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Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte VII – Final

Saída de cima do muro: apoio aos países aliados

Embora identificado com os regimes totalitários europeus, o Estado Novo getulista conservava-se neutro em relação ao conflito que eclodira em 1939, neutro quanto aos Estados liberais e ao nazi-fascismo europeus.

O Brasil possuía uma posição geográfica estratégica, tanto para os norte-americanos, quanto para os alemães. Por isso era de fundamental importância para ambos os países o apoio brasileiro. O país contava ainda com um forte comércio de café com os norte-americanos e com os alemães havia comercialização do algodão, ambos os produtos fortaleciam a e impulsionavam a economia brasileira.

As riquezas minerais, como, por exemplo, o minério de ferro em grande quantidade, era estrategicamente ambicionado pelos dois lados, pois essas matérias-primas seriam utilizadas para a fabricação de arsenais de guerra, tecnologia que nesse período estava em pleno desenvolvimento.

Apesar das pressões norte-americanas, o governo continuava indeciso. E essa indecisão era reflexo das tendências contraditórias dos homens do governo: enquanto Filinto Müller, chefe da polícia do Rio, e Francisco Campos, secretário da educação do Distrito Federal, eram favoráveis às potências fascistas do eixo Berlim-Roma-Tóquio, Osvaldo Aranha, ministro das Relações Exteriores colocava-se contra. Entre as duas tendências oscilavam os generais Góis Monteiro e Dutra.

Mas muito preocupava aos Estados Unidos as ligações comerciais que o Brasil mantinha com a Alemanha e, principalmente, a postura tomada por Vargas diante da ideologia dos países do Eixo. Em 1940, Vargas citou em um discurso as qualidades do Eixo, o que fez que todos acreditassem na possibilidade do Brasil em breve se unir a eles, até porque, o Estado Novo era um governo que se identificava com os regimes totalitários europeus. Mas apesar do fato do presidente ser um simpatizante do regime alemão, “economicamente, nas circunstâncias, o Brasil não podia viver sem os Estados Unidos. A Alemanha não era bastante grande para substituí-la em nossos negócios”[1].

Segundo Roberto Gambini[2]: “Deve ficar bem claro que essa possibilidade de um duplo sistema comercial foi usada mas não criada pelo Brasil. À medida que se concretizava o prospecto de aliança entre Brasil e Alemanha, os Estados Unidos concentravam seus esforços para subverter o comércio entre os dois países, visando impedir que a Alemanha prosseguisse em sua marcha armamentista”. (p. 165)

Sendo assim, o governo determinou através do DIP[3], que qualquer meio de comunicação permanecesse neutro ao relatar notícias da guerra que acontecia na Europa, uma vez que a censura era rigorosamente exercida em todas as ocasiões.

A inclinação a favor das potências aliadas deu-se a partir do sucesso das negociações de empréstimos entre o Brasil e o Eximbank, em 1941. Já na II Conferência de Consulta dos Chanceleres no Rio de Janeiro, em meados de janeiro de 1942, a aliança política entre Brasil e Estados Unidos foi efetivada.

Tornou-se inevitável o rompimento das relações diplomáticas com o Eixo. Em março do mesmo ano, o comprometimento do Brasil se aprofundou, com a assinatura de um acordo que permitia aos Estados Unidos a utilização das costas nordestinas como bases aeronavais.

A participação direta do Brasil no conflito mundial aconteceu após repetidos ataques aos navios brasileiros por parte da força submarina alemã. Cerca de dezoito navios foram perdidos nesses ataques, realizados até em águas brasileiras. Além das perdas materiais, em torno de 607 brasileiros foram mortos.

Evidentemente, isso provocou reações espontâneas que resultaram em manifestações populares exigindo a entrada do Brasil na guerra. Em 21 de agosto de 1942, finalmente, Osvaldo Aranha, ministro das Relações Exteriores, declarou oficialmente guerra contra a Itália e a Alemanha.

Porém, ao apoiar os norte-americanos, o Brasil acaba se colocando em uma situação contraditória, pois sempre incentivara a colonização alemã. Ao tomar essa decisão acaba adotando medidas de repressão se voltando contra aqueles que tinham origens germânicas e que aqui residiam. Como analisado anteriormente nesse capítulo, os mesmos passam a ser perseguidos, agredidos pela sociedade brasileira, a qual estava mobilizada pelo episódio dos incidentes marítimos.

O país acaba participando do episódio da Segunda Guerra Mundial, não porque estava na eminência de ser atacado ou ocupado, mas sim, porque as articulações políticas e econômicas acabaram conduzindo ao desfecho desse processo.

