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FEB: “Verás que um Filho Teu Não Foge A Luta!”. Mas e Agora?

Em 09 de agosto de 1943, a Portaria Ministerial Nº 4744, criava a Força Expedicionária Brasileira – FEB. Tinha início naquele momento a mais briosa ação que uma nação ruralizada e subdesenvolvida iria empreender para formar uma tropa combativa contra aqueles que eram considerados os melhores soldados do mundo.

O ano de 2013 marca o 70º Aniversário de criação da FEB. Alguma manifestação pública ou reportagem sobre o tema? Alguma nota alusiva sendo proferida em escolas públicas? Pois é. Perguntas sem respostas: qual a legado  histórico para o Brasil da Força Expedicionária Brasileira? Qual a contribuição que o sacrifício de quase quinhentos mortos deixaram de lição para os brasileiros? Na máxima da ciência, quando na afirmação, o que move o mundo são as perguntas e não as respostas, então temos algumas boas perguntas, mas que depois de sete décadas não encontramos qualquer tentativa de resposta por parte do próprio Brasil. Quem responde? A mídia? A internet? O povo? O Exército? Ou esquecemos tudo e seguimos nossas vidas sem  olhar para trás?

A Força Expedicionária Brasileira foi criada pelo Brasil para ser o próprio Brasil no Teatro de Operações da Itália. Seus componentes foram brasileiros natos, com média de idade de 20 anos, portanto jovens pernambucanos, fluminenses, paulistas, capixabas, paranaenses, mineiros, enfim, de vários Estados e regiões do nosso país. Foram enviados para Itália, muitos voluntários! Sustentavam no seu braço esquerdo o símbolo conhecido como “Coração do Brasil” em seus uniformes.

Nos primeiros meses, após as primeiras baixas brasileiras, os que sobreviviam não pensavam em outra coisa, a não ser que aqueles que se sacrificaram, morreram pelo BRASIL. No cumprimento do dever que cabe a cada brasileiro! Não se sacrificaram por um regime de governo temporal, ou por uma presidente! Morreram pelo seu país. Sustentando em seu coração o próprio CORAÇÃO DO BRASIL que estava em seus uniformes. Nenhum deles escolheu morrer na Itália, eles queriam voltar vivos para suas famílias, mas sabiam que estavam ali para defender sua própria terra e, portanto, sua própria gente!

Perplexidade minha quando percebo que a morte de brasileiros de nada valeu para esse Brasil do século XXI. Minha alma se entristece quando vejo que o Brasil passou 70 anos sem fazer a justa menção ao sacrifício pátrio desses homens. Não estou querendo que façam arautos ou os coloquem como deuses pelo que fizeram, mas que eles sejam lembrados pelo exemplo de sacrifício à serviço do país. Os nossos jovens precisam saber que outros jovens de gerações anteriores deram sua vida pelo Brasil que eles conhecem hoje.

A sua terra de campos verdejantes foram cultivadas por sangue, suor e lágrimas. Sangue dos que morreram, suor dos que trabalham e lágrimas das mães, esposas e filhas que perderam seus entes queridos com o CORAÇÃO DO BRASIL EM SEUS UNIFORMES. Só quando os jovens conheceram e valorizarem o passado do seu país, essa nação será grande. Enquanto isso estaremos relegado a uma nação inculta e constantemente ameaçada por ideologias corruptas e agentes corrosivos de nossa PÁTRIA AMADA.

Por Francisco Miranda

Visita do Comandante do Navio-Patrulha Graúna

A atual diretoria da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira – Regional Pernambuco tem vislumbrado alguns acontecimentos que nos enchem de esperança em uma mudança de cultura de nossa população. Um desses testemunhos foi a visita do Tenente-Capitão Santos Silva, da Marinha do Brasil.  Foi com grande satisfação que a diretoria da FEB e o Comandante do Navio-Patrulha Graúna se encontraram em sua sede-centro, para uma agradável tarde de conversas e a alegria de poder ouvir dos próprios veteranos da FEB as experiências vividas no Teatro de Operações da Itália. O encontro foi uma cordial retribuição do Tenente-Capitão, que tal bem recebeu na semana passada os veteranos e seus familiares na embarcação.

Estiverem presentes também todos os diretores da associação, que tiveram a oportunidade de ratificar as ligações entre a FEB e a Marinha do Brasil, que propiciou patrulhamento do contingente dos escalões da FEB que deixou o Brasil para lutar na Itália. O Veterano Ribeiro pôde relembrar um momento especial, quando seu retorno da Itália, seu navio encontrou a escolta brasileira em uma parada em Portugal, e naquele momento recebeu a continência dos marinheiros brasileiro perfilados no convés. Para ele, ficou registrado em sua memória esse fato e o carinho pela Marinha do seu país, que o emociona até os dias de hoje.

O Comandante Santos Silva presenteou a associação com um Quadro do Navio Patrulha Graúna que será colocado no Hall de Honra da sede da nossa Regional.

Agradecemos a Marinha do Brasil pelos sacrifícios de esforços, material e vidas durante a Segunda Guerra Mundial que tornou possível ao Exército Brasileiro o deslocamento de um contingente de mais de 25 mil homens, deixando ainda para a nossa Marinha a primeira linha de defesa de nossas terras, a partir do vasto Atlântico Sul, enquanto seus melhores soldados combatiam em terras estrangeiras.

Precisamos de mais jovens para disseminar os sacrifícios que nossas Forças Armadas fizeram para defender nossos ideais, jovens como o Comandante do Graúna. Se conseguirmos esse objetivo, esse país será mais digno de suas futuras gerações.

Causos e Contos da Força Expedicionária Brasileira – II

 O Amuleto!

Um pracinha do 1º RI, foi escalado para tirar o serviço de sentinela na linha de frente. Quando entrou em forma, o sargento responsável pelo serviço, percebeu que o soldado estava com um sapato feminino pendurado a seu cinto de campanha. Ele chega bem próximo do ouvido do soldado, e começa a falar:

 – Que merda é essa no seu cinto soldado? Tá mudando o uniforme de campanha? Ficou louco? – O sargento fala sem alvoroço.

 O soldado, meio assustado com a reação do sargento, conta o motivo do objeto feminino estranho a uma soldado na guerra.

 – Sargento, esse não é o meu primeiro serviço na linha, e esse sapato é da minha mulher, e me salvou a vida – falando já suspirando.

O sargento com cara de surpresa, arregala os olhos.

–  Salvou sua vida? Como? – pergunta o sargento.

 – É que quando eu sai do Brasil, não houve tempo de me despedir da minha mulher, já que ninguém sabia quando era o embarque, e sempre vinha aqueles cansativos treinamentos de embarque e desembarque, até que entramos no navio e chegamos aqui. Só que como eu moro próximo da Estação do trem que passamos para o porto, consegui ver minha mulher no caminho e ela me viu. Claro, a gente só se viu a distância, então ela pegou esse sapato e jogou e mim, gritando para que eu levasse o sapato comigo o tempo todo, para lembra dela. E eu sempre fiz isso. No meu último serviço na linha, eu estava guardando uma estrada, protegido por sacos de areia em cima de um pequeno morro. A noite, peguei o sapato para matar um pouquinho a saudade. Só que o sapato escorregou da minha mão e caiu no sopé do morro, fiquei com medo de ir buscá-lo, mas resolvi descer, não podia perder a única lembrança da minha mulher, e se eu voltar para o Brasil sem isso, vai dar merda pro meu lado. Assim que desci, e peguei o sapato, explodiu um granada de artilharia no meu posto, tudo foi pelos ares! Se não fosse o sapato eu não estaria aqui hoje, tinha explodido no meu posto. Portanto, o senhor pode me prender, mas esse sapato vai ficar exatamente onde está! – Fala decididamente

O sargento não pergunta mais nada, bate no ombro do soldado e leva o grupamento para o serviço na linha.

O brasileiro amigo da artilharia inimiga

O Sargento Rigoberto contou que certa vez, que a sua companhia estava sofrendo uma barragem de artilharia e todos estavam abrigados. Quando ouvia um dos pracinhas gritando cada vez que um projétil de artilharia passava por suas cabeças.

 “Alta demais…baixa a Alça!” – quando  o projétil passava muito alto.

 E quando o projétil explodia à frente da Companhia ele reclamava com o inimigo.

 – “Foi muito…aumenta a merda da Alça!!”

 A cada tiro, o brasileiro tentava guiar a artilharia alemã. Até que o capitão, comandante da Companhia, resolveu tomar uma decisão:

  – Tirar esse desgraçado da linha, antes que algum alemão que fale português entenda o que ele está falando. – E o soldado foi retirado da linha

 O soldado corajoso para guerra, mas com alguns medos.

