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Respondendo Sobre Monte Castelo!


Maurício Sievers, Veterano do Batalhão de Polícia do Exército de Brasília e membro do Conselho Nacional dos Veteranos da Polícia do Exército do Brasil (CONAVEPE), enviou-nos questionamentos sobre a atuação da Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE), durante os fracassados ataques contra Monte Castelo em novembro e dezembro de 1944, que deixou uma centenas brasileiros mortos e feridos e estacionou o avanço Aliado na conquista do Vale do Pó.  Eis os questionamentos:

“[…]Gostaria de saber do nobre amigo, […] em especial sobre as várias tentativas fracassadas da TOMADA DE MONTE CASTELO, que além do Terreno íngreme, Tiros, Lama, Frio, Bombardeios, o Medo corroendo o estômago e a presença constante da morte, foram alguns dos detalhes que rondaram as mentes e corpos dos bravos heróis, também podemos dizer que as FALHAS ESTRATÉGICAS devem-se a INEXPERIÊNCIA e a falta de HABILIDADE do General Zenóbio da Costa e de todos os seus comandados, foram responsáveis pelo tombamento de tantos homens naquela missão? É mito ou verdade que os Americanos responsabilizaram unicamente o General Zenóbio pelas incursões fracassadas a Tomada de Monte Castelo?” –

Primeiramente, para efeito de conhecimento, o Marechal Zenóbio da Costa é o idealizador da Polícia do Exército no pós-guerra no Brasil, portanto mais do que justo discorrer sobre a pessoa do Zenóbio da Costa no ápice de sua carreira militar, que é sua atuação como Comandante da Infantaria Divisionária brasileira no Teatro de Operações do Mediterrâneo.

Tomando como base os questionamentos, evidenciamos duas linhas de argumentação. A primeira é o fato de haver FALHAS ESTRATÉGIAS e que, estas falhas, recaem pela falta de experiência do comandante da Infantaria Divisionária e seus soldados. E o segundo, é que os americanos imputaram a culpa no próprio Zenóbio da Costa.

Na abordagem da primeira visão, tomaremos o conhecimento sobre a hierarquia que acompanhava a Força Expedicionária Brasileira na Itália. Segundo o Marechal Lima Brayner, então Chefe do Estado Maior da Divisão Brasileira, em 01 de agosto de 1944, “A 1ª Divisão Brasileira foi realmente incorporado ao 5º Exército do IV Corpo de Exército Americano”.

A 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, comandado pelo General de Divisão Mascarenhas de Morais, era formada pelo QG da 1ª DIE, Estado Maior Divisionário (1ª, 2ª, 3ª, 4ª Seção e, claro Chefia), Estado Maior Especial, Tropa Especial (onde está incorporada o Pelotão de Polícia, comandada pelo 1º Tenente R/2 José Sabino Monteiro), e o Depósito Divisionário.

A Infantaria Divisionária (Não confundir a 1ª DIE) comandada pelo General de Brigada Zenóbio da Costa, tinha sob seu comando o 1º, 6º e 11º Regimento da Infantaria.

As operações ofensivas eram determinadas pelo comando do V Exército e o Estado-Maior da Divisão realiza o planejamento da operação, cabendo ao comandante da Infantaria Divisionária dispor suas tropas, segundo as determinações para execução das operações da 3ª Seção do Estado Maior da Divisão, este chefiado pelo Coronel Castelo Branco (futuro Presidente do Brasil).

Lembremos que o houve quatro ataques a Monte Castelo. Dias 23 e 24 de novembro, ataques coordenados pela Task Force 45 americana, envolvendo apenas o III Batalhão do 6º RI; dias 29 de novembro e 12 de dezembro, envolvendo toda a Divisão Brasileira e coordenada pelo próprio Mascarenhas de Morais. As análises do desempenho das tropas brasileiras estão fixadas apenas nas últimas duas operações.

Podemos elencar vários motivos que levaram o fracasso e consequente perda de vidas brasileiras, mas nada relacionado à atuação do General Zenóbio da Costa.  Podemos afirmar, com base nos registros das operações fornecidas pelo próprio Chefe do Estado Maior da Divisão, Coronel Lima Brayner e a análise da obra “A FEB por um Soldado”, de Joaquim Xavier Silveira, que a 3º Seção Divisionária expediu ordens diretas de colocar tropas em linha recém-chegadas, como é o caso 11º RI, além de operações sucessivas utilizando a mesma estratégia e com tropas cansadas como erros estratégicos para o fracasso desses ataques. Outro ponto foi à falta de coordenação em todos os ataques. A Hora H, que deveria iniciar o ataque, não foi obedecida pelos elementos envolvidos, acabando por alertar o inimigo em diversos setores. O General Zenóbio tentou executar ordens expedidas diretamente oriundas do Comando da Divisão, não por sua estratégia. A questão da culpabilidade do General Zenóbio é irreal.

