva rala que caiu durante toda a noite e transformou o cominho branco de ontem numa estrada de lama fofa é agora um aguaceiro pelado. Lembro-me das trovoadas no Nordeste, mas o pracinha de São Borja, que guia um jipe, me diz que as chuvas no Rio Grande não são como estas aqui na Itália.
– Lá é uma chuva limpa, a gente vê as coisas através dela. Aqui tudo fica escuro, como se estivesse caindo do céu água suja.

O Posto de Comando do Major Oest está exatamente a 17 quilômetros do nosso QG Avançado. É a posição brasileira mais próxima das linhas inimigas – um nariz pontudo que se intromete pelas linhas alemãs. “Um nariz cheirando as barbas nazistas”, como me explica, apontando no mapa, o tenente Turvo.

Neve e gelo são inconveniências que dentro em pouco deixarão de exisitir. As pequenas cascatas que descem dos Apeninos , e que o duro inverno havia cristalizado, começam a se dissolver e algumas já caem livres, de uma água extremamente clara, como linfas. O comaço do fim do inverno, com suas chuvas diárias que prenunciam a chegada da primavera, cobre agora tudo de uma lama grossa e escura que é o terro (e o martírio) das viaturas, que nela se atolam. Neve, agora, somente nas cristas mais elevadas das montanhas.

– Mas o inverno ainda não acabou. De uma hora para outra pode acontecer uma nevasca repentina. Acontece sempre.

Quem me diz isto é o paisano que, no meio da estrada, o jipe ia atropelando, a fumaceira artificial tirou-nos toda a visibilidade; e de minuto em minuto, como um contochão, repete-se a melopeia da guerra: os tiros da Artilharia brasileira, que rebentam próximos, e a resposta dos alemães, que respondem de suas posições já nos cumes. Os obuses dos artilheiros da FEB passam assoviando sobre nossas cabeças, e talvez não seja bem um assovio – é mais um gemido doloroso, como um grito de alguém se torcendo de dor. Conto mentalmente os segundos, e a granada explode 100 ou 200 metros além, em meio aos pequenos agrupamentos de casas de camponeses, cercadas de seus cones de feno, agora quase todas duramente atingidas pelos projéteis, nossos e deles. Pela décima ou vigésima vez ouço a advertência do PM (Polícia Militar), uma voz de paulista do interior que me chega do outro lado da barreira de fumaça:

– Os tedescos estão craqueando o caminho. Acho bom o senhor ainda depressa

Craquear é um verbo novo por aqui na frente brasileira significa algo de perigoso e incômodo: quer dizer que os alemães (ou “tedescos”, como preferem dizer os pracinhas, que já vão engrolando o seu italiano) estão castigando o caminho com obuses de canhão e granadas de morteiros, visando qualquer viatura ou comboio de abastecimento que passe por ali; ou, então, a ponte improvisada que, sobre o estreito riacho, liga as linhas avançadas à retaguarda. Mais adiante, outro PM nos previne que nosso jipe está muito próximo dos grandes caminhões que seguem à frente: “É bom manter distância. Ajuntamento pode chamar a atenção dos tedescos.” Paramos por alguns minutos, enquanto as pesadas viaturas se adiantam lá na frente. Uma granada explodiu na grama já livre da neve, bem lá na frente do pequeno e estreito vale. Um partigiano se aproxima do jipe e nos pede cigarro. É um rapaz corado e forte, metido numa roupa azul, com eu fuzil-metralhadora dependo de uma correia que ele traz no ombro direito. Pergunta para onde vamos. Responde e ele, sem pedir licença, pula para o banco de trás do jipe. Irá conosco.

Quando corremos 13 quilômetros e agora temos que deixar a estrada principal. O jipe sobre a encosta elameada aos solavancos, derrapando na lama, ameaçando atolar-se nela. O partigiano nos deis uns 500 metros antes do nosso destino, e já passa das 10 da manhã quando chegamos ao PC do Major Oest.

