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A Vida do Artilheiro na Campanha da FEB


 Post em homenagem aos integrantes do 7º Grupo de Artilharia de Campanha – Regimento Olinda. Uma Unidade Militar que possui estreitos laços com o ímpeto que levou o Brasil a lutar nos campos de batalha da Itália.

——

Janeiro, 1945.

 

Encontramos no meio do caminho o General Cordeiro de Farias (comandante da Artilharia Divisionária), que está deixando crescer um bigode, e vamos a um Centro de Tiro. O Coronel Comandante de um Grupo de Obuses Auto-Rebocados nos acompanha até uma bateria.

 

Vamos visitar uma peça. O que vemos, no campo absolutamente branco, é um pequeno buraco negro: a entrada da barraca sob a qual está o canhão 105. A barraca, além de lona, ainda tem a rede de camuflagem do outono, e entre a lona e a rede já feno e galhos de pinheiros. Os ramos, sempre verdes do teto, dando um ar festivo ao interior. Mas por fora o inverno se encarrega de fazer a camuflagem: a neve cobre tudo. E quando ela se derrete costuma se infiltrar através de tudo e pingar lamentosamente sobre os homens que estão lá dentro.

 

O canhão está no meio da barraca, sempre muito limpo e bem tratado como um deus. Esse deus é servido por 10 homens. A um canto, a munição, com seu belo metal dourado. Ao lado, uma porta estreita, com um abrigo cujas paredes e tetos são de touras de pinheiro. Ali já dois telefones, uma cadeira, uma pequena mesa e cama para os 10 homens. Mas tudo isso num espaço muito reduzido; as camas são jiraus em estilo beliche; cinco jiraus duplos. A peça vital desse pequeno antro é o fogão aquecedor, cuja chaminé – agora verifico – sai discretamente um palmo fora da neve, lá fora. E há esta coisa importante: luz elétrica. Em resumo, o alojamento não é luxuoso, mas quente, e bem abrigado – e os soldados me dizem que ali, faça lá fora frio que quiser, dormem bem. Para comer, eles vão até o PC (Posto de Comando) da bateria – e me dizem todos que a comida é boa.

 

“Quase todos estão engordando aqui” – me diz o sargento Antão. Antão Vieira é de Tupaceretã, Rio Grande do Sul, e no seu grupo de homens há outro gaúcho, o soldado Marne Pereira Soares. Há um mineiro de Viçosa – Lauro Martins Correia – e um capixaba de São Mateus, Jorge Costa Machado. O cabo Benedito Martins é, como aquele homem do samba, de Niterói, e Newton Costa é de Petrópolis. Há dois baianos: Cícero Ferreira dos Santos, de Pilão Arcado, e um João que não estava presente no momento e todo mundo chama de João Baiano – e ninguém na hora lembrava o nome dele. Completam a dezena um carioca, Alberto Amar, e um fluminense, Grimaldo José do Patrocínio. Para dar um tiro não são necessários esses 10 homens. Bastam 4: um telefonista, um apontador, um atirador e um carregador.

 

Um canhão dá em média uns 40 tiros por dia – e no dia em que trabalhou mais deu 108 tiros. O Tenente Adélio Conti, que é o observador avançado e está ali no momento, me explica que a bateria (04 canhões) é comandada por um capitão – no caso o capitão Salomão Naslausuy; tem um tenente Aristides Simão, oficial de manutenção, ele, tenente Conti, observador avançado e um excendente, que é o segundo-tenente José da Mata Teixeira, que no momento está como observador avançado. Quem comanda os tiros é o comandante da linha de fogo, primeiro-tenente Aristides Simão. Ele diz pelo telefone ao sargento Antão:

                – “Só a primeira peça, explosivo meia dúzia instantânea. Vigilância esquerda um dois zero. Sítio 427. Por um. Alça 380.”

