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Archive for 04/01/2013

Rússia, 1941. Uma Guerra Sem Louros – Parte V

PARTE 5

As condições físicas iam ao encontro dos rigores da campanha. Soldados acostumados aos alojamentos bem equipados na Alemanha ficavam cada vez mais deprimidos com a continuação das operações que superavam a duração e os desconfortos de todas as campanhas anteriores juntas. Um soldado escreveu: “Essas planícies imensas, enormes florestas com alguns barracos aqui e ali, tudo causa uma impressão desoladora.” Era tudo “desinteressante ao olho” com “cabanas de madeira com um aspecto melancólico, florestas e pântanos.” Ele continua: “Tudo parecia estar perdido nessas extensões infindáveis.”

Da mesma maneira que os avanços continuavam, também continuavam os receios. “Se orientar na Rússia é tão difícil quanto no deserto” lembra um soldado. “Se você não olhar para o horizonte – você está perdido.” Outro comentou:

“O imenso espaço era tão vasto que muitos soldados ficaram melancólicos. Vales planos, pequenas colinas – vales planos, pequenas colinas, intermináveis, intermináveis. Não havia limite. Nós não conseguíamos ver um fim e era tudo tão desolador.”

“Onde será que essa guerra sem fim irá nos levar?” perguntou Günther Von Soheven de 33 anos, lutando no fronte Sul.

“Não há nenhum objetivo identificável em termos de espaço através desses campos que se estendem cada vez mais longe. Mais deprimente é o inimigo que se torna cada vez mais numeroso mesmo depois de termos feito enormes sacrifícios.”

Os soldados começavam a sentir saudades de casa. “As distâncias crescem incomensuravelmente,” concluiu van Soheven “mas nossos corações se mantém próximos.”

Porém, a determinação em terminar logo a guerra era igualada pela insistência russa em continuar lutando. Não era difícil desumanizar um inimigo em uma terra estranha e que, longe de qualquer razão lógica, preferia resistir fanaticamente apesar de sua derrota certa. A propaganda nacional socialista disseminou a falsa semente que encontrou guarida nas mentes receptivas dos soldados já expostos às doutrinas racistas. O Unteroffizier Wilhelm Prüller, um soldado de infantaria da 9º Divisão, escreveu em 4 de julho: “nós ouvimos as coisas mais terríveis sobre o que os russos estão fazendo com os prisioneiros (alemães).” A 8ª Companhia do seu 11º Regimento Schütze foi seriamente castigada em uma emboscada russa e perdeu 80 homens. “Os Kameraden feridos receberam um tratamento pelos canos das armas russas até que estivessem todos mortos.” Os comentários anti-semitas de Prüller despersonalizaram o inimigo. Tal qual vários soldados alemães, ele ficou surpreso em encontrar mulheres russas de uniforme. Dentro de um bolsão de resistência russa ele se deparou com “mulheres, completamente nuas e carbonizadas” que “estavam deitadas sobre ou ao lado de um tanque (soviético destruído). Horrível.” Ele conclui indignado: “Aqui nós não estamos lutando contra seres humanos, mas contra animais.” Da mesma maneira, os soldados americanos desumanizaram os seus adversários japoneses no Teatro do Pacífico e, mais tarde, os vietcongs no Vietnã nas décadas de 1960 e 1970; ou seja, essa é uma reação não necessariamente vinculada às sociedades puramente totalitárias. Prüller mais adiante observa: “entre os mortos russos há vários rostos asiáticos os quais tem uma aparência nojenta com aqueles olhos puxados.” Ele tinha ficado impressionado com toda aquela situação estranha. Em um parque na cidade de Kirovograd, alguns soldados se banhavam em um pequeno lago. “É curioso ver, bem à nossa frente, mulheres russas tirando a roupa sem vergonha alguma e caminhando peladas.” Ele continua: “Algumas delas até que valem a pena, especialmente com relação aos seios (…) A maioria de nós teria vontade de… mas então você repara nas mais sujas e te dá vontade de vomitar. Não há moral nenhuma por aqui! Revoltante!”