A participação inicial do Brasil ficou limitada ao fornecimento de matérias-primas estratégicas e ao auxílio no policiamento do Atlântico Sul. Somente em 1944 foi enviado à Itália um contingente de soldados, que compuseram a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que foi criada um ano antes, sob o comando do general Mascarenhas de Morais, a qual passará a ser analisada no próximo capítulo.

Os autores Dennison de Oliveira, René Gertz, Frank D. Mccann e Giralda Seyferth, trazem em suas reflexões as formas como vão se desencadear os relacionamentos entre os imigrantes germânicos e o Brasil, possibilitando-nos uma compreensão da dificuldade da tomada de decisão do governo brasileiro, qual seja, de apoiar os países aliados e não os países do eixo.

A sociedade brasileira tinha em todos os seus segmentos, sejam eles políticos, instituições de segurança, comércio, indústria, produção rural, uma ligação muito forte com os imigrantes alemães, dificultando ainda mais a tomada de decisão. Essa atitude, depois de tomada, acabaria afetando até mesmo a forma como seria tratado o povo germânico aqui residente, o que acabou acontecendo de fato.

Da mesma forma, como foi constatado, a mudança de tratamento com os imigrantes alemães desencadeou o processo que culminou no apoio aos países aliados. E é possível ter uma compreensão mais sensível deste episódio através dos depoimentos aqui mencionados de Italo Conti, Aristides Saldanha Verges, Virginia Leite e Lindolfo Guilherme Arendt.

Sendo eles integrantes de comunidades de imigrantes ou ainda descendentes dos mesmos, vivenciaram o processo e guardam em suas lembranças fatos que de uma forma ou de outra modificaram suas vidas. Ficou claro que houve mudanças drásticas de comportamento em relação aos imigrantes alemães, italianos e japoneses, direcionando a perseguições e agressões.

Ainda, conforme abordagem dos autores Roberto Ganbini, Leôncio Basbaum, Renato Eickhoff, Roney Cytrynowicz, Ricardo Seitenfus e Paulo Brandi, fica visível como foi articulado dentro do Estado Novo uma situação que pudesse beneficiar a economia brasileira até os últimos momentos, onde uma decisão havia de ser tomada.

Dentro do exposto nos textos subseqüentes, é possibilitada uma analise, através das abordagens dos autores citados e dos entrevistados, como acaba se desencadeando o processo que leva o país aos campos de batalha. Desde suas dificuldades devida a ligação com os imigrantes germânicos, ideologia política alinhada com os regimes ditatoriais e ainda interesses econômicos. Dentro de todo esse contexto vem surgir o efetivo que representaria, não só uma nação, Brasil, mas também seria o único efetivo sul-americano a singrar os mares e participar de uma forma efetiva do contexto da Segunda Guerra Mundial.

 

Referencia Bibliográfica

 

*GERTZ, René. O perigo alemão. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1991

*OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008

*SEYFERTH, Giralda. A colonização alemã no vale do Itajaí – Mirim. Porto Alegre: Movimento, 1985

*BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

*EICKHOFF, Renato. A Força Expedicionária Brasileira e os seus Veteranos. 2005. 42 f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura Plena) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2005.

*CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edusp, 2000.

*GAMBINI, Roberto. O duplo jogo de Getúlio Vargas. São Paulo: Ed. Símbolo, 1977

*BASBAUM, Leôncio. História sincera da República: de 1930 a 1960. São Paulo: Alfa-Omega, 1976


[1] BASBAUM, Leôncio. História sincera da República: de 1930 a 1960. São Paulo: Alfa-Omega, 1976. p122

[2] GAMBINI, Roberto. O duplo jogo de Getúlio Vargas. São Paulo: Ed. Símbolo, 1977. p.165

[3] O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) criado em dezembro de 1939 foi o principal responsável pela legitimação de Vargas e do Estado Novo perante a opinião pública. Com maior amplitude de ação que o Departamento Nacional de Propaganda, o DIP, dirigido por Lourival Fontes, tornou-se porta-voz autorizado do regime e o órgão coercitivo máximo da liberdade de pensamento e expressão até 1945.

 

Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte VI

Autor: Professor Mestre Alessandro dos Santos Rosa

A Política do Estado Novo


Com a Revolução de 1930, Getúlio Vargas é levado a presidência da República, como analisado por Ricardo Seitenfus[1]: “Em outubro de 1930, um movimento armado conduz o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas à presidência da república. A Primeira República conhece seu ocaso e tem início a Era de Vargas”.

Após passar pelo governo provisório (1930-1934) e pelo governo constitucional (1934-1937), apoiado por militares e pela população, Getúlio Vargas derrubou a constituição e declarou o Estado Novo (1937-1945). Com o advento do Estado Novo, em novembro de 1937, “Vargas passou a governar com poderes ditatoriais, iniciando oito anos de domínio incontrastável”[2].