Certa vez, uma patrulha do 6º RI , comandado por um sargento, estava atuando próxima a uma pequena vila, quase abandonada. Quando resolveram descansar em uma casa mais afastada de dois andares. Eles resolveram ficar no segundo andar para poder observar o território. O sargento deu ordens para um soldado ficar de sentinela, enquanto o resto do grupamento descansava. A sentinela ficou próxima a uma janela, observando o movimento. Só que a casa tinha um caminho a sua retaguarda, e uma porta que dava acesso direto ao interior da casa. Quando o sargento percebeu, a casa estava com praticamente um pelotão de alemães alojados. Ficar ali, no segundo andar, era perigoso demais, qualquer barulho, chamaria a atenção do pelotão. Então o sargento observou um poste próximo a uma das grandes janelas da casa, e ordenou que os homens pulassem da janela para o poste, e descessem. Já no chão, poderiam se afastar e pedir apoio da nossa artilharia que não estava longe, tudo isso tinha que ser feito sem chamar a atenção do inimigo. Então, todos começaram a pular, um por um, até que ficou apenas o sargento com o soldado Inácio. Soldado considerado um dos mais combativos do regimento, voluntário para patrulhas. O sargento, mandou o Inácio pular, e o bravo soldado ficou estático e só balançava a cabeça – O que foi Inácio? Desce logo essa merda! – xinga o sargento.

 – Não posso sargento, tenho medo de altura! – fala o corajoso guerreiro

 – Como assim medo de altura? Você tá na merda, tá vendo o inimigo lá embaixo não? Pula logo, antes que empurre você pela janela!

 Inácio, se prepara, chega até a janela e volta com lágrimas nos olhos!

 – Sargento, consigo não! Tô quase me mijando de medo dessa altura! – fala já com lágrimas no olhos.

– Inácio, se tu num pular de vez, eu vou pular e deixar você resolver com os tedescos lá de baixo – ameaça o sargento

 Outra tentativa, desta vez Inácio quase escorrega, e se agarra com o sargento, e chora!   Já desesperado, os outros soldados gesticulavam para o sargento. Então ele olha pra baixo:

 – O que é? – Pergunta o desesperado sargento

 Um soldado que conhece o Inácio desde os tempos de escola, diz que Inácio tem mais medo de injeção do que de altura. Então é a solução! O enfermeiro que estava acompanhando a patrulha, jogou o seu estojo e dentro o sargento tirou uma injeção de penicilina, e já falando para o Inácio:

 – O seguinte soldado, você vai pular dessa janela agora, se você voltar aplico essa merda em você – Aponta a seringa para o pobre soldado

Inácio, respira fundo, corre e se joga no poste. A técnica era se jogar com o pé batendo no poste de forma que pudesse cair girando no poste, afim de minimizar o impacto da queda, mas o guerreiro se jogou de pernas abertas! E o poste maltratou profundamente suas partes mais sensíveis, praticamente ficou estatalado, abraçado com o poste alguns segundos, até cair completamente no chão.

 E todos ficaram felizes em ver o pobre Inácio gemendo no chão! Mesmo com todas as dificuldades a patrulha se afasta e aciona a artilharia brasileira, passando as coordenadas da casa com os inimigos.

Brasiliano, brava gente!

Os ceguinhos de Podenzano

Já a paz havia sido declarada quando, uma tarde, chega-nos o capitão Verejão e convida-nos para irmos visitar o colégio para crianças cegas.

Como sempre, munimo-nos dos clássicos mantimentos de que a população tanto necessitava, e fomos.

O colégio ficava à margem da estrada que liga S. Carlos a Podenzana, e se achava instalada num amplo casarão, no fundo de aprazível chácara.

Fomos recebidos pelas madres orientadoras do colégio que nos conduziram por um salão onde nos foram apresentados os alunos.

À Diretoria demos mantimentos, às crianças demos chocolates e balas.

É bem verdade que os que se afastavam de sua Pátria e de sua família, como que o coração se lhes enche de ternura e de bondade; entretanto o quadro era realmente de comover.

Os ceguinhos se aconchegavam uns aos outros, saboreando as balas com desmedido prazer, vestidos humildemente, uns sem pai, outros sem mãe.

A Diretora ao agradecer-nos as dádivas, confessou-nos que havia muito que lhes faltava tudo, inclusive sabão.

Passamos a cuidar mais de perto dos ceguinhos. Mandávamos-lhes o “show” da companhia de Petrechos do Batalhão e o capitão Arnóbio. Os ceguinhos, assim ouviram diversas canções brasileiras e mesmo algumas italianas. Pediram que cantassem a “Aurora” cujo o ritmo eles acompanhavam com as palmas. Cantamos-lhes o nosso Hino Nacional, cujas palavras lhes traduzimos.

Em certo momento colhemos a mão de uma das meninas e trouxemo-la para perto de nós. Carla tinha apenas 10 anos. Cega de nascença, viva e inteligente, conversou muito conosco, espontaneamente agradeceu-nos os chocolates e pediu-nos notícias do Brasil.

Depois, volvendo seus tristes olhos para uma direção infinita, chegou-se mais perto de nós e desse-nos, como num segredo: os “tedescos” levaram meu paizinho, será que ele volta?

Respondemos a Carla que sim e apressamos nossa retirada.

Dias após recebemos a carta que se segue:

Senhor Major

 

A vossa gratíssima visita, e a excepcional delicadeza que tiveste em trazer-nos, além de uma farto e boníssimo presente, a alegria de ouvir a harmonia e a doce poesia do vosso belo país, nos comoveu assim, tão profundamente, que sentimos a necessidade de oferecer a Vós o nosso agradecimento muito sincero. Quanta gratidão, quanta admiração sentimos por Vós, pelo vossos soldados, que não se desdenharam de dar a nós, pobres e humildes crianças, o nosso tempo preciso que nos fez conhecer a bondade e a Cristã irmandade da alma brasileira.

 

Que o bom Deus faça descer sobre Vossos caros a abundância dos seus favores celestes. Proteja, prospere a Vossa casa, a Vossa terra que nenhuma Pátria, e faça que nenhuma sombra de dor que tem dilacerado a nossa infeliz Pátria, toque de leve o benéfico Brasil que vejo de tão longe para enxugar-nos as lágrimas e trazer-nos a Paz.

 

Pedimo-vos para transmitirdes as nossas saudações aos Vossos, os quais, estamos certos, serão como seu grande pai, que recordaremos sempre com reconhecimento. Com o agradecimento dos Cegos.

 

Instituto dos Cegos – Madonna dela Bomba

                               Piacenza, 11-6-44

Crônicas de Guerra – Coronel Olívio Gondim de Uzêda

Memorial Day – NO BRASIL JÁ!

Hoje nos Estados Unidos comemora-se o Memorial Day, é um feriado onde se referencia a memória daqueles que morreram por seu país. Essa é uma cultura que, infelizmente, não temos e, muito provavelmente, nunca teremos. Nosso país, diferentemente dos Estados Unidos, não se envolve em guerras. Contudo, como aconteceu lá nas terras de Tio Sam, aqui pátrios também perderam a vida em solo estrangeiro, lutando pelo seu país. Pelo menos os que morreram achavam que estavam morrendo por isso.

Não me venham com falácias sobre a participação pífia do Brasil na Segunda Guerra ou, até mesmo, sobre os conchavos políticos de Vargas, isso não vale, pois quem derramou seu sangue pelo seu país no ataque a Montese, em abril de 1945, e foi morto lutando à frente de seu pelotão, foi o Aspirante e Herói brasileiro Francisco Mega, ele morreu lutando pelo seu Brasil, diferentemente dos inúmeros políticos corruptos da atualidade, ele deu o que tinha de mais valioso, sua vida. E o que o Brasil lhe deu em troca? Esquecimento! Se o Sargento Max Wolf pudesse ver o futuro, será que ele teria se arriscado tanto? Será que ele abdicaria do convívio de sua filha Hilda, se soubesse que o mesmo país que o enviou, também o esqueceria? E que os jovens brasileiros de gerações posteriores acolheriam como heróis jogadores de futebol com milhões de dólares em suas contas e nenhum amor pelo Brasil, e não saberia quem foi Max Wolf? Ou qualquer outro brasileiro que lutou e morreu na Segunda Guerra? Ora, meu povo brasileiro, de tantos ídolos e alegres músicas, como podes esquecer, ignorar, menosprezar e até xingar homens corajosos que deixaram sua juventude para lutar por uma causa, que bem ou mal, era a Tua Causa? Como jovens podem amar o que é estrangeiro, idolatrar grandes personalidades de outras nações, enquanto há um desconhecimento geral de quase 500 corpos brasileiros sepultados no Rio de Janeiro. Onde? No Rio de Janeiro! Quantos cariocas sabem que existem no Aterro do Flamengo esses heróis sepultados? E Pernambuco? Apenas 12 mortos na Itália! Apenas? Quantos monumentos há para lembrar? Nenhum! Ou melhor, UM! Onde? Parque 13 de Maio, centro do Recife! Isso mesmo! Mas como alguém pode saber? Não há qualquer placa, apenas um velho monumento inominado, sem indicação, sem uma plaquinha que seja. Esse é nosso país. Esse é nosso Estado. E a Paraíba? E Minas Gerais? E São Paulo? Quantas mães, mulheres, filhos e filhas choraram seus entes queridos, levados pela guerra e esquecidos pelo tempo?