C O N T I N U A

Tradução: AReguenet

Segunda Guerra Mundial: Perguntas Complicadas & Suas Respostas!

Esse BLOG, desde o momento que decidi enveredar para sua construção, tinha em mente que deveria expor a Segunda Guerra Mundial sem a estupidez da explicação pelo prisma ideológico, digo estupidez não com a arrogância de ser o dono da verdade, pelo contrário, mas tendo como objetivo expor apenas o FATO, despido das interpretações pessoais para embasar uma ou outra corrente de interpretação dos acontecimentos, ou seja, defender apenas aquilo que tem embasamento histórico, independente se esse Fato exalta um Derrotado do conflito e diminui um Vencedor, ou vice-versa.

Contudo, sempre sou inquirido sobre determinados acontecimentos que  exige uma posição. Ou pelo menos, exige argumentos que possam agradar uma ou outra interpretação. Por exemplo, Os Bombardeios Aliados sobre as cidades alemães foram crimes de guerra? É possível negar o Holocausto, ou pelo menos diminuí-lo em números? E os bons resultados do Nacional Socialismo no pré-guerra, são sustentáveis? Todas essas perguntas exigem argumentos prós e contra, mas, como diria uma dos maiores medievalistas do século XX, Edward Carr: “Cabe ao Historiador trazer à luz os argumentos que ele entende sejam necessários para a compreensão do Fato Histórico”. Portanto, o Historiador possui na sua raiz profissional a obrigação de expor para seus contemporâneos todos os argumentos necessários ao entendimento do fato, e, pode sim, ser uma visão diferente da VERSÃO OFICIAL.

Bem, então resolvi postar perguntas que são enviadas para mim, que geralmente, respondo por email.

Se você quiser pode enviar perguntas para: blogchicomiranda@gmail.com

Terei o maio prazer em responder, pelo menos tentar!

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Vamos começar pelas perguntas enviadas por Paulo Roberto de Oliveira:

Francisco com sempre seus artigos são sensacionais!! Parabéns mais uma vez, agora me diga lá, veja se pode me ajudar…tenho algumas dúvidas há anos:

Pode ser que eu esteja desatualizado, se for caso desculpe-me.

1-Qual foi a área em Km2 em que se desenvolveu a Segunda Guerra (Europa e Africa do Norte) ou seja o palco das invasões da Alemanha Nazista?

Chico Miranda – Eduardo, levando em consideração o Teatro de Operações da Europa que, a depender do estágio da guerra, se subdividiu em vários outros teatros de operações, portanto, se pensarmos em fase, por exemplo: “A Guerra de Mentira”, que iniciou com a invasão da Polônia em setembro de 1939 até o início da ofensiva contra os Países Baixos em maio do ano seguinte, sem levar em consideração os países que foram “anexados” ideologicamente por Hitler. Só nesse quadro temos boa parte do território europeu.

Com o fim da “Guerra de Mentira”, teve iniciou a Campanha contra a França e a ofensiva aérea contra a Grã-Bretanha, aumentou a extensão geográfica das ações. Sem falar na Batalha do Atlântico, sendo o mais atuante o Norte e o de menor importância o Atlântico Sul, pois é exigível considerar a perda de 30 mil alemães que morreram em ação nas operações de UBoot nos oceanos.

Sem contar com as Tropas de Ocupação, para cada país invadido havia tropas de choque, significativo contingente administrativo e governos militares instituídos.

Para os dois Teatros citados na pergunta, há vários fatores além da extensão territorial que podem torna a resposta, meramente por quilômetros quadrados, ainda mais imprecisa.