Iniciava-se um período de ditadura na História do Brasil. Alegando a existência de um plano comunista para a tomada do poder (Plano Cohen) Getúlio fechou o Congresso Nacional e impôs ao país uma nova Constituição, que ficaria conhecida depois como “Polaca” por ter se inspirado na Constituição da Polônia, de tendência fascista.

O governo de Getúlio Vargas contava com grande apreço popular e tinha como meta principal enquadrar o Brasil em uma era de desenvolvimento. Procurando uma autonomia em bens industriais, não desejava que o país continuasse tão dependente das economias internacionais.

O país contava com uma economia muito sensível, o que vem dar mostras dessa fragilidade econômica foi à crise de 1929, onde foi grandemente diminuída a compra do café brasileiro, produto que servia como base da economia nacional, fazendo com que as preocupações de uma industrialização tomassem lugar de destaque, como explica Ricardo Seitenfus[3]:

     A crise econômica mundial de 1929 mostrou bem que o Brasil não mais poderia continuar a depender inteiramente do estrangeiro para o suprimento de bens industriais. A importância da siderúrgica para o Brasil e para sua política externa é imensa: Getúlio Vargas a considerou o “problema básico” da economia brasileira. Enquanto não resolvido, o Brasil não reconheceria “a opulência econômica”. A partir de outubro de 1930, a implantação de um complexo siderúrgico tornou-se um dos elementos chave do programa getulista, condicionando a atitude brasileira em relação à Alemanha e aos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. (p. 04)

A política comercial brasileira parte para a tentativa de diminuir as barreiras que o protecionismo internacional impunha, procurando uma aproximação com as nações que dominavam os mercados pelo mundo.

O Estado Novo foi marcado pela expansão industrial e pelo crescimento das exportações nacionais. “O país apresentava uma estrutura agrária, com o café respondendo por 70% das exportações e 60% dos seus quase 40 milhões de habitantes vivendo em áreas rurais”[4].

Desde o final de 1935 o governo havia reforçado sua propaganda anticomunista, amedrontando a classe média e de certa forma preparando a mesma para prestar seu apoio. O Golpe de Getúlio Vargas teve sua articulação com apoio dos militares, contando também com o apoio maciço da sociedade, dessa forma conseguindo uma centralização política que desde então se desencadeava.

Vargas impôs a censura aos meios de comunicação, reprimiu a atividade política, perseguiu e prendeu inimigos políticos, adotando medidas econômicas nacionalizantes e deu continuidade a sua política trabalhista com a criação da CLT[5], em 1943.

Desde a sua ascensão ao poder a política getulista sempre seguiu a esteira das políticas totalitárias e ditatoriais. Fato esse que, com a proximidade do evento da Segunda Guerra Mundial, a sociedade e até mesmo o meio militar ficava duvidoso de qual seria sua decisão, a quem prestar apoio, como analisado por Roney[6]: “Como terceiro e “outro” fator aparece a guerra que já em 1939 “produzia seus efeitos no Brasil, pois, como se não bastasse a ditadura do Estado Novo, havia o temor de que Getúlio Vargas optasse por alinhar o país ao lado da Alemanha nazista”.

Referencia Bibliográfica

 

*GERTZ, René. O perigo alemão. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1991

*OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008

*SEYFERTH, Giralda. A colonização alemã no vale do Itajaí – Mirim. Porto Alegre: Movimento, 1985

*BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

*EICKHOFF, Renato. A Força Expedicionária Brasileira e os seus Veteranos. 2005. 42 f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura Plena) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2005.

*CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edusp, 2000.

*Consolidação das Leis do Trabalho. Criada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943


[1]SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai à guerra: o processo de envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3.ed. – Barueri, SP: Mamole, 2003. p.01

[2] BRANDI, Paulo. Vargas: da vida para a história. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. p. 03

 

 

[3] Idem. p.4

[4]EICKHOFF, Renato. A Força Expedicionária Brasileira e os seus Veteranos. 2005. 42 f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura Plena) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, 2005. p.5

[5]Consolidação das Leis do Trabalho. Criada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. A consolidação das leis trabalhistas era uma necessidade do governo Vargas, populista e dependente da aclamação popular. Nesse período foi criado o Ministério do Trabalho, e a maioria das leis trabalhistas nasceram após 1930, quando triunfou a revolução que levou Vargas ao poder. O sindicalismo crescia sob as asas do governo e foram feitas muitas leis para regulamentar o trabalho.