Ficamos na esperança de que nosso país mude, como a mesma expectativa quando tantos compatriotas se juntaram em outra geração para gritar por Diretas Já, para que também possa, essa geração, gritar por mais reconhecimento histórico, não apenas pelos esquerdistas, comunistas e guerrilheiros que morreram por esse ideal, mas para todos os Filhos da Terra Tupiniquim que já derramaram seu sangue, independente se usavam farda ou não. Sigam o exemplo de West Point, Academia Militar Americana, onde há uma placa com o nome de todos os oficiais formados que lutaram e morreram na Guerra Civil Americana, pois eram todos irmãos, independente se Confederados ou da União, eram todos americanos e mereciam serem homenageados. Portanto, nesse ponto, temos muito que aprender com os capitalistas, mas honrados norte-americanos.

Essa foto é de soldado que morreu no Dia D, e um velho veterano francês da Primeira Guerra que se compadece com a perda de um jovem.

O Cemitério Militar Brasileiro

Os brasileiros mortos na Campanha da Itália, até Dezembro de 1944 eram sepultados nos Cemitérios de Tarquínia, Felônica e Vada. A partir de Janeiro de 1945, foram todos reunidos no Cemitério Militar Brasileiro numa área adquirida pelo nosso governo, na localidade de Pistóia.

            Juntamente com os valorosos expedicionários do Brasil, jaziam até alguns anos atrás os despojos de 40 militares alemães, recolhidos na zona de combate pelo Pelotão de Sepultamento da FEB.

            Os números dos brasileiros vitimados na Campanha da Itália são os seguintes:

            Feridos em ação……………………………………………………………………………. 1.577

            Mortos em ação, incluindo os desaparecidos…………………………………….                401

            Mortos em acidentes diversos(veículos,minas,arma de fogo, afogamento)   60

            Mortos por doença…………………………………………………………………………    4

            Morto por assassinato…………………………………………………………………….     1

            Morto por suicídio…………………………………………………………………………     1

Observação: dos 467 mortos, 13 eram Oficiais do Exército, 8 oficiais da FAB e 442 Sargentos e Soldados do Exército.

            Posteriormente, os restos mortais foram trasladados para o Brasil e estão no Monumento aos Mortos da 2ª Guerra Mundial, que foi erguido na cidade do Rio de Janeiro e inaugurado em 24 de Janeiro de 1960, que foi idealizado pelo Gen Mascarenhas de Morais, e fica localizado no Aterro do Flamengo.

            Houve um único caso de deserção, o soldado B.L., que não mais foi incluído na FEB por ter cometido suicídio no acampamento de Lucky Strike, em Saint Valery – França onde foi sepultado.

            No local foi construído o Monumento Votivo Brasileiro, mantido até hoje sob os cuidados de  Mário Pereira, filho do Veterano Miguel Pereira ex-combatente da FEB, que após a guerra permaneceu  em solo italiano, para cuidar daquele pedaço de  terra  brasileira, cravada na Região da Toscana.

Soldado não identificado

Especial Monte Castelo – 67 anos: 3º ataque ao Monte Castelo

                                             Monte Castelo – 67 anos

            3º ataque ao Monte Castelo

            Com a determinação de conquistar o conjunto Belvedere – Torracia antes da chegada do inverno europeu, o comandante do IV Corpo – General William Crintemberg, ordenou à Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE) que tomasse posse de Monte Castelo, uma vez que o Monte Belvedere já estava nas mãos dos aliados.

            A ordem era a seguinte: “Dentro de sua ação, capturar a crista que corre de Monte Belvedere para nordeste, inclusive o Monte Castelo, a fim de impedir que o inimigo tenha vistas sobre a Rota 64 (Pistóia – Porreta Terme – Bolonha)” .

            O grupamento de ataque ficou constituído da seguinte forma:

            Comandante: General Zenóbio da Costa

            Tropa – um batalhão por Regimento de Infantaria da Divisão de Infantaria Divisionária:

  • I / 1º R.I. –  Major Uzeda sobre Monte Castelo
  • III / 11º R.I. – Major Cândido cobrindo o flanco
  • III / 6º R.I. –  Major Sylvino

Ficou como reserva divisionária o II / 6º R.I.

            Apoio de 4 grupos de artilharia.

            A missão geral era:

  1. apoderar-se de Morro Castello, com esforço na direção C. Viteline – cota 887
  2. ocupar e manter a linha: cabeceira leste do Rio Liberaccio, vertente norte do Morro do Castello, região de Carrulo, de maneira a impedir que o inimigo transpusesse este , como também  o Rio Marano e, que progrida para cota 930
  3. cobrir-se entre Le Roncole e a região de Gaggio Montano, e levar esta cobertura à crista 1053-1036
  4. unir-se a Task Force 45 na região de Torracia

            Foi informado que a força aérea não daria apoio, haveria preparação de artilharia durante 40 minutos, e a 2ª seção deu como provável a existência de um batalhão inimigo defendendo a posição, podendo ser reforçado em curto prazo, com mais dois batalhões.

            Os reconhecimentos para o ataque foram iniciados no dia 27 de novembro d 1944, e deslocamento dos batalhões ocorreram em condições desfavoráveis, em consequência de grandes chuvas e lamaçais que dificultavam o avanço da tropa, e como fator complicador os batalhões do 1º R.I. E 11º R.I. Iam ter seu batismo de fogo, enquanto as tropas do 6º R.I., estavam exaustas pela longa campanha que vinha sofrendo.

            O General Mascarenhas de Morais tinha como ideia de  manobra, o seguinte esquema:

  1. Manter fortemente as regiões de Africo, Torre de Nerone, Boscaccio e Monte Cavalloro
  2. Apoderar-se no ataque do dia 29 de Novembro de 1944 do Monte Castelo e estabelecer cobertura na região de Falfare para em seguida, em combinação com a Task Force 45, repelir o inimigo das cotas 1027 e 1053.

            Na noite do dia 28 para 29 de Novembro, enquanto se organizava o ataque, a tropa brasileira foi informada da expulsão dos americanos do monte Belvedere, ficando o flanco esquerdo completamente descoberto, e o bom senso sugeria um adiamento das operações, o que não foi feito, talvez por orgulho nacional, em virtude do comando estrangeiro.

            O início das operações estava marcado para começar às 7 horas da manhã do dia 29. No dia 28 de novembro, por volta das 19 horas o I / 1º R.I. Saiu de Gaggio  Montano, e seus últimos integrantes atingiram a base da partida às 6 horas da manhã do dia 29 de Novembro, e o batalhão teria ainda uma hora para iniciar a operação. Do ponto de partida para o objetivo, a distância era de aproximadamente 500 metros e teriam que subir 300 metros.

            A  artilharia atacou pesadamente, antes do avanço da tropa, que começou às 7 horas da manhã pelo I / 1º R.I., que progrediu até o meio dia. Às 8 da manhã partiu o III / 11º R.I. Que após conquistar a cota 760 a oeste de Falfare foi detido à frente de Abetaia.

            Os alemães fortalecidos e melhor instalados, reagiram violentamente, desarticulando o escalão de ataque, que logo depois foi apanhado pelo flanco, e de frente por fogos de metralhadoras instaladas em Mazzancana, Fornace, Cota 887 e Abetaia.

            Na segunda parte do ataque o I / 1º R.I.,  foi obrigado a retornar à base e o III / 11º R.I. Recuou um pouco sob pressão da artilharia inimiga e, com a chegada da noite e a intensificação dos ataques do inimigo, houve uma ordem para o retorno imediato para a posição inicial, não tendo sido empregados o III / 6º R.I., nem a reserva divisionária.

            Pela 3ª vez o Monte Castelo resistiu, deixando cerca de 200 baixas, sendo que apenas uma granada matou 9 de nossos pracinhas. A verdade é que a Divisão de Infantaria Expedicionária não atingiu seu primeiro objetivo ofensivo sob direção exclusivamente brasileira.