Ele agora traz um bigode que cai em pontas e parece ter engordado alguns quilos – ou então é o pesado uniforme (ou as várias camadas dele) que o faz assim, mais largo e mais troncudo. Leva-me por um braço para a pequena sala do andar térreo, na casa contadina, onde está reunida a sua oficialidade. E é nesta sala que escrevo agora, nesta véspera de carnaval. As paredes estão cobertas de mapas, pin-up girls e páginas de revista O Cruzeiro com história do Amigo da Onça. Há também um grande mapa da Europa, com a frente oriental toda riscada de linhas vermelhas e azuis. As setas brancas indicam avanços soviéticos: Zhukov vem por aqui, Cherniakovsky por ali.
– Você ficará por aqui alguns dias. E não adianta reclamar. Já mandei seu jipe de volta.
Não adianta reclamar: a partir de agora sou um homem isolado do mundo, preso neste PC avançadíssimo, e só sairei na próxima quarta-feira.
– Trouxe cama-rola?
– Não.
– Não há de ser nada. A gente arranja umas mantas.
Fica então acertado o seguinte programa a seu respeito: trabalharei aqui no “coração da frente”, que é o nome que deram a esta sala fumacenta e abafada, me explicam . Farei as refeições no PC da 6ª Companhia, que o cozinheiro de lá é melhor. À noite me acomodarão num dos quartos onde a Companhia tem sua sede e partilharei, ali, o reduzido espaço onde já estão aboletados o Segundo-Tenente Médico Hélio Reis Leal, de São Paulo, dois padioleiros, dois sargentos, o paisano, Massino e sua filha Inez, uma moça risonha que não deve ter mais de 16 anos.

O Major Oest me leva até a janela do lado, um reduzido buraco aberto na compacta parede de pedra:
– Olhe já para baixo e veja o que eles fizeram ontem. Mas não fique muito tempo com o rosto exposto. Podem acertá-lo.
Diviso, lá em baixo, um número sem conta de crateras abertas no chão, como feridas negras, de mau aspecto.
– Nosso carnaval começou cedo. Os tedescos começaram a atirar no fim da tarde. Morteiros e metralhadoras. A parede lá de baixo está toda pipocada. Mas em compensação não demos colher de chá. Mandamos confete que não acabava mais.
Depois o major me leva até o Capitão Joaquim da Rosa Cruz:
– Tome conta do Correspondente e o conduza até os foxholes lá em cima.
E virou-se para mim:
– Se tiver sorte poderá ver os alemães em cima das cristas.
Estamos os dois, eu e o capitão, a chapinhar sobre a lama.
– A guerra faz da gente um animal anfíbio – me diz ele. Me diz também que é de Porto Alegre, onde deixou esposa e filhos. Respondo que o carnaval do ano passado eu estava em Porto Alegre.
O Capitão responde:
– Eu também. Dançando no Clube Comercial.
Agora sou eu que digo:
– Eu também.
– Pois veja só que é a vida. Agora, neste carnaval de 45, estávamos novamente juntos. Será que estaremos no de 46?
Quem sabe? Se tal acontecer, certamente passaremos horas a comentar o instante de agora, falando deste carnaval de lama, granadas que explodem, das saudades que nos atormentam. O capitão murmura qualquer coisa que não escuto direito. Ele repete:
– Vamos fazer uma pausa para tomar folêgo, pois temos que subir até lá em cima, bem no cocuruto, onde estão os pracinhas. Vai ser uma dureza.
Respondo que guerra é guerra. Ele concorda:
– É
A última etapa é feroz: o caminho é quase vertical, de forma que para vencê-lo temos que nos segurar forte nas duas grossas cordas esticadas que, num arremedo de corrimão, descem lá do ponto mais alto. E sob nossas boras e lama tem a consistência de manteiga. Mas vamos lá.
O capitão ajeita o capacete de aço e pergunta:
– Pronto?
Depois me entrega uma das cordas, segura a outra, e lá vamos nós. A chuva continua a despencar, mas o field Jacket americano, de uma espessura blindada, e mais o esforço da subida não me deixam sentir frio. Nossas botas se enterram na lama além do tornozelo, às vezes derrapamos – e meu coração treme quando a encosta me parecer faltar aos pés. Lá embaixo, sei, é o abismo, encoberto pela fumaça.