[6] CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edusp, 2000. p.292

 

Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte V

Autor: Professor Mestre Alessandro dos Santos Rosa

Perseguidos e atacados!

Com a decisão de apoiar aos países aliados, mudou drasticamente o tratamento com os imigrantes alemães e seus descendentes. Na compreensão da sociedade brasileira e ainda motivada por lideranças políticas nacionais e locais, todo aquele que tivesse descendência germânica era culpado pelas mortes ocasionadas nos incidentes marítimos, como explica o general da reserva, Italo Conti[1], ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira:

     A partir do dia em que ocorreu o afundamento dos navios brasileiros ocorreu uma mudança na opinião social. Inclusive eu estava em Cachoeira, no Rio Grande do Sul, quando ocorreu os afundamentos dos navios, o quebra-quebra foi violento. O que era pertencente a alemães foi tudo quebrado, indústria, casas, clubes, comércio. Isso ocorreu de forma mais agressiva no Rio Grande do Sul e Paraná, já em Santa Catarina foi de uma forma mais acentuada e também algumas casas no Rio de Janeiro. De qualquer forma, era a opinião publica mostrando sua revolta contra o que havia acontecido…

A mudança de pensamento a respeito daqueles que possuíam origem germânica foi imediata. Existiam aqueles agitadores que seguiam as orientações vindas do Reich e grupos extremistas que estavam estabelecidos em território nacional, como analisado pelo 2o tenente reformado Aristides Saldanha Verges[2], ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira:

     Houve uma mudança sim, principalmente porque haviam aqueles que se manifestavam, esses sofreram ainda mais. Inclusive uma firma que eu trabalhava, uma vidraçaria chamada “Vidraçaria Vitro”, aqui da cidade de Curitiba na rua Marechal Deodoro, os proprietários eram de origem alemã. Portanto quando foi declarada a guerra com Alemanha e Itália, a firma foi depredada, toda quebrada, pela população civil. Porém eles pertenciam ao grupo dos integralistas.

Os incidentes marítimos foram determinantes para que o Brasil optasse por apoiar os aliados. Fato esse que fica constatado através do depoimento de Ítalo Conti.

Mesmo com a mudança de opinião a respeito dos imigrantes alemães, tanto no meio social como também no meio militar, não houve discriminação a respeito daqueles que se apresentavam como voluntários para integrar o efetivo da Força Expedicionária Brasileira, como abordado por Italo Conti[3]: “…o que não impediu que muitos filhos de alemães compusessem o efetivo da FEB. Temos como símbolo da coragem da FEB, o sargento Max Wolf Filho, filho de alemães. Eu convivi com esse sargento, porque ele pertencia ao batalhão que nós dávamos apoio”.

De certa forma era interessante para o próprio Exército que militares de descendência germânica estivessem compondo o efetivo da Força Expedicionária Brasileira. Se houvesse necessidade de uma comunicação entre militares brasileiros e militares alemães havia uma facilidade de entendimento, isso no caso de cair prisioneiro de guerra ou de fazerem prisioneiros, como analisado por Dennison[4]:

   A presença de um teuto-brasileiro entre os febianos que fosse fluente em alemão sempre foi reputada como sendo de alto valor. No caso dos brasileiros que caíram prisioneiros dos alemães, como o Cabo Amynthas Pires de Carvalho, do 11o RI, essa habilidade era considerada de forma ainda mais alta. Ele e o seu grupo de combate foram capturados, em 22.10.1944, na Região de Barga. Seu cativeiro foi tornado mais suportável por entenderem os alemães e por serem por eles entendidos, graças a presença, no grupo, de Casemiro Muller, um catarinense descendente de alemães, que falava alemão perfeitamente. (p.58)

Como ainda nos confirma o senhor Lindolfo Arendt[5] sobre essas mudanças: “Com certeza. Iniciou perseguição, nas cidades haviam inspetores de quarteirão (rua), os quais queriam mostrar serviço. Haviam famílias de descendentes de italianos e alemães que não falavam uma palavra em português, isso passa a não ser mais permitido. Mesmo vivendo dentro de uma colônia de alemães, ainda fui voluntário pra ir no efetivo da FEB”.

Fica evidenciada a diferença na forma de trato com os teuto-brasileiros, inicialmente incentivados a colonização, efetivaram grande desprendimento com seu trabalho. Após a decisão de o Brasil apoiar os países aliados, a grande mudança ocorrida, uma verdadeira aversão a quem fosse descendente de imigrantes alemães, como abordado por Virginia Leite, ex-enfermeira integrante da FEB[6]:

     No Brasil houveram as coisas mais absurdas que se possa imaginar, por que aqui mesmo em Curitiba, as lojas que eram dos alemães, italianos e japoneses, foram depredadas e os donos eram presos, o brasileiro “pintou e bordou”, com os imigrantes e descendentes. Quem estava aqui não tinha nada a ver, foi até um absurdo, mas guerra é guerra.

