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A Reintegração Social dos Ex-Combatentes da FEB – Parte VI


CONTINUACAO

 

1.2 Partida rumo ao desconhecido: A FEB chega a Europa

 

Todo contexto que originou a Força Expedicionária não foi o mais favorável. Vários interesses e dificuldades permearam essa constituição do efetivo. O Estado, mal organizado e despreparado, permitia que um grande número de falhas fosse ocorrendo no transcorrer desse período de mobilização. Desorganização essa, que não possibilitou que as instituições pensassem na tropa expedicionária como um processo que teria seu início e, também, haveria um possível fim, como ocorreu. A falta de mecanismos definidos convergiu para dificuldades de grandes proporções no momento em que os ex-expedicionários retornariam ao convívio social.

Mesmo diante das grandes dificuldades que se apresentaram para a Força Expedicionária Brasileira, o primeiro escalão, compondo o 6º Regimento de Infantaria e alguns grupos de apoio, partiu para a Itália. A partida não tinha dia certo nem hora marcada. Essa estratégia era utilizada com o objetivo de dificultar o vazamento de informações que poderiam ocorrer e colocar em risco a segurança do transporte, pois se os alemães soubessem dos detalhes, os expedicionários poderiam não chegar ao seu destino, conforme explica, em depoimento abaixo, o ex-combatente da FEB, Ítalo Conti.

Nós estávamos nos preparando no Rio de Janeiro, sempre orientados pelos norte-americanos e num determinado dia o comandante nos alertou, quem tiver família aqui mande embora, que a hora está chegando. Num determinado instante, em 24 horas foi determinado que nós iríamos para o navio, fomos, entramos no navio, cada um sabia pra onde deveria ir e o lugar a ocupar. Embarcamos, havia uma disciplina rigorosa, não se podia jogar nada no mar, nem uma bituca de cigarro, o que nos dava medo era a situação do navio ser atacado. Quando soava o alarme saia todo mundo correndo, quando chegávamos nas posições, mandavam retornar, pois era só treinamento. Isso por 12 dias, depois chegamos à Itália e de lá fomos para Livorno.[1]

Grandes obstáculos haviam sido enfrentados. Havia uma longa caminhada ainda e outras estariam por vir logo à frente, pois a própria viagem passaria a representar um tormento, já que havia uma constância de treinamentos exaustivos no navio, como visto também em depoimento de Ítalo Conti. Todos os procedimentos executados tinham como única finalidade a segurança da tripulação.

Um fator que implicava muito no moral daqueles que estavam partindo era o próprio descrédito quanto à participação na guerra, pois estavam cientes do despreparo e da desorganização, fatos, aliás, muito evidentes e que não podiam ser encobertos. Como explicado pelo ex-combatente Demócrito Cavalcante de Arruda[2]: “A F.E.B. não foi só uma contribuição modesta, foi, também “mal organizada””.

Essas características negativas refletiam na própria opinião da sociedade, a qual comentava de que a Força Expedicionária estava indo somente pra cumprir acordos. Assim, mostra a ex-enfermeira FEB, Virginia Leite[3]: “Olha, eu ouvia os comentários, pois os brasileiros saíram daqui pra ser bucha de canhão […]”.

Além de todos os pontos negativos, ainda deveria existir a adaptação dos expedicionários ao navio. Essa situação provocava grandes distúrbios estomacais nos tripulantes, devido aos constantes enjôos. Além de adequar-se ao navio, ainda, deveriam acostumar-se com a rigidez dos horários, inclusive no que diz respeito à alimentação e diferença da mesma. Houve casos em que integrantes do contingente viajaram mais de 12 dias somente comendo frutas, como abordado em depoimento pelo ex-combatente Aristides Saldanha Verges[4]:

No dia 24 de junho de 1944, nesta noite já embarcou um batalhão nos trens, deslocando para o porto e nós embarcamos no dia 30 de junho, lá pelas 11h00min, entramos no navio, era o “General Man”. Ficamos em torno de dois dias dentro do navio parado, no terceiro dia o navio começou a se mexer e soou um apito, estávamos partindo. Uma hora depois, quando foi autorizada a nossa subida para o convés, vimos a cidade já bem distante, mas também não sabia para onde nós íamos. O primeiro escalão foi assim, imaginávamos que poderia estar indo para África, devido ao clima ser semelhante. Depois de uns 12 dias de viagem, na entrada do Mar Mediterrâneo, anunciaram que nós estávamos indo para a Itália. Depois de 12 dias ficamos sabendo o nosso destino. Na viagem eram duas refeições por dia, tive companheiros que passaram a base de duas maçãs e companheiros acabaram enfraquecendo, debilitados, a comida era diferente, tivemos que nos adaptar.

Além das dificuldades de adaptação, tiveram os componentes da FEB que contar com a pouca importância dada pelos próprios chefes militares quando estiveram em reconhecimento no continente africano ao Teatro de Operações, passando por constrangimentos desnecessários. Conforme explica o senhor Aristides Saldanha Verges[5]: “Dia 16 de julho de 1944, que desembarcamos em Nápoles, na Itália, os italianos falavam “tedesco, tedesco”, achando que nós éramos alemães, devido ao nosso uniforme ser muito parecido com a dos alemães, depois perceberam que se tratava de brasileiros”.