            Concluímos que o 3º ataque não teve sucesso, pelo seguinte:

  1. falta de preparação para o ataque
  2. determinação alemã em manter a elevação a todo custo
  3. meios deficientes para concluir o objetivo
  4. ausência do apoio da força aérea
  5. condições climáticas completamente desfavoráveis
  6. ataque frontal ao inimigo
  7. parte da tropa era inexperiente em combates(III / 11º R.I.)
  8. terreno bastante íngreme e muito enlameado.

            Após o ataque frustrado, jaziam sobre o terreno do Monte Castelo inúmeros corpos dos pracinhas, que simbolizavam a bravura do soldado brasileiro.

"Em uniforme de inverno, no mês de Dezembro de 1944, patrulha da FEB se prepara para incursão às linhas alemãs"

 

Na maca, o Batalhão de Saúde transporta um pracinha ferido num dos assaltos ao Monte Castelo

 

 

 

A Reintegração Social dos Ex-Combatentes da FEB – Parte IV

Texto de Autoria do Professor Mestre Alessandro dos Santos Rosa:

CONTINUACAO

 

 

1.1 O Brasil sai de “cima do muro”: a criação da FEB

 

As primeiras providências tomadas em torno da Força Expedicionária Brasileira deixaram evidente que, mesmo parte dos militares responsáveis por tal mobilização, não acreditavam na possibilidade da participação brasileira no cenário da Segunda Guerra Mundial. Atitudes negativas como essa, somadas a outras tantas, direcionaram para a desorganizada desmobilização no pós-guerra.

Como analisado anteriormente, o governo de Getúlio Vargas foi direcionado a apoiar os países aliados, pois havia uma ampla e profunda diplomacia entre ambos os países. Surgem então, os episódios dos torpedeamentos dos navios brasileiros na costa brasileira e em águas internacionais, no ano de 1942, sendo os alemães responsáveis pelos atos. Dessa forma, nos grandes centros, onde as pessoas acompanhavam com maior proximidade a evolução dos acontecimentos e era possível uma junção de massas sociais, pessoas ligadas principalmente a instituições políticas, manipulavam esses grupos para que solicitassem uma atitude dos políticos e demais autoridades do país. Eles exigiam a participação do Brasil no conflito armado, pois o principal argumento que se utilizava era que a honra dos brasileiros estava manchada sendo necessária uma reação.

Contudo, esse é um ponto de vista que autores como Joaquim Xavier da Silveira[1] defendem: “o clima era de total repúdio e, como acontece nessas ocasiões, desmandos são feitos, agitadores profissionais encontram clima para suas tendências. Multidões acorreram ao Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, exigindo a guerra”, segundo um ponto de vista oficial, não sendo único e verdadeiro.

Concomitante a todo esse cenário, os norte-americanos pressionavam para que Getúlio Vargas decidisse a quem apoiaria, ofertando um investimento na parte de infra-estrutura no campo industrial do país e o reaparelhamento das Forças Armadas, as quais se encontravam sucateadas, conforme já analisado. O desencadear dessas promessas de investimentos tem como objetivo central, legitimar a entrada do Brasil na guerra o que, de fato, acaba acontecendo com a declaração de guerra no dia 22 de agosto de 1942, conforme abordagem anterior.

Em relação à bibliografia que aborda o contexto da historiografia da FEB, o processo de mobilização, atuação e retorno foi realizado, num primeiro momento, a partir de uma análise de pesquisas ligadas a história militar oficial. A maioria dessas obras enaltece a imagem dos militares, principalmente daqueles que se encontravam no alto-comando da força expedicionária e combateram contra os regimes ditatoriais, e fazem reflexões sobre os problemas sociais surgidos após a desmobilização. O maior número dessas obras foi de contribuições realizadas por oficiais do alto escalão da FEB, tendo como editora a BIBLIEx, Biblioteca do Exército.

Pelo fato das obras, em sua maioria, serem de autoria de militares, acabam convergindo em uma mesma direção, pois mesmo se tratando de relatos do campo de batalha, há uma preocupação com a própria memória da instituição. A preservação da integridade desta está relacionada à capacidade dos líderes militares se destacarem como comandantes. Na obra do comandante da FEB, General João Batista Mascarenhas de Moraes[2], há destaque do momento em que se dá a criação da FEB, pela organização do efetivo que partiria para a Itália, e contempla a chegada no Teatro de Operações[3](TO).

Ainda, comenta como devem ser os procedimentos de um General, comandante de um contingente em situação real de guerra, como o mesmo deve se portar frente a grandes peças de manobras, que sejam os batalhões, e como direcioná-las no campo de batalha. Faz, também, reflexões sobre decisões tomadas com correções e outras que foram deixadas de ser aplicadas e que poderiam ter trazido resultados mais positivos. Ou seja, a obra também traz uma abordagem em torno do aspecto de que o chefe militar, no caso, General deve colocar em prática os altos estudos realizados em escolas com essa finalidade dentro das forças armadas.

Outra obra analisada é a do Chefe do Estado Maior da Força Expedicionária Brasileira, coronel Floriano de Lima Brayner[4], que procura enaltecer o papel desempenhado pelo estado-maior da FEB, sendo ele um dos componentes deste. Apresenta-se como grande crítico de como foi organizado e mobilizado o efetivo expedicionário, utilizando da crítica também para analisar como algumas autoridades do governo do Estado Novo se utilizaram de mecanismos para a mobilização de artifícios contra a FEB. Ainda, realiza reflexões sobre o retorno dos expedicionários e o fim da Força Expedicionária.

As obras acima mencionadas, mesmo procurando relatar sobre o episódio da participação da FEB no contexto da Segunda Guerra Mundial, mantêm-se quase sem críticas a instituição e a possíveis falhas ocorridas nas ordens emitidas nos campos de batalha, com exceção feita à obra do coronel Lima Brayner. Em situação contrária, os oficiais de postos inferiores, como no caso dos oficiais da reserva[5], lançam uma coletânea – Depoimentos de Oficiais da Reserva sobre a FEB. São Paulo: IPÊ – Instituto Progresso Editorial S.A., 1950 – em que acabam criticando seus chefes militares, colocando-se contra alguns discursos apresentados pelo general Mascarenhas de Moraes e, em parte, pelo coronel Brayner.

Essa coletânea, logo após a sua edição, foi apreendida. Isso ocorreu em função da obra contestar, como falamos acima, muitas ordens vindas do escalão superior. Seus depoentes eram oficias que se encontravam no comando de pequenas frações, eram executores de ordens e, segundo consta na obra, uma quantidade expressiva de ordens das quais discordavam. Se essas ordens tivessem sido mais bem analisadas, teria evitado consequências mais graves, como a perda de militares em situações de combate desnecessárias. Essa coletânea teve, ainda, mais duas edições entre o final da década de 1950 e início da década de 1960.

Obras como a de Joaquim Xavier da Silveira[6], permitem uma análise da formação da FEB e de quem estava sendo comandado, das dificuldades enfrentadas no Brasil e em solo italiano, das aspirações da soldadesca, do cotidiano do campo de batalha e realiza, de forma mais suave, algumas críticas sobre os militares que estavam no comando dos expedicionários. Silveira também escreve sobre a dissolução e a desmobilização da FEB. Interessante frisar que o autor realiza ainda observações sobre como ficaram os ex-combatentes após o retorno, as legislações e associações, mencionando sobre o descaso das autoridades frente aos ex-combatentes.

O autor Francisco Ferraz César Alves[7], em sua pesquisa de doutorado, faz uma abordagem sobre a historiografia internacional, relacionando os ex-combatentes e a sua inserção dentro da sociedade em lugares diferentes do mundo. Fala sobre a formação da FEB, sua partida para a Itália e sua participação em combate. Ainda, analisa a receptividade e desmobilização da FEB, trazendo à luz problemas ignorados por entidades, tanto políticas como também militares, como a reintegração social dos veteranos de guerra. Seu estudo se encerra verificando até onde trabalha o ex-combatente como agente de memória.

A autora Sirlei de Fátima Nass[8] também pesquisa sobre a mobilização da FEB, sua partida e retorno. A ênfase trabalhada em sua pesquisa é no que tange a forma como foi realizada a desmobilização e o problema social gerado por essa atitude mal planejada.

Essas duas últimas obras, principalmente, abordam temas que eram evitados pelo alto-escalão das Forças Armadas. Ambas as pesquisas alinham-se com o objeto principal da aqui proposta, qual seja, o de realizar uma análise de como ocorreu o processo de inserção social dos ex-combatentes, com ênfase na legislação e sua aplicação. Essas pesquisas já possuem uma abordagem em torno desse processo, são estudos importantes, porém, não esgotam o assunto. Buscaremos uma compreensão de como as legislações, que foram criadas logo após findar a guerra, demoraram tanto até chegar ao destino final, ou seja, naquele combatente que se encontrava distante, retirado dos grandes centros.