As perseguições ocorridas dentro do país possuíam a representatividade das lutas ocorridas contra os regimes totalitários. Porém, as perseguições foram realizadas de uma maneira generalizada, sem haver uma averiguação se aquelas pessoas estavam envolvidas ou não com grupos extremistas.

 

Referencia Bibliográfica

 

*GERTZ, René. O perigo alemão. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1991

*OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008

*SEYFERTH, Giralda. A colonização alemã no vale do Itajaí – Mirim. Porto Alegre: Movimento, 1985

*Virginia Leite. Ex-enfermeira da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 09 de novembro de 2009 na cidade de Curitiba – PR

*Lindolfo Guilherme Arendt. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 26 de outubro de 2009 na cidade de São Miguel do Oeste – SC.

*Italo Conti. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009 na cidade de Curitiba – PR


[1] Italo Conti. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009, na cidade de Curitiba – PR

[2]Aristides Saldanha Verges. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009 na cidade de Curitiba – PR. Natural da cidade de Curitiba – PR. Incorporado em 01 de dezembro de 1943 no 23o BI. Em fins de março de 1944, foi designado para viajar, sendo transferido para a cidade do Rio de Janeiro, sendo incorporado ao 6o RI. A sede dele era em Caçapava, mas já estava deslocado para a cidade do Rio de Janeiro. Iniciaram treinamentos em diversos lugares na cidade, como preparação para a Guerra. Quando partiu, no primeiro escalão, pertenceu a Cia Cmdo do 3o batalhão, do 6o RI., tendo como chefe direto o Tenente Silvio Miscov e comandante do batalhão o Capitão Antonio Barcellos. Conta na atualidade com 88 anos.

[3]Italo Conti. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 12 de novembro de 2009 na cidade de Curitiba – PR

[4] OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008. p.58

[5]Lindolfo Guilherme Arendt. Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 26 de outubro de 2009 na cidade de São Miguel do Oeste – SC. Natural de São Pedro do Sul – RS, nascido em uma colônia de imigrantes alemães. Antes de partir efetivamente para a guerra, pertenceu ao 30 Pel. 70 Batalhão de Infantaria, o qual ficou fixado em diversas instalações na cidade de Santa Cruz do Sul – RS, embarcando para Santa Maria, onde foi formado um contingente de todo o Rio Grande do Sul, partindo daí para o Rio de Janeiro em 25 de dezembro de 1944, chegando lá dia 01 de janeiro de 1945. Compuseram o efetivo de 96 militares, sendo 1 Sgt, 14 Cbs e 81 Sds. Sendo dividido esse efetivo entre as diversas frações que partiriam para a Itália compor o Depósito de Pessoal em Stafler. Não receberam nenhum tipo de treinamento, somente rigorosa inspeção de saúde, permanecendo até o dia 28 de janeiro de 1945, data em que se deu a partida do 3o escalão com destino ao depósito de pessoal na Itália, devido as baixas ocorridas nas tentativas da tomada de Monte Castelo. O referido ex-combatente conta atualmente com 89 anos, conseguiu seus benefícios de aposentadoria somente na década de 80.

[6]Virginia Leite. Ex-enfermeira da Força Expedicionária Brasileira. Entrevista realizada no dia 09 de novembro de 2009 na cidade de Curitiba – PR. Natural da cidade de Irati – PR  e descendente de família Luso brasileira. Foi a primeira voluntária do Estado do Paraná, participou do Corpo de Enfermeiras, órgão criado pela Cruz Vermelha. Esta por sua vez, criou em várias cidades um curso de enfermagem para que o exército pudesse compor um corpo de saúde de enfermeiras. Ficou designada ao corpo de saúde da FEB, seguindo para África, e depois partindo para Itália, desembarcado do avião em Nápoles. Chegando depois do segundo escalão. Conta atualmente com 93 anos.

Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte IV

Autor: Professor Mestre Alessandro dos Santos Rosa

Laços Rompidos

Como analisado anteriormente, no início da colonização alemã houve um forte incentivo para que ela ocorresse, efetivando a ocupação de terras estrategicamente distribuídas. As colônias alemãs que se estabeleceram nos três estados do sul do país, permaneceram isoladas. Não se integraram a sociedade brasileira. Viviam como alemães, mantendo costumes, tradições e utilizando a língua da terra materna, tendo como principal culpado o próprio Estado, que despreocupado com essa gente, deixou-os a própria sorte.