A abordagem acima é uma afirmação que vem a comprovar um grave erro cometido, uma vez que, depois de quase duas semanas a bordo de um navio-transporte, na chegada em Nápoles, os expedicionários foram, assim que desceram no porto, insultados pela população italiana. O motivo de tais agressões foi devido à farda ser muito semelhante à vestimenta utilizada pelos alemães e ainda de péssima qualidade. Os napolitanos acreditavam que se tratava de prisioneiros de guerra. Fato esclarecido logo depois, quando o efetivo já se encontrava em terra, como abordado por Joaquim Xavier da Silveira[6]:

O plano de uniforme para a FEB havia sido aprovado e regulamentado pelo decreto nº 15.100, de 20 de março de 1944. O documento detalhava os vários tipos de roupa, calçados e acessórios (luvas, cintos, distintivos e outros) para oficiais, graduados e praças, mas o material empregado na confecção foi de qualidade inferior. As roupas e uniformes lavados a bordo do navio-transporte, ou no acampamento da Itália, encolheram demasiadamente, e as cores não eram firmes. Foi um grande problema para o Alto Comando da FEB, acrescido de outro fator, de influência psicológica negativa: a cor verde-escura era semelhante à do uniforme alemão e só de perto, observando-se os distintivos e outras características, é que se podia fazer a diferença.

Houve uma preocupação em criarem-se diretrizes que regulamentavam os uniformes, como analisado acima. Porém, o que faltou foi uma preocupação com a cor e tipo de material utilizado na confecção dos mesmos, sendo que além de sua péssima qualidade, não eram apropriados para o clima gélido que seria enfrentado. Sendo assim, a Força Expedicionária Brasileira contou mesmo com seus homens, mas eles encontravam-se desprovidos de vestimentas apropriadas, sem equipamentos, sem uma doutrina própria de guerra e ainda sem armamentos.

Com o decorrer do tempo foi possível observar que se tratava de um efetivo flexível e adaptável, aliás, como precisou ser. A FEB ficou integrada dentro do 5º Exército Norte-Americano, que tinha como comandante o General norte-americano, Mark Clark, ao qual era subordinado o 4º Corpo de Exército, que estava sob o comando do General Grittenberger, conforme documento básico do Comando brasileiro que foi expedido em 12 de setembro de 1944, que fixava tais determinações e condições das atividades militares.

BIBLIOGRAFIA

BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB: memórias de um chefe do estado-maior na campanha da Itália. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

CASTELO BRANCO, Manuel Thomaz. O Brasil na II Grande Guerra. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1960. p. 139-140.

Demócrito Cavalcante de Arruda. Depoimentos de Oficiais da Reserva sobre a FEB. São Paulo: IPÊ – Instituto Progresso Editorial S.A., 1950.

FERRAZ, F. C. A. O Brasil na guerra: um estudo de memória escolar. Comunicação apresentada no IV Encontro Perspectiva do Ensino de História. Ouro Preto. Universidade Federal de Ouro Preto, 24 de abril de 2001. Anais da ANPOC.

MORAES. J. B. M. de. A FEB pelo seu comandante. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1947.

NASS, Sirlei de Fátima. Legião Paranaense do Expedicionário: indagações sobre a reintegração social dos febianos paranaenses (1943-1951). Dissertação – UFPR, 2005.

OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008.

RIBEIRO, P. da S. As batalhas da memória: uma história da memória dos ex-combatentes brasileiros. Niterói, 1999. Dissertação (Mestrado em História): Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense.

 

SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um soldado. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2001.

SALUM, A. O. Zé Carioca vai à Guerra. São Paulo, 1996. Dissertação (Mestrado em História) Pontifícia Universidade Católica.


[1] Ítalo Conti. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009.

[2] Depoimentos de Oficiais da Reserva sobre a FEB… op. cit. p. 48.

[3] Virginia Leite. Ex-enfermeira da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 09 de novembro de 2009, na cidade de Curitiba – PR. Natural da cidade de Irati – PR e descendente de família luso-brasileira. Foi a primeira voluntária do Estado do Paraná, participou do Corpo de Enfermeiras, órgão criado pela Cruz Vermelha. Esta, por sua vez, criou em várias cidades um curso de enfermagem para que o exército pudesse compor um corpo de saúde de enfermeiras. Ficou designada ao corpo de saúde da FEB, seguindo para África e, depois, partindo para Itália, desembarcado do avião em Nápoles, chegando depois do segundo escalão. Conta, atualmente, com 93 anos.

[4] Aristides Saldanha Verges. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009, na cidade de Curitiba – PR. Natural da cidade de Curitiba – PR. Incorporado em 01 de dezembro de 1943 no 23o BI. Em fins de março de 1944, foi designado para viajar, sendo transferido para a cidade do Rio de Janeiro, sendo incorporado ao 6o RI. A sede dele era em Caçapava, mas já estava deslocado para a cidade do Rio de Janeiro. Iniciaram treinamentos em diversos lugares na cidade, como preparação para a Guerra. Quando partiu, no primeiro escalão, pertenceu a Cia Cmdo do 3o batalhão, do 6o RI., tendo como chefe direto o Tenente Silvio Miscov e comandante do batalhão o Capitão Antonio Barcellos. Conta na atualidade com 88 anos.

[5] Aristides Saldanha Verges. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009 na cidade de Curitiba – PR

[6] SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um soldado… op. cit. p. 58.

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