O assunto sobre a reintegração social será devidamente abordado em capítulo específico dessa dissertação, mas não nos restringiremos a esse tema. Também falaremos como foi o retorno para a vida civil, as discriminações sofridas e as lutas diárias. Realizaremos, também, uma abordagem sobre as facilidades surgidas durante a guerra, aspecto a ser abordado no transcorrer dessa pesquisa.

 O Brasil se colocava, frente ao cenário da Segunda Guerra Mundial, dentro de uma faixa de neutralidade camuflada. No ano de 1942, conforme analisado anteriormente, muita pressão e vários acontecimentos acabaram direcionando e aproximando, de forma definitiva, as ideologias brasileiras junto daquelas apresentadas pelos países aliados.

Além dos acontecimentos citados acima, ocorreram acordos políticos, o que permitia a utilização das costas marítimas brasileiras pelos norte-americanos, de onde seriam desencadeadas operações militares aeronavais. No conjunto de acordos ficou acertado a participação do Brasil com tropas militares e, também, uma modernização das forças armadas.

No dia 15 de março de 1943, Getúlio Vargas aprovou o envio de tropas brasileiras para combater na Segunda Guerra Mundial. O primeiro passo para a concretização da Força Expedicionária Brasileira foi a criação da Portaria Ministerial 47-44 do dia 13 de agosto de 1943, que regulamentou a criação da 1ª DIE – Divisão de Infantaria Expedicionária. Ficou definido que seria composta da seguinte forma: de um Quartel Geral, Estado-Maior Geral, Estado Maior especial e Tropa Especial, Infantaria Divisionária, Artilharia Divisionária, Batalhão de Engenharia, Esquadrão de reconhecimento, Batalhão de Saúde, Companhia de transmissão e esquadrilha de Aviação.

Importante lembrar que aquele momento não era nada favorável para tal evento, pois as Forças Armadas se deparavam com dificuldades de grande porte. As barreiras a serem ultrapassadas eram complexas e exigiam um esforço de grande vulto, apesar do aumento de efetivos que se deu na década de 30 e do aumento do orçamento destinado para as Forças Armadas, como analisado por Dennison de Oliveira[9]:

O exército possuía, em 1930, um efetivo de quase 48 mil homens, passando a pouco mais de 80 mil, em 1936, e atingindo mais de 171 mil, em 1944. Tamanho crescimento nos efetivos correspondeu também ao aumento de verbas alocadas para o exército. Em 1930, lhe eram destinados 12,3% das verbas do orçamento federal, passando para 17,6% em 1936, e 19%, em 1940.

O autor não nos proporciona, por intermédio dessas informações, um entendimento da precariedade orçamentária e pessoal que assolava e debilitava a operacionalidade das instituições militares. O sucateamento dos materiais destinados ao emprego militar ainda era presente, sendo outro aspecto que comprometia a eficiência militar e treinamentos. Para termos idéia da real situação, as Forças Armadas faziam uso de equipamentos utilizados na Primeira Guerra Mundial e contavam com um exército que se movimentava, em grande parte, por meio de transporte hipomóvel, ou seja, no lombo de cavalos. Até mesmo as doutrinas militares encontravam-se ultrapassadas. Para agravar ainda mais todo esse contexto, havia resistências dentro do próprio meio político e meio militar contra a formação da FEB.

A organização da Força Expedicionária estava fadada a romper barreiras, a ultrapassar grandes obstáculos. A operacionalidade e estratégia militar seguiam a Doutrina Francesa, a qual já se encontrava, nesse momento, ultrapassada, sendo necessária uma adaptação nos estabelecimentos de aperfeiçoamento militar e seguir as novas e modernas diretrizes norte-americanas. Após o rompimento desses primeiros obstáculos iniciava-se uma nova e importante atividade da recentemente criada FEB, a seleção daqueles que comporiam o único efetivo sul-americano a participar de forma prática das atividades de “combate em campanha”[10] nos solos da Europa.

A expectativa ambicionada, inicialmente, era mobilizar em torno de cem mil homens para singrar o oceano atlântico e chegar à Europa. Devido às dificuldades e a demora da mobilização, foram enviados pouco mais de 25.000 homens. O conflito já se encontrava em um estado bem adiantado, fato esse que não tirou a importância e o brilhantismo da participação brasileira nesse episódio. A primeira medida tomada pelo Estado-Maior das forças armadas, após a criação da FEB, foi formar uma Comissão Militar Brasileira, chefiada pelo General Mascarenhas de Moraes. Este grupo tinha por objetivo específico realizar um reconhecimento nos campos de batalha da Europa, principalmente no continente africano, cuja intenção, inicialmente, era empregar as tropas brasileiras.

A atividade era considerada pelas autoridades político-militares de grande importância, pois seriam verificadas as condições gerais dos campos de batalha que se apresentariam para os expedicionários. Seria possível analisar as condições climáticas, de terreno, as necessidades de emprego de material militar, que tipo de uniforme se fazia necessário e tantos outros aspectos peculiares. Porém, tal missão não foi levada tão a sério por aqueles que constituíram a Comissão, já que nem foi realizado um planejamento minucioso, como analisado por Floriano de Lima Brayner[11]:

Não houve um planejamento adequado para a constituição da comissão, nem para o desenvolvimento de sua missão. O chefe do Estado-Maior Divisionário não acompanhou o Comandante da Divisão. Subestimou-se, de um modo geral, a missão de alta importância que a FEB deveria cumprir nesse primeiro contato com a realidade da guerra.

Essa narrativa mostra, de forma evidente a descrença que imperava entre as altas autoridades que compunham a FEB. Não se tinha a certeza da participação brasileira na guerra devido à conjuntura precária em que se encontravam as forças militares, fato esse que acabava desacreditando a possibilidade de viabilizar a constituição desse efetivo, como abordado por Joaquim Xavier da Silveira[12]: “os obstáculos iniciais para organizar a FEB foram enormes, tanto no campo material, como no político – neste, houve eficiente passividade na colaboração, acompanhada por uma campanha de descrédito”.

Procedimentos de tamanha irresponsabilidade trouxeram como principal consequência o despreparo. A participação concretizava-se a todo instante, porem as preocupações com organização e preparação mais minuciosa acabavam ficando relegadas a um segundo plano. Até mesmo porque os responsáveis em adequar as tropas para o emprego em condições adversas não demonstravam grande interesse e entusiasmo. Ao que se pode analisar, assim seguiu ate o momento da partida.

BIBLIOGRAFIA

 

BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

 

BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB: memórias de um chefe do estado-maior na campanha da Itália. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um soldado. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2001.

CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edusp, 2000.

EICKHOFF, Renato. A Força Expedicionária Brasileira e os seus veteranos. 2005. 42 f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura Plena) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2005.

FERRAZ, F. C. A. O Brasil na guerra: um estudo de memória escolar. Comunicação apresentada no IV Encontro Perspectiva do Ensino de História. Ouro Preto. Universidade Federal de Ouro Preto, 24 de abril de 2001. Anais da ANPOC.

 

MORAES. J. B. M. de. A FEB pelo seu comandante. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1947.

NASS, Sirlei de Fátima. Legião Paranaense do Expedicionário: indagações sobre a reintegração social dos febianos paranaenses (1943-1951). Dissertação – UFPR, 2005.

OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008.

RIBEIRO, P. da S. As batalhas da memória: uma história da memória dos ex-combatentes brasileiros. Niterói, 1999. Dissertação (Mestrado em História): Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense.

SALUM, A. O. Zé Carioca vai à Guerra. São Paulo, 1996. Dissertação (Mestrado em História) Pontifícia Universidade Católica.

SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai à guerra: o processo de envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3.ed. Barueri, SP: Mamole, 2003.


[1] SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um soldado. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2001. p. 43.

[2] MORAES. J. B. M. de. A FEB pelo seu comandante. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1947.

[3] Se compõe de todas as peças de manobra em um campo de batalha. Envolve a parte logística, alimentação, roupa, etc, e a parte operacional, viaturas, armamentos, pessoal, etc.

[4] BRAYNER. F de L. A verdade sobre a FEB: memórias de um Chefe do Estado Maior na Campanha da Itália. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

[5] Depoimentos de Oficiais da Reserva sobre a FEB. São Paulo: IPÊ – Instituto Progresso Editorial S.A., 1950.

[6] SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um soldado… op. cit, 2001.

[7] FERRAZ, Francisco César Alves. A guerra que não acabou… op. cit. p. 127-145

[8] NASS, Sirlei de Fátima. Legião Paranaense do Expedicionário… op. cit. 2005

[9] OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008. p. 52.