Com relação à falta de experiência e habilidade do General Zenóbio, é impensado que a Destacamento da FEB, formado em setembro de 1944 havia conseguindo várias vitórias tendo como comandante o Zenóbio da Costa, portanto qual o motivo de expor sua falta de experiência? A campanha do Destacamento da FEB entre setembro a dezembro daquele ano prova que o Comandante da Infantaria já tinha provado seu valor na campanha, e se ainda assim, havia falta de experiência, esta não concorreu para o resultado final da Batalha. O dispositivo para os ataques foram dispostos no terreno depois de um exaustivo deslocamento, adiciona-se a isso, vários outros fatores, fora do controle do comandante da infantaria, incluindo as bem fortificadas posições do inimigo.

Não há, pelo menos da historiografia atual, qualquer indicação de que os americanos colocaram a culpa no fracasso no próprio General Zenóbio da Costa, pois seria ilógica essa acusação. O Oficial de Ligação do Comando do Estado Maior do V Exército dentro da própria Divisão Brasileira era o Coronel Stevenson G. Carrel, que tinha por missão repassar todas as informações ao General Clinttemberg, comandante do V Exército. Portanto, o comando americano sabia que as estratégias escolhidas para os ataques partiram do Estado Maior da Divisão, diga-se de passagem, com animosidades entre o Coronel Kruel (Chefe da 2ª Seção) e do Coronel Castelo Branco (Chefe da 3ª Seção).

Então, temos o último questionamento, os fracassos de Monte Castelo foram provocados, principalmente, pela falta de experiência do próprio soldado brasileiro? A resposta pessoal para essa afirmação é não! Não foi o principal elemento do resultado da Batalha. Pois, nos ataques anteriores, desferidos por experientes tropas americanos não tiveram êxito. Mas é evidente que houveram sérios problemas de conduta de campanha da nossa tropa. Principalmente se levarmos em consideração que a Divisão utilizou tropas ainda no período de adaptação ao Teatro de Operações. Cito aqui um evento ocorrido por ocasião da substituição de tropas do 1º Regimento de Infantaria por elementos do III/Batalhão do 11º Regimento, que chegaram rapidamente já tendo que defender uma linha nas proximidades de Guanela, no dia 01 de dezembro de 1944. Posição conquistada duramente dois dias antes. Um determinado comandante de Companhia, ligou para o Comando do Batalhão informando que a posição da Companhia estava sendo atacada e que ele iria abandonar a linha. De imediato foi enviado reforços para a Companhia. Uma granada de artilharia atinge a retaguarda do PC da Companhia e o Capitão abandona seu posto e seus soldados o seguem. Esse capitão é substituído e retorna para casa. É importante dizer que isso é comum em qualquer Exército. Mas a falta de experiência em combate era notável entre as nossas tropas, nas não foi determinante para o resultado em Monte Castelo.

Lembro que o soldado brasileiro fez sua fama exatamente depois dos malogrados ataques em dezembro de 1944, a partir dai, passamos a realizar patrulha e defender uma Linha de dezenas de quilômetros, durante todo um rigoroso frio e tenebroso inverno. Até que em fevereiro de 1945, tomamos em definitivo este que é para Força Expedicionária Brasileira símbolo do sangue derramado de nossos soldados e orgulho de nossa vitória.

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  1. 09/06/2014 às 10:40 PM

    Agradeço a tua aula de história e digo que a minha indagação deu-se devido ao comentário de um Pracinha, então com 92 anos, aqui de Blumenau, que participou da Batalha de Monte Castelo e que mencionou para mim essas afirmações da inexpêriencia dele e de todos os militares participantes daquela árdua missão. Tive esta conversa com ele após o desfile do dia 7 de Setembro no ano de 2010. Ele disse que o comentário era esse durante e após a tomada do Monte Castelo. Tenho inclusive uma foto dele com o nosso membro mais antigo do GPEB, Sr. Simão, hoje com 85 anos.

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