                Isso quer dizer mais ou menos o seguinte: que o projétil a ser usado deve ser explosivo – e não fumígeno. O “meia dúzia” quer dizer que deve ser usada a carga de projeção 6. Um projétil pode ser lançado com diferentes cargas, conforme a distância a que se destina. “Instantânea” quer dizer que a granada pe di tipo da que explode imediatamente quando toca o objetivo, e não antes, como as de “de tempo” (que explodem no ar e fazem uma chuva de estilhaços para matar pessoas), nem algum tempo depois, como a de “retardo”, que primeira penetra para depois explodir. “Vigilância” é a posição em que está o canhão, ou melhor, a direção em que ele está apontando. “Vigilância esquerda um dois zero”, indica que ele deve ser desviado para esquerda 120 milímetros. “Sítio 427” indica o objetivo; “por um” quer dizer simplesmente que deve ser dado apenas um tiro, e 380 é a alça a ser usada. O leitor entendido nessas coisa que desculpe a maneira pela qual as explico, pois estou me dirigindo no momento a leitores que suponho tão ignorantes no assunto como eu próprio.

 

Recendo essa ordem do Tenente Aristides, o sargento Antão as anota e as transmite imediatamente aos seus homens. Em alguns segundos eles regulam tudo, e então o sargento diz ao telefone:

– Antão, Pronto! Depois ouve a voz do tenente:      

– Atenção…(que transmite aos soldados):

– Atenção!

– Fogo!

E assim o “Terror” – é este o nome que deram ao canhão – manda saudações às linhas alemãs.

O canhão deve estar preparado para fazer um tiro a qualquer momento que for ordenado, e fazê-lo em poucos segundos. Isso quer dizer que deve haver sempre 04 daqueles 10 homens acordados. Os soldados me disseram que preferem o sistema de cada turma trabalhar 24 horas e descansar 24 horas.

A vida dos 10 homens e 01 canhão não é na verdade, muito divertida. A barraca, a peça, e lá fora neve e nada mais. Esses homens são do segundo escalão: estão na linha de fogo desde 24 de novembro. Duas vezes por semana podem ir tomar banho de banheira quente na localidade mais próxima, é este passeio com que podem contar. Mas é rápido – e além disso durante algum tempo os banhos foram limitados a 01 por semana, porque o tal lugarejo estava sendo demasiadamente bombardeado pelos alemães […].

Deixo o pessoal entregue ao orgulho de sua instalação e vou-me embora. Nosso jipe enfrenta um pequeno turbilhão de flocos de neve, e durante toda a viagem as rajadas oblíquas o atravessam. No alto da serra encontramos o mesmo vento furioso de sempre e depois de um atraso de meia hora, na estrada atravancada pelos carros limpadores de neve. Mas poder rodar pela estrada a qualquer momento é um alto privilégio. Ficar meses em um canhão e dois telefones – esta é a rude disciplina do artilheiro.

Fonte:  Crônicas de Guerra – Rubem Braga

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  1. 14/10/2012 às 6:20 PM

    Gostei muito desse post !
    Muito difícil ver como é a vida e a operação do pessoal da artilharia, de todas as literaturas que pude ler da FEB essa é a primeira do tipo !

  2. Cel Lima Gil
    14/10/2012 às 6:44 PM

    Parabéns Chico,
    é sempre uma satisfação ler um texto a respeito da nossa Artilharia na FEB, e esse foi muito bem escolhido pois faz referência ao dia-a-dia da Linha de Fogo que é o coração do GAC.
    Forte abraço e lembrança aos amigos pernambucanos.
    Cel Lima Gil

  3. Cabo Japiassú - 4o BPE - Olinda-PE
    15/10/2012 às 9:32 AM

    Parabéns pelo BLOG e pela matéria sobre o GAC.
    Pátria!

  4. Josué Custódio
    17/10/2012 às 10:18 AM

    Mestre Chico, parabéns pela postagem! Muito interessante a narrativa do Rubem Braga, que sempre nos coloca como se estivéssemos naquele local e naquele momento. É muito bom! Lembrança dos velhos tempos! Parabéns mesmo!

    SD 442 Custódio – Bia Cmdo – 7º GAC – Turma de 2000.

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