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Archive for 28/02/2012

A Estação Antártica Comandante Ferraz e a Lição: Explicar a Palavra HERÓI para o país.

Nosso país nos últimos anos tem presenciado a vulgarização dessa honrosa palavra, HERÓI. Nós assistimos, estarrecidos, pessoas sem qualquer contribuição real pelo nosso país, pelo nosso povo, recebendo esse atributo em realitys shows televisivos que expressam apenas a mediocridade humana dos seus participantes. Também são desmerecidos os jogadores de futebol, artistas e cantores que não passam nenhum valor de fato para a sociedade, exceto exemplos torpes e vidas vazias, mas, que mesmo assim, são referências de “heroísmo” lardeado pela Mídia.

Infelizmente o Brasil teve uma dura lição da real utilização desse termo, vindo exatamente do lugar onde se forjam os verdadeiros Heróis, das Forças Armadas. A Marinha do Brasil tem entranhado em sua história, combatentes que deram sua vida em cumprimento da missão. Nosso país testemunhou dois casos de heroísmo que é uma AULA DO USO DO TERMO HERÓI, para que possamos, como nação, aprender que essa palavra deve ser usada estritamente nesses casos, onde um Filho brasileiro entrega sua vida gratuitamente para salvar outras, exercendo o papel para que foi formado.

Carlos Alberto Vieira Figueiredo e Roberto Lopes dos Santos colocam seus nomes no seio de nossa História, juntamente com Max Wolf e outros Heróis que morreram no cumprimento de sua missão. Devemos reverenciá-los agora e SEMPRE! Para que futuramente os jovens entendam o sacrifício desses militares, e as próximas gerações saibam o verdadeiro peso da palavra HERÓI e jamais a vulgarize novamente.

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 Carlos Alberto Vieira Figueiredo nasceu em Vitória da Conquista (BA) em 1964. Ele ingressou na Marinha em 1982 e, nos 30 anos de carreira, serviu em diversas unidades militares, como supervisor eletricista. Já Roberto Lopes dos Santos nasceu em Salvador (BA), em 1966, e ingressou na Força em 1985. Veterano no Programa Antártico Brasileiro, Santos já havia trabalhado em Comandante Ferraz em duas outras ocasiões, em 2001 e 2007.

HOMENAGEM DO BLOG CHICO MIRANDA AOS VERDADEIROS HERÓIS BRASILEIRO.

0 PRIMEIRO TIRO DA ARTILHARIA DA FEB

Mais uma contribuição a História do Brasil:

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Em 31 de agosto de 1942 o Brasil declarou a existência do estado de guerra com a Alemanha e a Itália. Nesse contexto, foi criado, em 1943, o 1º Regimento de Obuses Auto-Rebocado (1º ROAuR), composto por dois grupos de obuses a três baterias de 105mm cada.

O 2º Grupo de Obuses, (2º Grupo, do 1º Regimento de Obuses Auto-Rebocado – II/1º ROAuR), foi então formado com o pessoal e o material do 1º Grupo de Artilharia de Dorso – 1º GADo , aquartelado no Forte Nossa Senhora do Campinho. Em seguida, foi incorporado à Artilharia Divisionária da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária.

O Grupo, com 510 homens e comandado pelo Coronel Geraldo Da Camino, embarcou para a Itália no primeiro escalão, dia 1º de julho de 1944, sendo a primeira Unidade de artilharia brasileira a cruzar o Atlântico. A tropa, embarcada no transporte americano General William A. Mann chegou à Itália, mais especificamente na baía de Nápoles, no dia 16 de julho, sendo, em seguida, deslocada para a região de Livorno, precisamente em Vada, onde foi incorporada ao V Exército Norte-Americano. Nessa mesma região, a Unidade recebeu materiais novos, como material de comunicações, viaturas e obuseiros. Passou-se, assim, aos exercícios de reconhecimento, escolha e ocupação de posição e, por fim, ao treinamento do emprego conjugado do Grupamento Tático, composto pelo Grupo e pelo 6º Regimento de Infantaria, caracterizado como o último exercício antes de entrar em operação.

Em 12 de setembro, finalmente, o V Exército decidiu empregar o Escalão Avançado da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE) em linha de frente, como força diretamente subordinada ao Comando do IV Corpo de Exército.