Inicialmente todo esse conjunto de acontecimentos era visto com naturalidade. Porém, quando ideologias sobre uma hegemonia racial começaram a ser difundidas, partindo da própria Alemanha, começaram a pairar sobre as elites brasileiras preocupações sobre essas comunidades que se mantinham íntegras e isoladas do restante da sociedade.

Surgem preocupações com a própria unidade nacional, pois associações, escolas, jornais e até mesmo igrejas, agiam ideologicamente para que permanecessem isolados todas as gerações de imigrantes alemães. Em 1871, com a criação do Império Alemão, e em 1890 a Liga Pangermânica, apoiada pelo surgimento do III Reich, buscavam apoio daqueles que estavam residindo fora da Alemanha

No inicio do século XX, o mundo caminhou para a Primeira Guerra Mundial, onde as preocupações aumentaram e ao findar da mesma respirou-se com grande alivio, como analisa René Gertz[1]:

     Graça Aranha declarou depois da guerra e da derrota alemã: “Deste perigo fomos libertados pela vitória dos aliados em 1918. Devemos-lhes a segurança da nossa integridade territorial. Se ainda algum incrédulo duvidar das vantagens obtidas pelo Brasil em combater a Alemanha, se perguntar o que lucramos materialmente, a melhor resposta a essa indagação utilitária seria aquela muito simples de obscuro, mas arguto jornal de província: ganhamos Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. (p. 16)

Após a guerra, durante as décadas de 20 e 30, as preocupações com essas comunidades isoladas foram constantes, principalmente na década de 30, já que o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido como partido nazista, reconhece como alemães todos descendentes que moravam no exterior. Formaram-se então pequenos grupos nazistas dentro do país. Tão logo se estabelece o Estado Novo iniciam-se algumas formas de represália, na tentativa de combater as infiltrações nazistas, mas procurando sempre manter os bons relacionamentos políticos e econômicos com a Alemanha.

As tentativas de golpe, como a dos Integralistas, que eram aliados a idéias nazi-fascistas, faziam com que o governo tomasse medidas que visavam obrigar os imigrantes alemães a se nacionalizar, determinando que nas escolas particulares as aulas fossem ministradas somente em língua portuguesa, como explica Dennison[2]: “Todas as aulas deveriam ser ministradas em português, todos os professores e diretores deveriam ser brasileiros natos e nenhum subsídio poderia ser fornecido às escolas por entidades estrangeiras”. (p. 23)

Da mesma forma houve exigências de que as missas deveriam ser executadas em língua portuguesa, tanto nos cultos católicos quanto nos cultos protestantes. No mês de julho de 1936, surgem indícios das dificuldades que seriam enfrentadas nas relações entre alemães e brasileiros, pois os descendentes de alemães pelas leis brasileiras eram considerados de nacionalidade brasileira, situação que era contestada pelas legislações alemãs.

Dentro das normas alemãs, o descendente de alemão, mesmo morando no exterior, era considerado como cidadão germânico e com obrigações para com seu país, como abordado por Ricardo Seitenfus[3]: “A Posição da Alemanha, relativamente aos seus cidadãos que residem no exterior, é límpida: a lei de 21 de maio de 1935 obriga todo cidadão alemão, qualquer que seja o lugar de sua residência, a cumprir seu serviço militar na Alemanha”. (p. 29)

No ano de 1941 foi baixado um decreto que acabava impondo barreiras para a entrada de novos imigrantes, com a intenção de que a nacionalização se solidificasse com maior rapidez.

Em contrapartida, as relações do campo econômico evoluíam em tamanha velocidade que causava grande preocupação aos norte-americanos, pois aos poucos viam-se perdendo sua hegemonia comercial com o Brasil. Até meados de 1934 a Alemanha mantinha interesse na compra somente de um produto, o café.

Já no inicio do ano de 1935, são realizados acordos, onde é proposto que a Alemanha concederia uma assistência no desenvolvimento de projetos ambicionados pelo governo brasileiro, que seja um deles, a construção de uma siderúrgica. Em troca seriam fornecidas matérias-primas necessárias para as indústrias germânicas.

A partir desse momento desencadeia-se uma grande quantidade de acordos econômicos, inclusive com a Itália. Esses procedimentos não tinham uma boa repercussão perante os olhares norte-americanos. Para agitar ainda mais os ânimos, no ano de 1937, Getúlio Vargas decide modificar as leis e, com apoio militar, fecha o congresso, cancela a campanha eleitoral e promulga uma nova Constituição de caráter fascista, utilizando dessa forma, um sistema existente na Europa, um regime totalitário.