[10] Atividades de combate em conflito armado.

[11] BRAYNER, Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB: memórias de um chefe do estado-maior na campanha da Itália. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p.21.

[12] SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um soldado… op. cit. p. 56.

FEB – Os Detalhes Históricos – O Brasil em cima do Muro!

O Brasil foi uma grande incógnita para as forças beligerantes desde o início do conflito. Se por um lado havia uma clara aproximação com os Estados Unidos, por outro o governo possuía uma relação comercial mútua com os países do Eixo, principalmente Itália e Alemanha. O governo varguista tinha, inclusive, utilizado como base para formação do Estado Novo em 1937 o modelo italiano de Mussoline. Mais ainda, em discurso totalmente pró-fascista proferido pelo doutor Getúlio, abordo do Encouraçado São Paulo em 11/06/40, que não só causou constrangimentos para Oswaldo Aranha, então Chanceler brasileiro, como serviu para exemplificar o quanto o governo brasileiro estava dividido, e o resultado disso foi uma carta de felicitações enviada por Mussoline e uma explicação oficial do Chancelar ao Embaixador americano.  Outro fator importante para os beligerantes, principalmente dos Estados Unidos, era a posição estratégica do nordeste brasileiro. Desde o final da década houve missões de reconhecimento da inteligência da Marinha americana para identificar os pontos sensíveis e levantar a real situação das cidades brasileiras, principalmente Natal, Recife, Salvador e Rio de Janeiro, essas cidades, eram consideradas estratégicas e também totalmente vulneráveis a qualquer investida inimiga.

Os sucessos militares iniciais da Alemanha permitiram que boa parte da cúpula do Ministério da Guerra se mostrasse mais propensa ao apoio aos germânicos, podemos citar como exemplo o Ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra e o Chefe do Estado Maior do Exército General Góis Monteiro que apesar de não haver qualquer referência bibliográfica que aponte-os como germanófilos,  há evidências nessa direção; no caso da apreensão do navio Siqueira Campos, que transportava uma carga de armas compradas pelo Brasil em contrato de importação anterior a declaração de guerra e que, sendo interceptada pelos ingleses, gerou um incidente diplomático que só foi contornado com a interferência direta dos Estados Unidos e a atuação de Oswaldo Aranha. Mesmo assim, o Chefe do Estado Maior solicitava ao presidente rompimento das relações diplomáticas com a Inglaterra.

Mais no final das contas o que pesou foi o apoio econômico. Getúlio Vargas precisava urgentemente, dentro das suas pretensões de estruturação do país, a criação de uma indústria de transformação brasileira, e os Estado Unidos estavam dispostos a financiar o projeto se houvesse a apoio à causa da guerra. Outro fator importante foi a atuação do Chanceler Oswaldo Aranha. As convicções do ministro das relações exteriores foram tão importantes para determinar qual seria a posição brasileira que ele conseguiu convencer, inicialmente o Presidente da República e, posteriormente todo o gabinete. Tarefa difícil se levarmos em consideração que até o momento do rompimento das relações diplomáticas Aranha teve oposição por parte dos militares, que acreditavam que o Brasil estaria completamente vulnerável se a declaração de guerra fosse consuma.

O Brasil nunca foi um parceiro importante para os Aliados, mas era estratégico. Os Estados Unidos sabiam disso, tanto que arquitetaram um plano de invasão ao Brasil caso o mesmo optasse pelo lado do Eixo e depois dos ataques a Pearl Harbor que gerou indignação dos países americanos e que fez com que houvesse a Reunião de Chanceleres no Rio de Janeiro em 1942 e posteriormente a quebra das relações diplomáticas entre o Brasil e as nações do Eixo. Tudo isso foi usado como insumo pelo hábil Oswaldo Aranha para fortalecer as relações com os Aliados e quebrar as resistências internas e, com isso fazer com que o Brasil sai em definitivo de “cima do muro”.

FEB – Os Detalhes Históricos – Introdução

Para entender os motivos que levaram a formação de uma Força Expedicionária Brasileira é necessário primeiramente compreender os desdobramentos políticos do Brasil na década de 30, sendo que à luz de uma análise desse período podemos ter uma visão geral dos acontecimentos que culminaram com a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Ainda no contexto político poderemos entender os motivos, até certo ponto contraditórios, de uma nação regida por uma política totalitária, como era a varguista, lutando lado a lado com potências democráticas.

O Brasil encerra a década de 20 com uma agitação política causada pelo rompimento da base da chamada política café-com-leite, onde o poder republicano, desde o início do século, pendia ou para São Paulo ou para Minas Gerais. Mas no processo de indicação visando as eleições presidenciais Júlio Prestes sai candidato por São Paulo, contrariando o presidente de Minas Gerais Antônio Carlos Ribeiro de Andrada que apoia o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas. Em 01 de março de 1930, acontece a eleição presidencial que aponta Júlio Prestes vencedor da disputa eleitoral, contudo este não toma posse, em virtude do Golpe de Estado, desencadeado em 03 de outubro. Getúlio Vargas é nomeado chefe do Governo Provisório em 03 de novembro do mesmo ano. Com isso chega ao fim o período da História do Brasil conhecida como República Velha.

Evidentemente não nos aprofundaremos nas circunstâncias que levaram Vargas ao poder, mesmo que esse fato tenha configurado todo o cenário brasileiro para as décadas seguintes, contudo cabe uma análise da posição do Exército Brasileiro no envolvimento com essas mudanças que floresciam no Brasil e no mundo.

Sublevações aconteciam a todo o momento no Brasil desde o início da década de 20, a exemplo a Revolta Tenentista, a Intentona Comunista de 35 que teve a participação de vários militares e iria ser o pretexto utilizado pelo próprio Vargas na instauração do Estado Novo, portanto as Forças Armadas estavam no centro das mudanças políticas e revoltosas que deixavam o país com uma instabilidade social, afetando diretamente a vida da sociedade. Em paralelo a esses movimentos revoltosos, o Exército estava sofrendo uma mudança radical em sua doutrina e estrutura, desde o final da Grande Guerra foi instaurada aqui em 1919 até 1940 a Missão Militar Francesa (MMF), e tinha como objetivo a modernização do Exército Brasileiro, bem como a adoção de uma nova doutrina militar de guerra, que naquele momento, era considerada a mais avançada do mundo.

No contexto territorial a rivalidade e as frequentes disputas que existiam entre a Argentina e Brasil pela hegemonia regional. Os argentinos exportavam matéria-prima em grande escala para a Alemanha durante a Grande Guerra, mas que a partir de 1924 a ideologia aos moldes fascistas, baseado no nacionalismo aflorou a disputa e, posteriormente, em 1930, sob o comando do General golpista José Felix Uriburu inspirou cuidados do Governo Provisório, chefiado por Getúlio Vargas, já que acreditava-se à época  que o  general argentino tinha aspirações territoriais no sul do Brasil, e partes das Forças Armadas brasileiras deslocaram efetivos para a tríplice fronteira.

A partir da instauração do Estado Novo em 1937, o Brasil passa a ter pretensões mais ousadas. Getúlio Vargas deixa claro sua política externa quando afirma que o Brasil iria buscar o seu lugar no contexto mundial, sendo um dos signatários nas Liga das Nações.

 Como era normal para o regime varguista, o Brasil estava mais ligado aos países ditatoriais, basta lembrar que houve um intenso e crescente comercio entre o Brasil e a Alemanha até 1935, quando esse último implementou leis protecionistas e diminuiu suas importações, mas o comercio nunca deixou de existir até 1939, quando as relações diplomáticas foram cortadas, Um outro exemplo foi a aproximação entre o Brasil e a Itália, cuja a ideologia fascista era até certo ponto exercida aqui no País. O nossos líderes à época expressaram em várias ocasiões sua admiração pelos resultados apresentados pelos Estados totalitários, portanto na concepção inicial, era de se imaginar que um conflito bélico o Brasil, no que concerne a seus líderes, se colocasse alinhado com os valores defendidos por essas nações.

 Esse era o cenário brasileiro nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, um país ávido por mudanças, mas com problemas sociais e políticos crônicos, mas sem uma identidade internacional, e com início do conflito cada vez mais pressionado para se posicionar.

Fontes:

http://tenentismonobrasil.wordpress.com/

http://blogdoconfrade.blogspot.com

Missão Militar Francesa de Instrução junto ao Exército Brasileiro – General Alfredo souto Malan – 1988

O Rei Netuno e a FEB!