O Grupo estava em apoio direto ao Destacamento do qual faziam parte o 6º Regimento de Infantaria (6º RI), um pelotão de carros americanos e um pelotão de reconhecimento brasileiro, que tinham por missão ocupar ou conquistar a linha Massarosa – Bozzano – Marti -La Certosa – Via del Pretino – Santo Stefano.

Na noite de 15 para 16 de setembro de 1944, o Grupo iniciou o deslocamento, em total escuridão, para ocupar posição nas encostas do Monte Bastione. Não realizou regulação de tiro para não denunciar a progressão do 6º RI, que estava substituindo tropas norte-americanas. A Unidade aguardou em posição durante toda a madrugada. O Comandante da 1ª Bateria de Obuses era o Capitão Mário Lobato Valle; o Comandante da Linha de Fogo, 1º Ten R/2 Alceu Grisolia e o Chefe da 2ª Peça (peça diretriz), Sargento Miguel Ferreira de Lima. Durante toda a manhã do dia 16, a Bateria, entre tensa e ansiosa, aguardava os primeiros comandos de tiro. Mesmo com muita dificuldade para determinar as posições do inimigo, o 2º Tenente Ramiro Moutinho enviou, do Posto de Observação em Torre di Nerone, sua mensagem de tiro e, às 14 horas, a Central de Tiro encaminhou o comando de tiro à Linha de Fogo.

Precisamente às 14 horas e 22 minutos foi lançado contra o inimigo nazista o primeiro tiro da artilharia brasileira fora do continente sul-americano, atingindo com precisão o objetivo previsto: Massarosa. Era o primeiro dos milhares de tiros disparados pela nossa Artilharia Expedicionária no Teatro de Operações da Itália.

Fig. 1 – Soldado Francisco de Paula

A foto do C3 (soldado carregador) Francisco de Paula, prestes a municiar o obuseiro 105mm com uma granada onde está escrito“A Cobra está Fumando”, foi estampada na capa de diversos jornais brasileiros, lhe rendendo a fama involuntária de ser o “autor” do primeiro tiro de artilharia da FEB. Mas a matéria transcrita nos jornais nacionais foi provavelmente mal traduzida da cobertura de uma equipe de reportagem norte-americana, criando um equívoco que durou muito tempo.

Num obuseiro 105mm, sob o comando de um sargento Chefe de Peça, os serventes cumprem missões específicas: o C1 (cabo apontador) realiza a pontaria em direção; o C2 (soldado atirador) registra a elevação e dispara a peça; o C3 (soldado carregador) municia o obuseiro, etc. O final desse processo resulta na ordem de FOGO! com o simultâneo e brusco puxão na corda do mecanismo de disparo, efetuado pelo C2.

Fig. 2 – Guarnição de artilharia da FEB. O soldado Francisco de Paula aparece ao fundo, o terceiro da esquerda para a direita, de frente para a foto, já ocupando a posição padrão do C3 – Sd carregador da peça

Em momento cercado de grande emoção, às 14 horas e 22 minutos do dia 16 de setembro de 1944, o Cabo Adão Rosa da Rocha, C2 (atirador) da 2ª peça, disparou contra o inimigo nazista, nos contrafortes dos Montes Apeninos, o primeiro tiro da Artilharia brasileira fora do continente sul-americano, atingindo com precisão o objetivo previsto, Massarosa.

O Grupo prosseguiu em combate até o final da guerra e participou ativamente das conquistas de Camaiore, Monte Prano, Fornacci, Monte Castelo, Monte Belvedere, Gorgolesco, Abetaia, La Serra, Belvedere, Monte della Torracia, Montese, Vignola e Levizzano. No total, foram cumpridas 2.995 missões de tiro e disparadas mais de 55.000 granadas. A nossa poderosa Artilharia fez a diferença na Itália.

Muitos dos que partiram com a Unidade não retornaram. Deram suas vidas à Pátria. Todos aqueles bravos merecem o nosso respeito e eterna gratidão.

* Pesquisa de Sérgio Pinto Monteiro. O autor é historiador e 2º Tenente R/2 de Artilharia. É presidente do Conselho Nacional de Oficiais R/2 do Brasil, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e autor do livro “O Resgate do Tenente Apollo” (Ed. CNOR, 2006)

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