Mas chegamos, finalmente. O capitão me explica:
– Somos aqui como uma espécie de península. Os alemães estão à nossa direita, em cima daquele morro que parece o perfil de uma mulher – está vendo? Estão também à nossa esquerda, naquela colina ali. De suas privilegiadas posições eles podem facilmente nos visar com seus morteiros e metralhadoras, mas a verdade é que nossa capacidade de fogo é maior. Não deixamos sem resposta um só tiro deles.
Aponta para um caminho estreito, do outro lado da terra de ninguém:
– Aquela estrada é vital para eles. Todas as noites eles têm que passar por ali suas viaturas, com víveres e munições. É aí que nós entramos.
Um sargento aparece, barba de dias (ou de meses), pergunta:
– É o Capitão?
– Sou eu, sim. Estou aqui com o Correspondente.
Vencemos os últimos metros e aqui estamos nas posições deste que é sem dúvida o mais ingrato setor de toda a frente brasileira, defendido pelo 6º Regimento de Infantaria. O Sargento Zózimo de Almeida, de Jacareí, São Paulo, entretém um diálogo com o capitão.
– Voltaram? – pergunta o capitão.
– Voltaram. Mas nós carregamos em cima deles.
– E a torre?
– Hoje de manhã foi alvejada com metralhadoras. Mas nós respondemos logo.
– Alguém ferido?
– De gravidade, nenhum. E dois foxholes afundaram na lama, ontem à noite. Mas já estamos cavando outros.
– À nossa retaguarda se enfileiram uma dezena de trincheiras individuais – os foxholes – e lá em cima, no ponto mais elevado do morro, há uma outra fila irregular. São simples buracos cavados no chão e que abrigam o pracinha e sua metralhadora. Há revezamento de tanta em tantas horas – os homens lá e cima trocam de posição com os homens de baixo, numa permuta que se repete durante o dia e à noite.

Lá nos foxholes mais altos – limite extremo de nossas posições em todo o setor apenino – encontramos, barba crescida, cabelos emaranhados e sobrando no capacete, pés metidos na lama, os soldados brasileiros que no momento mais próximos se encontram na linha de frente alemã. São pracinhas que neste fim de inverno vêm realizando um trabalho penoso de toda a frente defendida pela FEB. Muitos deles não tomam um banho de verdade há mais de um mês – e o sonho de todos, o imediato, é a possibilidade de passar um ou dois dias, ou mesmo apenas algumas horas, no QG Avançado do General Mascarenhas, em Porreta-Terme, situado noutro fundo de vale, a uns 30 quilômetros daqui.

Agora vamos fala da “casa dos pombos”
– Ela não é nossa nem deles – me explica o capitão. – Ou melhor, é nossa e é deles.
Ergo um pouco a cabeça, apenas uns cinco centímetros além do foxhole, e vejo-a lá embaixo, plantada no centro de vale, com o seu andar de cima deformado pelso obuses – nossos e deles. Pombos alvos como a neve passeiam tranquilos pelos escombros, beliscam aqui e ali, vão e voltam revoltados.
–  Aquela é uma casa como que à margem da guerra. Quando os tedescos querem melhorar a bóia, organizam patrulhas noturnas com o objetivo de apanhar alguns perus e galinhas que lá se encontram, às dúzias. Nós, então, contra-atacamos. Já aconteceu até que duas patrulhas, uma nossa e outra dele, encontraram-se no meio do caminho, a apenas alguns metros da casa, que continua habitada: um casal de velhos e duas mulheres, talvez viúvas. Nessa noite não se resolveu coisa nenhuma.
– O sargento Zózimo interrompe para informar que não há mais galinhas nem perus, e que os alemães agora estão caçando os pombos:
– Eles em cima dos pombos e nós em cima deles.
Voltamos pelo mesmo caminho – e a descida se torna ainda mais perigosa, como escorregar sem defesa por um tobogã. De volta, enquanto tiro penosamente as bota enlameadas, no terreiro do PC, lembro-me mais uma vez que hoje é sábado, véspera de carnaval. “Uma ano atrás eu estava em Porto Alegre e à noite dancei no Clube Comercial”, penso. E parece que escuto a voz do Capitão Rosa dizer: “Eu também”.

Fonte: Joel Silveira/Thassilo Mitke – A Luta dos Pracinhas – A FEB 50 anos depois – Uma visão diferente.

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