O que o Rei Netuno tem haver com a FEB? Na verdade nada! Ou quase nada…

Havia uma tradicional brincadeira na USNavy em presentear os marinheiros que atravessam a Linha Imaginária do Equador com “Diplomas do Rei Netuno”, por isso a deidade grega é revestida de uma simbologia única para Forças Latino-Americanas, tendo em vista que o Brasil foi o único país do continente sul-americano a participar de ações beligerantes na Segunda Guerra Mundial. E para diminuir a tensão da viagem, que para o 1º Escalão da FEB iniciou no dia 02 de julho de 1944 e o desembarque aconteceu em Nápoles no dia 16 de julho, nesse período havia riscos de operações de submarinos do Eixo o que era necessário total alerta e treinamentos constantes para a tropa e a tripulação. A noite todas as luzes eram apagadas e o calor tornava a viagem bastante desgastante para os nossos soldados. Por isso a prática da marinha americana de “diplomar” os militares por cruzarem a linha imaginária do hemisfério tornou a viagem mais animada e, como o espírito brasileiro naturalmente é caracterizado pela irreverência, trouxe um animo a mais para tropa no Navio de Guerra General Mann.

Estamos abaixo exibindo uma raridade que é o “Diploma do Rei Netuno” do querido pracinha Sargento Rigoberto Souza que embarcou com o 2º Escalão e lutou nas principais batalhas do Teatro de Operações do Mediterrâneo.

Diploma do Rei Netuno -Digitalização Original

 

Fontes:

Rigoberto Souza Júnior

“A luta dos Pracinhas – A Força Expedicionária Brasileira na 2ª Guerra
Mundial de Joel Silvera e Thassilo Mitke

 

Fotos & Detalhes Históricos – Especial FEB – Parte V

Ainda em homenagem ao efetivo da FEB que deixou sua terra para lutar nos campos da Itália e, em especial, para os quase quinhentos que lá pereceram, segue mais um tributo do acervo da ANVFEB-PE, cedidos gentilmente por Rigoberto Souza Júnior – Secretário  – Ad hoc.

 

A Agressão Alemã Contra o Brasil

Figurou por muitos anos a tola menção de que os navios torpedeados na costa brasileira era fruto inevitável de submarinos aliados com o objetivo de incriminar deliberadamente a Alemanha, e forçar a entrada no Brasil na Segunda Guerra Mundial. Evidentemente essa teoria nunca se sustentou, muito embora ainda haja pessoas que acreditam em tão fraco argumento.

A convite do então Ministério da Marinha, o Almirante Jorgen Horhwer esteve no Brasil e, no dia 28 de março de 1982, na Escola de Guerra Naval, pronunciou uma conferência intitulada “Operações navais da Alemanha”. O Almirante, que combateu na marinha alemã durante a Segunda Guerra Mundial, relatou de forma precisa como os submarinos de seu país torpedearam navios brasileiros. O depoimento histórico abrange todas as operações navais realizadas nesta parte do oceano atlântico, do início ao fim das hostilidades, e foi publicado na íntegra, no número 18 da revista Navegator.

 

Vamos verificar abaixo um resumo de algumas atividades das operações submarinas da marinha alemã na costa brasileira a partir de 1942.

Semanas antes do afundamento do Lacônia, precisamente no dia 7 de agosto de 1942, Doenitz tomou uma decisão que mudaria a História Contemporânea do Brasil: o U-507 recebeu por rádio a mensagem para usar “manobras livres” na costa brasileira. De modo que o submarino comandado pelo capitão-de-fragata Harro Schacht então com 35 anos, afundou cinco navios brasileiros de cabotagem nos litorais da Bahia e Sergipe, acarretando a morte de mais de 600 pessoas, inclusive de mulheres e crianças. Diga-se agora e a bem da verdade que a grande mortandade ocorrida nos afundamentos do Baependi, Araraquara, Anibal Benevolo foi devido ao tipo de ataque devastador desfechado pelo comandante Schacht, ou seja, sem prévio aviso e lançando dois torpedos um após outro, levou aqueles navios ao fundo em questões de minutos e isso debaixo de uma noite escura e de um mar revolto. Em outras palavras, a maioria dos tripulantes e passageiros não tiveram a oportunidade de abandonar os navios devido ao rápido afundamento. Tudo indica que as ordens dadas a Schacht era o de causar o maior número de vítimas fatais. Para se ter uma idéia da dimensão da tragédia cometida pelo U-507, somente uma baleeira do Baependi, com apenas 28 sobreviventes atingiu a costa no dia seguinte. E apenas oito náufragos, agarrados em destroços de madeira, lograram alcançar a terra dois dias após o ataque. Portanto, das 305 pessoas que estavam a bordo do famoso navio do Lloyd Brasileiro, pereceram 269. Já entre os 142 ocupantes do Araraquara, 131 morreram. Tanto pior ocorreu com o Anibal Benevolo, pois morreram todos os seus 83 passageiros e apenas quatro dos 71 tripulantes, sobreviveram. Foi uma matança sem igual, porquanto até fins de julho de 1942, a Marinha Mercante brasileira de longo curso tinha perdido onze navios com 135 vítimas fatais.
Esse massacre ocorrido em águas territoriais brasileiras, provocou grande consternação entre o povo brasileiro. A indignação foi geral. Em várias cidades houve violentas manifestações populares contra súditos do Eixo e suas propriedades. Tanto o governo autoritário do Estado Novo quanto a opinião pública que vivia manietada pelo DIP, consideraram indispensável uma reação. O Brasil seria lançado definitivamente na infernal Segunda Guerra Mundial. No Rio de Janeiro, a notícia, divulgada no dia 18, desencadeou uma série de passeatas e comícios populares, onde os cariocas exigiam retaliação. No fim da tarde, uma massa popular se dirigiu para o Palácio do Itamaraty – sede do Ministério das Relações Exteriores – clamando pelo chancelar Oswaldo Aranha, que apareceu na sacada do edifício para exclamar: “A situação criada pela Alemanha, praticando atos de beligerância, bárbaros e desumanos contra a nossa navegação pacífica e costeira, impõe uma reação à altura dos processos e métodos por eles empregados contra oficiais, soldados, mulheres, crianças e navios do Brasil. Posso assegurar aos brasileiros que me ouvem, como a todos os brasileiros, que, compelidos pela brutalidade da agressão, oporemos uma reação que há de servir de exemplo para os povos agressores e bárbaros, que violentam a civilização e a vida dos povos pacíficos.”
Mas em verdade o Brasil naquele momento estava longe de ser um país pacífico. Vide o que a FAB estava fazendo em maio de 1942, ao atacar os submarinos italianos que estavam posicionados ao longo da costa nordeste brasileira.

As memórias equivocadas de Doenitz

É bem verdade que em agosto de 1942, o Brasil já estava em beligerância não declarada com o Eixo, mas sobre o nefasto acontecimento que chocou o Brasil, Doenitz, em suas memórias veio escrever: “Finalmente, havia a possibilidade de operações ao largo da costa do Brasil. Nossas relações políticas com aquele País vinham há já algum tempo cada vez mais se deteriorando e as ordens emitidas pelo Alto Comando Naval referentes à nossa atitude para com a navegação brasileira se agravaram em correspondência(…)Depois que o Brasil rompeu relações diplomáticas, seus navios continuaram a ser tratados da mesma maneira que os de todos os outros Estados neutros, desde que fossem reconhecidos e agissem como neutros, de acordo com a Convenção Internacional. No entanto, entre fevereiro e abril de 1942, os U-boats torpedearam e afundaram sete navios brasileiros, com todo direto de fazê-lo de acordo com o estabelecido na Convenção de Praças de Guerra( Prize Ordenance), desde que os capitães dos U-boats não puderam reconhecer suas identidades de neutros. Estavam navegando sem luzes em curso de zigue-zague, alguns deles armados e alguns pintados de cinza e nenhum deles ostentava uma bandeira ou signo de sua identidade de neutro. Depois disso mais e mais navios brasileiros montaram canhões até que toda sua Marinha Mercante estava armada.(…)No fim de maio, o Ministro da Aeronáutica brasileiro anunciou que um avião brasileiro tinha atacado submarinos do Eixo e que continuaria a fazê-lo. Sem nenhuma declaração formal, achamo-nos assim num estado de guerra com o Brasil, e a 4 de julho os U-boats receberam permissão dos nossos líderes políticos de atacarem todo os navios brasileiros. Na primeira semana de julho, quando estávamos planejando as primeiras operações dilatadas de U-boats, perguntei ao Ministro do Exterior se haveria alguma objeção às planejadas operações ao largo do estuário do Rio da Prata, área de reunião para os navios-frigoríficos que eram tão importantes no suprimento de carne da Inglaterra. Sem considerar a opinião da Argentina, o Ministro do Exterior negou permissão para qualquer operação ao largo das costas daquele País, mas não fez objeção à continuação de nossas atividades ao largo do Brasil, que haviam sido permitidas em maio e que estavam em progresso desde então. Decidi portanto mandar, em associação com as operações planejadas contra o tráfego de navios Norte-Sul ao largo de Freetow, mais um barco para a costa brasileira. Do outro lado do estreito entre a África e a América do Sul, o U-507(Tenente-Comandante Schacht) estava operando. Ali fora das águas territoriais, ele afundou cinco navios brasileiros. Nisto ele agia de acordo com as instruções expedidas, com a cooperação do Ministro do Exterior, pelo Quartel-General das Forças Armadas. O Governo brasileiro tomou o afundamento destes navios como ocasião para declarar guerra à Alemanha. Embora isto não tivesse em nada alterado nossas relações existentes como o Brasil, que já havia tomado parte em atos hostis contra nós, foi sem dúvida um erro levar o Brasil a uma declaração oficial; politicamente deveríamos ter sido melhor aconselhados para evitar tal fato. O U-boat Command, porém, e o capitão do U-boat envolvido, como membros das Forças Armadas, não tinham senão que obedecer as ordens que lhe haviam sido dadas; não competia a eles pesar e calcular as conseqüências políticas…”