Para agravar essa situação, por volta do ano de 1936, as negociações com a Alemanha e o Brasil ultrapassaram as realizadas entre brasileiros e norte-americanos. Os EUA não aceitando tal situação procuraram criar mecanismos para que essas relações comerciais entre brasileiros e Alemães fossem de certa forma prejudicadas, como explicado por Ricardo[4]:

     O departamento de estado tenta obstaculizar a aproximação comercial germano-brasileira pois, segundo Washington, a política comercial da Alemanha, com os marcos aski e as subvenções concedidas à exportação, contrariam a política comercial liberal do Programa Hull. Berlin, por sua vez, está consciente das pressões exercidas pelos Estados Unidos com a finalidade de dificultar seu comércio com a América Latina. Para os alemães, a estratégia de Washington tornou-se “claramente perceptível quando das negociações comerciais com vários Estados sul-americanos e, em particular, com o Brasil”. (p. 20-21 )

Quando acontece a ascensão de Hitler ao poder, as negociações tem uma grande evolução, cresce a importância da economia brasileira perante a nação germânica. Além do café, o principal produto comprado pelos alemães, o algodão ganha destaque, fazendo com que a própria produção dentro do Brasil fosse alavancada.

O governo brasileiro consegue manter um bom relacionamento comercial com a Alemanha e EUA até meados de 1942, momento em que é obrigado a “sair de cima do muro” e apoiar um dos lados que estavam em guerra, pois ambos continuavam a manter as relações comerciais com a elite brasileira. Os norte-americanos fizeram propostas para investir e desenvolver a economia, da mesma forma a Alemanha havia feito promessas dessa natureza, porém, os norte-americanos apresentam melhores condições econômicas para cumprir com as propostas efetuadas.

Acontecem ainda os episódios dos torpedeamentos de navios brasileiros na costa brasileira e em mar aberto, dessa forma não tinha mais como o Brasil permanecer neutro, pois as próprias elites políticas acabaram insuflando as massas dos grandes centros, onde solicitavam ao governo que apoiasse a guerra. A culpa, relacionada aos torpedeamentos, foi imputada aos alemães.

Sendo assim, o governo toma a decisão de apoiar os EUA, em troca de algumas exigências, quais sejam, o reaparelhamento das forças armadas, que se encontravam grandemente sucateadas, e a construção de uma Siderúrgica.

Referencia Bibliográfica

 

*GERTZ, René. O perigo alemão. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1991

* OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008

* SEYFERTH, Giralda. A colonização alemã no vale do Itajaí – Mirim. Porto Alegre: Movimento, 1985


[1] GERTZ, René. O perigo alemão. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1991. p. 16

[2] OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008. p.23

[3] SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai a Guerra: o processo do envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3ª Ed. Barueri, SP: Mamole, 2003. p.29

[4] SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai a Guerra: o processo do envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3ª Ed. Barueri, SP: Mamole, 2003. p.20-21

 

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Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte I

Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte II

Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte III

Os alemães e o Brasil – A Imigração Alemã – Parte III

Segue a terceira parte da análise da imigração alemão para o Brasil do Mestre Alessandro Santos Rosa:

E as preocupações aumentam!

 Preocupações mais acentuadas começaram a surgir no cenário político nacional com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), uma vez que se perceberam as idéias que pairavam dentro da Alemanha de estender seus territórios até mesmo no além-mar.

Os imigrantes residentes no Brasil passaram a representar uma ameaça, pois, além de não se integrarem a sociedade brasileira, mantinham um apoio incondicional a Alemanha, como explicado por René Gertz[1]: “Houve reservistas alemães que abandonaram o Brasil para lutar pela Alemanha; no início do conflito foi fundado o jornal Bismarck em Porto Alegre para contrapor-se às notícias negativas sobre a Alemanha difundidas pela maioria da imprensa, e mais tarde foi adquirido O Diário para o mesmo fim”. (p.16)

Se havia esse tipo de disponibilidade de um indivíduo sair de um país para onde tinha imigrado para defender a pátria mãe de arma em punho, arriscando sua própria vida, então se tratava no mínimo de uma situação de preocupação relevante. O que fora tão incentivado que ocorresse, a imigração de alemães para realizar a ocupação das grandes áreas de terras brasileiras, acaba tomando um sentido contrário, pois ficam suspensos no ar os primeiros alarmes dos perigos que passam a representar para o Brasil.

Quando finda a Primeira Guerra Mundial, as elites brasileiras respiraram aliviadas, pois a idéia do pangermanismo colocava em risco a hegemonia brasileira, a integridade e a soberania. Com a ocupação alemã, que se deu nos três estados sulinos, em maior peso no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, havia a preocupação de que a Alemanha investisse na idéia de tornar este uma extensão de seu país como ocorrido com outros países da Europa sobre regiões subdesenvolvidas.