Para ajudar no entendimento, em termos militares, são importantes três concepções. A primeira é o tamanho da Linha Ofensiva que um determinado Exército irá atuar, falo da Linha Ofensiva, já que creio que o seu foco é a atuação da Alemanha que esteve inicialmente nesta condição. A extensão dessa Linha é um dos principais fatores que determina o tamanho da Força Invasora, no caso da Invasão a Polônia, por exemplo, foram empregadas cerca de 53 Divisões alemãs, baseada na extensão territorial e na força do Exército polonês. O segundo fator para um plano de invasão, que é o tamanho da penetração territorial, ou seja, a extensão de deslocamento das tropas dentro do território ocupado e sua estimativa de avanço, que determina o terceiro parâmetro, o planejamento da Linha de Suprimentos, necessários para manutenção das Unidades Combatentes na Linha de Frente. Todos esses fatores são determinantes para um Teatro de Guerra e podem sofrer variação no decorrer da Campanha. Portanto a extensão em quilômetros quadrados, como já disse anteriormente, pode ser uma dado irreal.

Para tentar explicar melhor o argumento vamos ver algumas observações desses teatros de operações.

Na Operação Barbarossa os três grandes Exércitos, Norte, Centro e Sul, tinham missões específicas para invasão de cidades estratégicas. Esses Exércitos foram formados e dotados de arsenal bélico, levando em consideração o poder do Exército Vermelho (subestimado?) e a extensão territorial, não das fronteiras da União Soviética que iria atuar a Wermarcht, mas a soma das Linhas das operações de ocupação desses Exércitos. Como a guerra com a URSS se prolongou, as Linhas de Suprimento ficavam cada vez mais vulneráveis, pois dependiam de transporte férreo ou grandes deslocamentos de comboios de veículos ou de tração animal, suscetíveis ao conhecimento do inimigo, portanto a ataques terrestres e aéreos de uma Força Aérea cambaleante, mas ainda atuante.

Acrescento isso a dois outros fatores, a saber:

1. Indecisão na estratégia final da Ofensiva – Hitler resolve não mais entrar em Moscou e se dirige ao Cáucaso. Acertada ou não, mas toda uma logística inicialmente planejada teve que ser alterada. O moral da tropa, que já lutava havia meses, realizando exaustivos deslocamentos diários,  com objetivos traçados e quando estava há alguns quilômetros do desses objetivos, tiveram que iniciar um novo deslocamento para o oriente.

2. Linha de Manutenção – citado por ninguém menos que Guderian. Nas ofensivas de 1940 contra a França, as Linha de Manutenção seguiam mais próximas das Linhas Ofensivas, o resultado disso é que viaturas e equipamentos bélicos poderiam parar, seja pela ação do inimigo, seja por defeito, e o conserto era realizado logo atrás das linhas e, estaria em condições de combate pouco tempo depois. Na campanha russa não houve a preocupação de manter essa Linha de Manutenção, fato que foi apontado por Guderian como um dos fatores para a derrota da Alemanha nesta Campanha.

 Quando se trata do Teatro de Operações da África, que ocorreram em cinco territórios na África do Norte: desertos da líbia e egípcio, Marrocos, Argélia e Tunísia. Inicialmente Rommel tinha uma missão específica, dominar Gibraltrar e Suez e avançar para o Cáucaso, ou seja, uma Linha Ofensiva definida. Mas a partir de 1942 os ingleses, com a ajuda dos americanos, conseguem impedir Rommel. A Raposa do Deserto e o Montgomery  passam um período lutando nos desertos entre ofensivas e contra-ofensivas, ou seja, o mesmo território foi conquistado e perdido mais de uma vez pelos Exércitos. Portanto, a extensão territorial das Operações não se limita apenas a extensão territorial das regiões geográficas que serviram de cenários das batalhas.

2-Porque só se comenta que os soldados alemães ficavam “atordoados” com a tal distancia Berlim-Moscou ( pouco mais de 2.000 km) não é isso? Bem como com a “vastidão” do tamanho da area sovietica anexada?

Para essa sua pergunta, vou colocar o link que, no me entendimento, contém a resposta:

O que Esperava o Soldado alemão na Campanha Russa?

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TODOS estão convidados a corrigir e/ou acrescentar a essa modesta argumentação

 Posteriormente publicarei as demais perguntas e respostas.

Madrugada de 22 de junho. Cruzando a fronteira da União Soviética

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