CONTUDO

Primeiro é preciso que se diga que certas informações fornecidas acima por Doenitz não correspondem com a verdade. Os três primeiros navios comprovadamente afundados pelos nazi-fascistas(Buarque, Olinda e Cabedelo, 14, 16 e 25 de fevereiro de 1942, respectivamente), navegavam com as luzes de bordo e de navegação acesas, assim como estavam iluminadas as bandeiras do costado e da popa, bem como a chaminé que identificava a nacionalidade e a companhia proprietária. Foi depois dessas iniciativas da parte da ressentida Alemanha contra os interesses brasileiros, que o governo do Estado Novo junto com autoridades navais norte-americanas, tomaram medidas para tentar evitar que os barcos fossem afundados tão facilmente. Assim, o terceiro a ser atacado, o Arabutan, estava pintado de cinza, navegava às escuras e sem bandeira. E foi após a perda do Cairu ao largo da costa leste dos EUA, o qual veio gerar a morte de 53 pessoas, que os navios mercantes brasileiros começaram a ser dotados de um sistema de defesa, dispondo tão-somente de uma peça de artilharia( O Parnaíba, o quinto navio torpedeado em 1-5-42, trazia na popa um canhão de 120mm) Entrava-se numa dialética de ação e reação de atos de beligerância. O Comando da Marinha alemã solicitou a Hitler que fossem levantadas as restrições para o ataquue a navios brasileiros(vistoria e ordem de abandono), no que foi atendido. Daí por diante, os navios brasileiros seriam considerados beligerantes e torpedeados sem aviso. Mas bem antes disso, o governo de Getúlio Vargas havia protestado perante a Alemanha através do embaixador português em Berlim, que transmite em 27 de fevereiro o seguinte: “devem cessar os atos da Marinha de Guerra alemã contra os navios mercantes sem defesa, e que pertencem a um país que não está em guerra.” Mas a Alemanha hitlerista não levou em conta esses protestos.

 

O Brasileiro é Acima de Tudo Um Forte – O Legado da FEB

Tradicionalmente o brasileiro é taxado de ter a memória curta, isso quer dizer que lhe é peculiar o pouco interesse no passado de seu país. Em vários aspectos discordamos dessa posição, contudo existem características no Brasil que nos arremata para esse tipo de pensamento, e uma delas é a FEB. Isso mesmo, a Força Expedicionária Brasileira é um assunto pouco expressado no meio acadêmico, a participação brasileira no conflito mundial de 39 a 45 é um grande território de estudo para as diversas universidades do país,  muito embora o tema seja pouco valorizado, as obras e estudos que têm como área de pesquisa a mobilização, atuação, resultados e desmobilização da Força Expedicionária Brasileira são de pouquíssimos autores em comparação a outros períodos da história brasileira. Nesse cenário, a memória dos que combateram no Teatro de Operações Europeu ficou sob a responsabilidade dos filhos, netos e bisnetos dos ex-combatentes que têm lutado com a mesma garra de seus antepassados para manter viva a honra que esses combatentes conseguiram nos campos de batalha italiano. Nessa “guerra” injusta contra a ignorância histórica, o trabalho se torna mais difícil com o passar dos anos e, quando os ex-combatentes nos deixarem, as Associações estarão enfadadas ao esquecimento se não houver um mudança de atitude no trato com a memória desses homens que viram a guerra, e voltaram sob a égide da vitória para o país, mas também destinados ao abandono do governo que os enviou.

Existe um grupo de intelectuais que critica e questiona firmemente a atuação da FEB nos campos de batalha italianos, entre os quais citamos William Waack, um dos maiores jornalista que esse país possui é também autor do livro As Duas Faces da Glória, que trás uma visão jornalística das relações do Brasil com os demais Aliados, e se baseia em documentos trocados entre os ingleses e americanos juntamente com entrevistas de combatentes alemães que lutaram contra a FEB na campanha da Itália. Bem, claro que essas discussões são pertinentes e, até salutar, para o debate sobre a participação brasileira, contudo o ponto passivo entre os estudiosos e aficionados pelo assunto é a bravura dos soldados brasileiros no combate, isso deve ser o elemento central na exaltação da memória das futuras gerações. Uma divisão expedicionária que foi formada com soldados com claras deficiências físicas, com pouca ou nenhuma instrução, saídos de um exército que até anos antes tentou golpes de Estado que foram planejados e executados por membros de suas fileiras, um exército cujo último conflito de grandes proporções foi uma controversa guerra contra seu próprio povo, em uma cidade chamada Canudos, ainda no século XIX; e a FEB foi criada sob as ordens de um Estado ditatorial para lutar contra uma nação de regime semelhante, guardada as proporções. Essa divisão foi formada com soldados que, aparentemente, não foram bem vistos por seus Aliados, mas que no decorrer das missões mostrou-se ser de extrema bravura individual, lutando contra um inimigo experiente, vindos de outros fronts como a campanha russa, membros da temida Afrika Corps, um povo que estava lutando desde o final do século anterior. Nossos soldados foram viris frente a este inimigo, deixando de lado suas limitações logísticas e físicas demonstraram serem dignos da frase do grande escritor Euclides da Cunha, quando se referiu ao povo que o exército enfrentara na guerra de canudos – O nordestino é acima de tudo um forte, escreveu ele em sua obra-prima Os Sertões – no caso da FEB, não apenas o nordestino, mas o brasileiro se mostrou forte, enfrentando o seu oponente e todas as limitações, enfrentando o tempo, e o rígido inverno europeu, mesmo saído das regiões tropicais e nunca ter visto neve, lutou na neve, vencendo um inimigo árduo, o frio. Pode-se escrever livro questionando as operações da campanha, mas deveríamos escrever dez vezes mais, sobre a coragem dos febianos para deixar de legado para as próximas gerações.

Fechando o ciclo de exemplos que podemos elencar na busca pelo reconhecimento dos nossos brasileiros que lutaram em solo estrangeiro, podemos citar os 17 de Abetaia que foram cercados e mortos no ataque em 12 de dezembro de 1944 no Monte Castelo, seus corpos só foram recuperados após o ataque de 21 de fevereiro de 1945, e devido o frio extremo, todos estavam bem conservados, muitos ainda com o dedo travado no gatilho de seus fuzis, enquanto outros estavam com granadas na mão e sem o pino de segurança, morreram todos em formação semi-circular, cercados, mas face a face com o inimigo, encarando-os até a morte. Homens bravos! Brasileiros Bravos!

 

Escrito por Francisco Miranda - Proibido reprodução ou publicação sem autorização do autor

A visão americana do Brasil!

O Vídeo tem uma afirmação de Charles de Gaulle: “O Brasil não é uma país para ser levado à sério”.

O Brasil é um país que não deve ser levado à sério.” – Frase atribuída ao general, mas de origem negada por historiadores. Eles dizem que a frase é do embaixador brasileiro na França, Carlos Alves de Souza, dita ao jornalista Luiz Edgar de Andrade, na época correspondente do “Jornal do Brasil” em Paris. Depois de discutir com De Gaulle a “guerra da lagosta”, em 1962, quando barcos franceses pescavam o crustáceo na costa brasileira, Souza relatou a Edgar o encontro dizendo-lhe que falaram sobre o samba carnavalesco “A lagosta é nossa”, das caricaturas que faziam dele (De Gaulle), terminando a conversa assim: “Edgar, le Brésil n’est pas un pays sérieux”. O jornalista mandou o despacho para o jornal e a frase acabou outorgada a De Gaulle.

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