A partir da Primeira Guerra Mundial, a preocupação com a não-integração alemã com a sociedade brasileira, torna-se constante, pois, assim como consideravam o povo judeu uma sociedade que só explorava e não trabalhava, que se aproveitavam da produção alemã, poderiam passar a ter a mesma visão dos brasileiros. Os judeus eram vistos como os grandes culpados da Alemanha estar subordinada aos efeitos do capitalismo internacional e por viver em atraso econômico. Havia uma espécie de sentimento de ódio, onde não havia lugar para essa sociedade inferior.

A intervenção de autoridades alemãs acabava influenciando as normas da política brasileira em relação a imigrantes judeus, como analisa Ricardo[2]: “A cooperação policial e governamental germano-brasileira conduz o Brasil a adotar medidas anti-semitas preconizadas por Berlim. Por meio da circular secreta n. 1.127, de 7 de junho de 1937, o governo Vargas oficializa as restrições à entrada de imigrantes de origem judaica no Brasil”. (p. 28)

Do mesmo modo, cria-se um temor intenso no Brasil, já que essas idéias criadas e alimentadas pela liga Pangermânica, após o ano de 1928, continuavam fervorosas. As comunidades de alemães passam a ser alvo de constante observação, pois a idéia de tornar o povo alemão uma raça superior era latente e foi ainda mais incentivada com o surgimento do III Reich de Adolf Hitler, como aborda Dennison[3]:

      O imperialismo, o militarismo e o pangermanismo foram entusiasticamente adotados pelos nazistas, constituindo a base de seus argumentos em favor de uma drástica mudança na ordem mundial vigente. Deve-se destacar, contudo, que o nazismo também enfatizava ainda mais os elementos de ordem racial, ao explicitar seu projeto de poder.  (p.19)

 A partir de 1920 a Alemanha inicia uma trajetória para recuperar sua economia e tentar se projetar no cenário mundial, pois com a derrota da Primeira Guerra Mundial teve toda sua estrutura abalada. Já após 1933 encontrava-se com sua economia em ascendência, um crescimento contínuo e com uma política totalitária.

Nessa mesma década, no Brasil, ocorre o golpe do Estado Novo, ascendendo ao poder a figura de Getúlio Vargas (1937), o qual tinha formas de governo e pensamento alinhados com as ideologias de Hitler e Mussolini, sendo que o primeiro ascendeu ao poder já em 1933 e o segundo em 1925, este através de um golpe de estado. Esses aspectos que caracterizam ambos os governos vão propiciar um estreitamento nas relações políticas e econômicas.

Essas novas relações preocupam de imediato o governo norte-americano, pois a política econômica, de troca de produto, fez com que houvesse um grande impulso nas atividades comerciais desenvolvidas pela aliança Brasil-Alemanha, perdendo fôlego o comércio entre brasileiros com os Estados Unidos, como analisado por Dennison[4]:

 Dessa forma, compreende-se que, ao aumento do volume do comércio da Alemanha com o Brasil, correspondesse uma queda das trocas brasileiras com os EUA. Quando Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha em 1933, os EUA respondiam por 21,2% das importações brasileiras e a Alemanha, por 12%. As exportações brasileiras para os EUA alcançavam 46,7% do valor total, e aquelas para a Alemanha, 8,1%. Cinco anos depois, o quadro era muito diferente. As importações de produtos alemães correspondiam a 25% do total, e as norte-americanas a 24,2%. Já as exportações brasileiras para os EUA haviam caído para 34,3%, enquanto as destinadas para a Alemanha subiram para 19,1%. (p.20)

Perante as alterações nos níveis de negociação comercial com a Alemanha, iniciou nesse momento uma preocupação constante por parte do governo norte-americano. Pois a comercialização com o país germânico ocorria em moeda alemã, atrelando a economia de quem estivesse comercializando, pois os valores convertidos em francos alemães ficavam depositados em bancos alemães e só poderiam ser usados para pagar por mercadorias produzidas na própria Alemanha.

Referencia Bibliográfica

 

*GERTZ, René. O perigo alemão. Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1991

* OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008

* SEYFERTH, Giralda. A colonização alemã no vale do Itajaí – Mirim. Porto Alegre: Movimento, 1985


[1] Idem. p.16

[2] SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai a Guerra: o processo do envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial. 3ª  ed. Barueri, SP: Mamole, 2003. p.28

[3] OLIVEIRA, Dennison de. Os soldados alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008. p.19

[4] Idem. p.20

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