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Eunucos da Segunda Guerra


Este relato foi extraído do Livro “E foi assim que a Cobra Fumou” da Major Elza Cansanção de Medeiros.

            Casos divertidos aconteceram em todos os setores de nossa gloriosa FEB e, quando as enfermeiras estavam indo para o Teatro de Operações da Itália, viajavam de acordo com a disponibilidade dos aviões que partiam do Rio de Janeiro.

            Do segundo grupo a deixar o Brasil, fazia parte a Srta. Lúcia Osório, mulher bonita e descontraída, de gênio alegre, desencanada e que nunca levou desaforo para casa. Quando ela chegou a Dacar, cansada da extenuante viagem, a primeira coisa que tratou de fazer foi tomar um banho refrescante.

            Como não tinham o posto de Oficial, ficaram alojadas com as moças da Cruz Vermelha que trabalhavam como assistentes sociais. Despreocupadamente, entrou no banheiro e começou a se deliciar com a água fresca, mas de repente, o sabonete caiu-lhe das mãos quando estava de costas para a porta do box e, abaixou-se para apanhá-lo, e deparou-se com uma mão preta que também estava tentando apanhar o objeto.

            Seu olhar apavorado seguiu a mão, subindo pelo braço forte e negro, até que surge um sorridente negro que lhe entregava muito solícito, o sabonete. Lúcia pôs-se a gritar e tratou logo de apanhar uma toalha e, o rapaz prestimosamente alcançou a mesma e ainda tentou envolvê-la em seu corpo, fazendo com que ela cada vez se desesperasse mais ainda.

            A esta altura, com todo o nervosismo além do inusitado da situação, esqueceu o inglês e o francês e, gritando em português para que o mesmo se retirasse de seu apartamento. O sorridente serviçal, abriu-lhe a porta do quarto, que ao ser passada foi batida com toda a força e trancada imediatamente.

            Ao aproximar-se da cama, outra surpresa! Suas roupas estavam perfeitamente arrumadas sobre ela, na ordem exata pela qual deveria ser vestida. Então, Lúcia arrumou-se apressadamente e tratou de sair correndo em desabalada carreira em direção ao comando da base, para protestar contra a falta de segurança, que havia possibilitado a entrada daquele intruso em seu aposento.

            O Coronel a recebeu, e ficou surpreso com a reação de sua hóspede. Depois de se inteirar da queixa, ele deu uma sonora gargalhada, o que aborreceu ainda mais a Srta. Lúcia.

–        Não se preocupe, pois não há nada de errado. Ele está lá para isso mesmo, sendo encarregado de atender às senhoras, não se preocupe, pois não representa nenhum perigo, é completamente inofensivo.

–        Como é que é inofensivo um brutamontes deste!

–        Calma, ele é realmente inofensivo, pois é um EUNUCO!

            Lúcia ficou pasma com a revelação. Em pleno século XX, ainda existiam eunucos?

–        Olhe Coronel , eunuco ou não, quando estiverem brasileiras por aqui, é melhor o Senhor tirá-los de lá, pois nós não estamos acostumadas com eunucos, e não os aceitamos, ainda mais um eunuco deste. Estou apavorada!

–        Mas Miss, ele está lá justamente para ajudá-las a lavar as costas, arrumar suas roupas, etc.

–        Pode deixar Coronel, brasileira não gosta que ninguém lhe lave as costas nem nenhuma parte do corpo. Deixe que fazemos isto sozinhas!

            Ao voltar ao alojamento, Lúcia trancou todas as portas e janelas.

            –  Eu hein, contou a Lúcia depois – sei lá se o outro que entrasse também era da mesma confraria? Eu é que não quis me arriscar…

 

 

Enfermeira Lúcia Osório

Artigo enviado pelo pesquisador Rigoberto Souza Júnior.

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